perspectivas

Domingo, 5 Maio 2013

Revivendo a história em Berlim da década de 1920

Filed under: Europa,Ut Edita — O. Braga @ 9:56 am
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Hoje não podemos falar de esquerda e de direita, senão de liberais de esquerda e liberais de direita. A política foi reduzida ao liberalismo que, – tanto o de esquerda como o de direita – em nome da liberdade, tende a colocar o cidadão isolado face ao Estado.

O facto de os liberais de direita exigirem um “Estado mínimo” (para além de ser a única diferença relevante em relação aos liberais de esquerda, porque quase em tudo o resto estão de acordo) não significa que eles não defendam a pulverização e a atomização da sociedade em presença desse “Estado mínimo”. Pelo contrário, o argumento da defesa do Estado mínimo é contraproducente no contexto ideológico e político liberal de direita, e em termos práticos a atomização da sociedade levará inexoravelmente, e a seu tempo, ao “Estado máximo”.

” (…) a lógica do liberalismo político leva-o a tolerar ideias ou movimentos que têm como finalidade destruí-lo. A partir daí, perante a ameaça, o liberalismo está condenado, quer a tornar-se autoritário, isto é, a negar-se ? provisória ou duradouramente ? a si mesmo, quer a ceder o lugar à força totalitária colocada no poder por meio de eleições legais (Alemanha, 1933)” — Edgar Morin

A década de 1920, na Alemanha, ainda não foi devidamente estudada e descrita (pelo menos em língua portuguesa). Essa foi a década liberal por excelência naquele país, em que a política se reduzia à oposição entre liberais de esquerda e de direita – enquanto que um minúsculo partido sem significado político, liderado por Adolfo Hitler, esbracejava pateticamente pelas ruas das cidades alemãs. A cidade de Berlim, capital da Alemanha, transformou-se num autêntico bordel. O filme “Cabaré“, com Liza Minelli, espelha bem o ambiente geral da Alemanha da década de 1920, e de Berlim em particular. Não havia fanchono notório ou tarado sexual publicamente reconhecido em toda a Europa ou nos Estados Unidos que não tivesse emigrado para Berlim, que se transformou na Meca da degradação dos costumes e a capital da cultura liberal (de esquerda e/ou de direita). A cultura liberal de Berlim transformou-se numa cultura de prostíbulo e de sodomia, omnipresente na vida das elites, e influente na vida do povo em geral.

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Liza Minelli no filme ‘Cabaret’

A crise económica e financeira de 1929 veio alterar radicalmente o cenário político, não só na Alemanha como na Europa em geral. Em Itália, já há alguns anos que o ex-socialista Mussolini tinha chegado ao Poder. O liberalismo europeu da década de 1920 transformou-se, na década seguinte, nos totalitarismos que grassaram, e de um extremo político e cultural se chegou ao outro extremo. A história da primeira metade do século XX na Europa é uma história de extremismos políticos. Mas hoje parece que ninguém aprendeu com a História, e voltamos a uma idêntica dicotomia política preponderante entre liberalismo de esquerda e de direita.

A Europa já não consegue viver sem essa oscilação radical entre os dois extremos: o liberalismo (de direita em oposição ao de esquerda, e vice-versa), por um lado, e os totalitarismos ou ditaduras, por outro lado – porque se perdeu a noção adequada de Autoridade na cultura intelectual e nas elites europeias, e essa lacuna fundamental, que é metafísica e ética antes de ser política, perpassa por toda a sociedade e impõe-se na cultura antropológica.

Depois do horror indescritível e inédito da II Guerra Mundial, tentou-se fazer renascer algumas tendências tradicionalistas, e por isso não liberais. Por exemplo, Konrad Adenauer e o seu partido da democracia cristã (realmente cristão!) governou a Alemanha durante algumas décadas. Mas com o pós-modernismo (década de 1960, e Maio de 1968 por exemplo) rapidamente voltamos a uma situação semelhante (embora não idêntica) à da Alemanha da década de 1920. E com a queda do muro de Berlim, afastou-se a ameaça e o impedimento do revivalismo da década de 1920, agora com contornos políticos e culturais ainda mais nocivos para a cultura antropológica dos povos europeus.

1 Comentário »

  1. Não lembro exatamente em que documentário, mas já havia visto sobre essa fase liberal da Alemanha. Eu creio que isso se deve aos livros que prendem muito a coisa econômica, e dizer que a Alemanha era falida na época, e.t.c. E a associação que as pessoas fazem entre pobreza e virtude. De fato, quando eu vi o documentário, fiquei surpreso e pensei: “todo mundo diz que a Alemanha era falida nessa época, e como esse povo só pensa em festas e luxo?”.

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    Comentar por Marcelo R. Rodrigues — Domingo, 5 Maio 2013 @ 6:38 pm | Responder


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