Este artigo no Rerum Natura é interessante mas não aponta caminhos — não dá “dicas” pragmáticas para mitigar o problema do desemprego alto; e digo “mitigar” porque nunca será totalmente resolvido, como é óbvio: não existe empregabilidade total. Por outro lado, o artigo parte de um pressuposto que alegadamente não pode ser colocado em causa, que é o de que “o desenvolvimento da tecnologia produz desemprego”, como se os produtos feitos na China e noutros países a preço de quase escravatura não tivessem incorporação de trabalho.
Antes de ser económico, o problema é político, porque o que regula a economia (mesmo que esteja desregulada) são as leis; e antes da política está a ética. Infelizmente, o problema do desemprego é muitas vezes reduzido à análise económica, descurando a política e a ética.
No princípio da década de 1970, Alvin Toffler escreveu um livro com o título “A Terceira Vaga”, em que prognosticava que as sociedades pós-industriais do hemisfério norte deixariam de produzir manufacturas, comprariam “tudo feito” em países da “segunda vaga” e viveriam muito melhor apenas com as áreas da informação e da cibernética. Durante muitos anos os políticos acreditaram nesta visão optimista de Toffler, mas a verdade é que em vez de uma Terceira Vaga temos hoje um Segundo Dilúvio em que as economias dos países da Europa tendem a colapsar em catadupa.
A Europa do Euro ainda não optou pelo proteccionismo porque, por enquanto, não convém à Alemanha. Mas quando a China, por exemplo, começar a produzir maquinaria pesada e Mercedes-Benz a metade do preço alemão, vamos ver os políticos tudescos a clamar por um maior proteccionismo na União Europeia.
O problema é político porque não é possível que se mantenha este nível de desemprego por muito tempo sem que passe a haver uma forte repressão policial sobre a população, o que significa que a democracia tende a desaparecer na prática. Ou grande parte da Europa transforma-se em uma espécie de ditadura chinesa em versão suave (a sinificação da periferia da Europa), ou a economia europeia tende a um maior proteccionismo. E o problema é ético porque há limites de tolerância para as desigualdades sociais.