perspectivas

Segunda-feira, 22 Abril 2013

A tolerância do sofista Desidério Murcho

Filed under: ética,filosofia — O. Braga @ 8:59 pm
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Desidério Murcho mistura aqui “relativismo” e “tolerância”, como se existisse um nexo causal directo entre os dois conceitos. Há relativistas que são intolerantes (por exemplo, os marxistas culturais; a tolerância do Bloco de Esquerda é aparente).

Por vezes penso em como é possível que Desidério Murcho cometa erros deste calibre — porque ter opinião — e mesmo que seja doxa —, significa sempre tentar impor essa opinião aos outros. Por exemplo, se eu digo uma coisa tão simples como “a cor do céu é verde”, seja verdadeira ou não esta minha proposição, ela é uma imposição da minha opinião aos outros, e cabe a outrem refutar essa opinião mediante factos e argumentos.

do-it-yourself lobotomy 300 webQuando Desidério Murcho escreve que “várias vezes tenho sido acusado neste blog por alguns comentadores de ser relativista, quando na verdade não o sou; o que acontece é que não sou um ditadorzinho de meia-tijela, que quer impor aos outros o seu modo de ver as coisas”, o que ele está a fazer, objectivamente, é tentar impor aos outros o seu modo de ver as coisas!.

A definição de tolerância de Desidério Murcho é a seguinte: “tolerar é dar às pessoas o direito de não terem razão”. Há aqui uma meia-verdade que fundamenta a falsidade. Como dizia o nosso poeta Aleixo: “p’ra mentira ser segura, e atingir profundidade, tem que trazer à mistura, qualquer coisa de verdade…”

Ora, “o direito a uma pessoa não ter razão” — ou a ter razão — está automaticamente garantido à partida, desde que não exista coacção que limite o livre-arbítrio (a liberdade) dessa pessoa. Não é necessário que dêmos a outrem o “direito a não ter razão”: esse direito existe de forma natural desde que o homo sapiens apareceu na Terra. O “direito de alguém não ter razão” é um direito natural (lei natural).


Desidério Murcho tem uma visão de tolerância que advém da liberdade negativa que enforma o seu (dele) arquétipo mental. Para Desidério Murcho, “liberdade” é exclusivamente “liberdade negativa”. Tolerância não é o que Desidério Murcho diz.

Tolerar é o nosso direito de não concordar com a opinião de outra pessoa (“liberdade” entendida como um direito positivo, e não como um direito negativo), o que significa que, contra a imposição da opinião por parte da outra pessoa em relação a nós, tentamos impor-lhe a nossa opinião. E neste jogo dialéctico, o que conta é o episteme, ou seja, os factos, os argumentos e o nexo causal.

Tolerar não é apenas discordar da outra pessoa, e calarmo-nos; tolerar não é apenas pensar: “não concordo com este burro mas não lhe digo nada”. O silêncio face à opinião errónea de outrem (“erro”, na nossa opinião) é um direito negativo e uma concepção negativa de liberdade, e é uma forma de intolerância, porque se parte do princípio de desqualificação intelectual (ou outra, por exemplo, uma desqualificação ontológica) da pessoa em relação à qual discordamos.

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