perspectivas

Segunda-feira, 22 Abril 2013

A principal diferença entre Bento XVI e João Paulo II, por um lado, e Francisco I, por outro lado

Se quisermos saber a origem da mente revolucionária, teremos que estudar a história dos Fraticelli da Idade Média.

Desde a Idade Média que existem duas mundividências distintas, a que correspondem duas correntes doutrinais diferentes, por assim dizer, dentro da Igreja Católica. Estas duas correntes são, quer queiramos quer não, irreconciliáveis. A primeira é a chamada corrente “intencionalista”, que foi iniciada no século XI por Abelardo, e adoptada em surdina pelos franciscanos e Fraticelli (e por Joaquim de Fiore), e que mais tarde, no século XVI, esteve na origem da Reforma protestante.
À segunda corrente podemos chamar de “tomista” (de S. Tomás de Aquino) embora as suas origens sejam anteriores, por exemplo em João de Salisbúria ou em Hugo de S. Victor.

1/ A primeira corrente, a “intencionalista”, sofreu fortes influências gnósticas (o gnosticismo da Antiguidade Tardia não deixou de influenciar a Igreja Católica durante toda a Idade Média) e esteve na origem da formação do movimento revolucionário europeu, que teve o seu epicentro com a Reforma protestante. Para esta corrente, e como podemos ver em Abelardo, a ética é intencionalista, ou seja, o que conta é a intenção da acção e não a consequência do acto. As obras do cristão contam quase nada, e a intenção do acto conta quase tudo — vem daqui a doutrina de Lutero acerca da insignificância das obras e a afirmação do Poder do Estado. Podemos desde já antever a mente revolucionária dos nossos dias, nesta mundividência ética. E o povo, sábio, diz que “de boas intenções está o inferno cheio”.

Para além de uma ética peculiar, esta corrente “intencionalista” caracteriza-se por uma visão gnóstica da História. Por exemplo, os franciscanos medievais criaram pela primeira vez a noção de “dominação” que o marxismo cultural e Marcuse utilizaram no século XX. Tal como Rousseau adoptou no século XVIII, a escola franciscana defendeu a ideia segundo a qual a natureza (o estado de natureza) foi quebrada pela História, por causa do pecado original: antes da queda do ser humano (pecado original) no estado de uma natureza instituída, não existia nem senhor nem escravo — segundo os franciscanos medievais, e também segundo Rousseau e o Bloco de Esquerda —, nem proprietário, mas apenas a posse natural e sem direito sobre as coisas (o Partido Comunista também concorda com esta ideia). Depois da queda, e para acudir às fraquezas humanas, foi instituída pelo Homem a propriedade privada (Engels não poderia estar mais de acordo), introduzindo-se assim as relações de dominação (“dominium”) entre os homens. Mesmo o Direito foi cindido pela queda: o Direito Natural, segundo os franciscanos medievais, é o estado da natureza humana (o “bom selvagem” dos franciscanos e de Rousseau) antes da queda e do pecado original, e antes da propriedade privada e da “dominação”; o Direito Positivo é concebido para uma natureza pecadora.

2/ A esta corrente gnóstica no interior da Igreja Católica, opôs-se a corrente tomista (S. Tomás de Aquino). Para S. Tomás de Aquino, a “dominação” existia já no estado de natureza no sentido das relações políticas entre o príncipe e os seus súbditos — e não numa relação de senhor/escravo — porque o Homem é um ser político (Aristóteles), e o Direito Natural é a forma do Direito histórico. Ao contrário do defendido pelos franciscanos, S. Tomás de Aquino afirma que o Direito Positivo é a incarnação do Direito Natural na História.

Do ponto de vista da ética, S. Tomás de Aquino diverge da concepção gnóstica dos franciscanos e dos actuais marxistas. Diz ele (S. Tomás de Aquino) que devemos sempre obedecer à nossa consciência quando agimos, o que não significa que a nossa consciência esteja sempre correcta. Por isso, e depois de agir sempre conforme a nossa consciência, devemos saber se esta está bem informada — no sentido de garantir, o mais possível, a correcção das nossas acções, porque é impossível sabermos a intenção gravada nas consciências dos outros (Aristóteles). Portanto, segundo S. Tomás de Aquino, devemos: 1/ seguir sempre a nossa consciência; 2/ informar bem a nossa consciência; 3/ julgar a acção pelos actos, e não pela putativa intenção.

3/ Estas duas mundividências díspares no seio da Igreja Católica marcaram a História europeia e ocidental, até hoje. Por exemplo, Bento XVI foi um Papa “tomista” (assim como João Paulo II), e Francisco I é um Papa claramente “intencionalista”.

A metafísica dos franciscanos é transcendental (tal como a de S. Tomás de Aquino); e a metafísica marxista é imanente; mas tanto os marxistas como os franciscanos sofreram fortes influências gnósticas. Se quisermos saber a origem da mente revolucionária, teremos que estudar a história dos Fraticelli da Idade Média.

4/ A minha oposição a este verbete no blogue Casa de Sarto é, por isso, racional: baseia-se em factos históricos e na história das ideias. Ao contrário de Bento XVI, Francisco I é um Papa com fortes influências gnósticas — e podemos verificar isso nas suas acções concretas, ou seja, em factos insofismáveis. Portanto, não se trata aqui de ser “papófilo” ou “papófobo”: antes, trata-se de pensar e analisar; trata-se de pensar com a cabeça e não com o coração — porque o coração não pensa.

O determinismo é uma das características de marca e identificador do gnosticismo, e por isso, do movimento revolucionário e da mente revolucionária.

5/ O Livro do Apocalipse é um livro gnóstico por excelência, e foi o responsável pela proliferação do Milenarismo no seio da Igreja Católica. S. Tomás de Aquino contrapõe: “O futuro a Deus pertence”, por um lado, e por outro lado defendeu o livre-arbítrio do ser humano (juntamente com Hugo de S. Victor e/ou João de Salisbúria) que os franciscanos negavam mediante uma visão determinista da realidade. O determinismo é uma das características de marca e identificador do gnosticismo, e por isso, do movimento revolucionário e da mente revolucionária.

6/ A noção de “infalibilidade do Papa” não existia antes de finais do século XIX (foi o Papa Pio IX, um Papa progressista, que instituiu, pela primeira vez, essa noção). Em vez da noção de “infalibilidade do Papa”, os Fraticelli medievais tentaram instituir e fazer prevalecer a noção de Poder Absoluto do Papa — o que era coisa diferente. Segundo os franciscanos medievais, o Papa não era infalível, mas o seu Poder político era absoluto (surgiu a primeira forma de ideologia totalitarista, e defendida pelos franciscanos). A noção de Poder absoluto do Papa foi adoptada pelo luteranismo, embora em sinal contrário (dando ao soberano um poder quase arbitrário e absolutista, e defendendo a submissão incondicional da religião ao poder político), e serviu de esteio ideológico aos teóricos do Absolutismo do século XVII e da Razão de Estado, dando origem às revoluções inglesa e francesa.

Portanto, defender a ideia de “infalibilidade do Papa” é reduzir a história da Igreja Católica a apenas dois séculos.

7/ Perante o que está exposto aqui, quem escreveu aquele verbete em espanhol só tem uma solução: calar-se; porque não tem argumentos racionais (e históricos) para contrapor.

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: