perspectivas

Sábado, 20 Abril 2013

A culpa, ou é da sociedade, ou é dos genes

“Os irmãos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev são hoje os dois homens mais odiados nos Estados Unidos, mas até há uma semana as suas vidas tinham muitos dos condimentos que fazem as histórias de sucesso da imigração norte-americana. O mais velho, Tamerlan, 26 anos, era um pugilista que aspirava a lutar pelos EUA nos Jogos Olímpicos e que tinha uma namorada “meio portuguesa, meio italiana”; o mais novo, Dzhokhar, 19 anos, “tinha um coração de ouro” e recebeu uma bolsa de 2500 dólares da cidade de Cambridge para prosseguir os estudos na universidade.”

Jornal Público: “Os irmãos Tsarnaev: um pugilista sem amigos americanos e um jovem com coração de ouro” (via)

A culpa não é do Jornal Público; antes, é de Belmiro de Azevedo, que ainda não fechou aquele pasquim e abriu um jornal em condições com nova gerência.

Ou seja, a culpa é da sociedade (neste caso, capitalista americana). Um dos assassinos tinha um coração de ouro e era aplicado nos estudos, e outro assassino era um pugilista de sucesso; mas a sociedade americana estragou-lhes a vida — porque todo o indivíduo é bom por natureza, mas é a sociedade que estraga tudo. E se os dois criminosos fossem fanchonos, para além da culpa ser da sociedade capitalista, seria dos genes também. A culpa ou é da sociedade, ou é dos genes.

Em 1754, Rousseau escreveu um livro com o título “Discurso Sobre a Desigualdade” em que afirmou que “o homem é naturalmente bom e só as instituições [da sociedade] o tornam mau”. Segundo Rosseau, o primeiro homem que vedou um terreno e disse: “isto é meu!”, e achou pessoas bastantes simples para acreditar nisso, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Rousseau vai ao ponto de deplorar a introdução da metalurgia e da agricultura. O trigo é símbolo da nossa infelicidade. A Europa é um continente infeliz por ter o máximo do trigo e do ferro. Para abandonar o mal, basta abandonar a civilização, porque “o homem é naturalmente bom, e o selvagem depois de jantado está em paz com toda a natureza e é amigo de todas as criaturas.”

Rousseau enviou uma cópia do livro a Voltaire que depois de o ler, escreveu-lhe em 1755 uma carta em que dizia o seguinte:

“Recebi o seu novo livro contra a raça humana, e agradeço. Nunca se utilizou tal habilidade no intuito de tornar-nos estúpidos. Lendo este livro, deseja-se andar de gatas; mas eu perdi o hábito há mais de sessenta anos, e sinto-me incapaz de readquiri-lo. Nem posso ir ter com os selvagens do Canadá porque as doenças a que estou condenado tornam-me necessário um médico europeu, e por causa da guerra actual naquelas regiões; e porque o exemplo das nossas acções fez os selvagens tão maus como nós.”

A culpa não é do Jornal Público; antes, é de Belmiro de Azevedo, que ainda não fechou aquele pasquim e abriu um jornal em condições com nova gerência.

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