perspectivas

Terça-feira, 16 Abril 2013

Diferença e tolerância

“Diferença” é sinónimo de alteridade. Esta definição não explica nada e é até tautológica. Seria como se se dissesse que “a cor branca é clara”. Por isso vamos ter que “trocar por miúdos” a noção de “diferença”.

Quando vários termos (ou pessoas, ou grupos de pessoas) têm algo em comum, isso significa que também existem característicos desses termos que não são comuns. Ou seja, esses termos são semelhantes, mas não são idênticos.
Ao contrário do que Heidegger dizia — que “a diferença só pode ser definida negativamente” porque alegadamente “não é idêntica nem semelhante” —, a diferença entre termos implica necessáriamente a existência de semelhanças entre esses termos. Se não existe qualquer semelhança entre uma série de termos entendidos individualmente, não podemos falar de “diferença”, mas de “diversidade”: o “diverso”, sendo a desmultiplicação ad infinitum das características que separam radicalmente as identidades dos termos em questão, reúne em si tudo o que não pode ser incluído no discurso filosófico ou racional. Falar em “diversidade” não é falar naquilo que é concreto e objectivo: antes, é uma abstracção que nos conduz ao infinito e, portanto, ao ininteligível.

“Diferença” não é a mesma coisa que “diversidade”.

A diferença entre termos, ou melhor, entre indivíduos, pode ser “numérica” quando se opõe à identidade: por exemplo: um homem é diferente de outro homem, porque ambos têm identidades individualizadas (passo a redundância). E pode ser “qualitativa” quando dois seres humanos diferem pela sua natureza ou essência: por exemplo: um homem é diferente de uma mulher. Estes dois tipos de diferença — numérica e/ou qualitativa — são objectivos e genéricos: sabemos que um indivíduo (homem ou mulher) não é, pela natureza das coisas, idêntico a outro; e sabemos por determinação natural que uma mulher não é idêntica ao homem. Contudo, entre um homem e outro homem, por um lado, e entre uma mulher e um homem, existem semelhanças, e por isso é que são diferentes.

Hoje afirma-se muitas vezes o “direito à diferença” (principalmente da esquerda que é, alegadamente, a paladina dos Direitos do Homem). O “direito à diferença” não é a mesma coisa que “respeito pela diferença”. O conceito de “direito à diferença” refuta-se a si mesmo — porque se os direitos do Homem fundamentam-se no princípio da igualdade natural de todos os seres humanos, o “direito à diferença” é a negação dessa igualdade natural fundamental. Além de ser contraditória em termos, o conceito de “direito à diferença” é radicalmente nocivo à sociedade, na medida em que a reivindicação de direitos especiais e exclusivistas de determinados grupos sociais (marxismo cultural) — por exemplo, o feminismo, ou o homossexualismo — pode conduzir a um retrocesso do princípio de igualdade natural, não só entre os dois sexos mas também entre os seres humanos em geral.

O “direito à diferença” é um absurdo e um perigo iminente de retorno à barbárie.

A tolerância pressupõe diferença, mas não pode pressupor diversidade, porque o conceito de diversidade é abstracto e aponta para o infinito, e por isso não deve ser utilizado no discurso filosófico e racional concreto e objectivo — por exemplo, na política. Só se pode falar em “diversidade”, em analogia com “diferença”, por intermédio de um dogmatismo ideológico.


A noção de “tolerância”, nos tempos que correm, é absurda. E é uma absurdidade defendida como sendo racional por gente que diz de si própria “inteligente” e fazendo parte da “elite intelectual”.

A noção de tolerância sofreu uma mutação: até há pouco tempo, a tolerância significava a aceitação do direito dos outros a ter opiniões diferentes da nossa; e hoje significa a exigência de conceber as opiniões dos outros como sendo igualmente válidas em relação à nossa. Ou seja, o conceito actual de tolerância implica a ausência da verdade; e “a verdade para mim” é considerada tão válida como a verdade para qualquer outra pessoa.

Este novo conceito de tolerância implica uma mudança radical em relação à discussão de ideias, ou melhor, implica a eliminação do conflito e do contraditório inerentes à discussão de ideias, mediante a imposição do silêncio em relação a qualquer reclamação de verdade. Esta mudança do conceito de tolerância significa também o enfraquecimento da racionalidade do discurso e do diálogo, tornando-se então, a tolerância, intolerante e socialmente perigosa. O novo conceito de tolerância, que prevalece na nossa sociedade, reflecte uma situação de indigência intelectual das elites actuais — ou então é propositadamente imposta aos cidadãos pela razão que se segue:

A ideia de uma verdade universal é absolutamente necessária ao combate a qualquer tirania. A democracia e o Direito Positivo formal e processual, entendidos exclusivamente em si mesmos, não podem resolver este problema do combate à tirania ou a um qualquer totalitarismo.

E essa ideia universal de verdade só pode surgir através da discussão crítica que coloque em causa cada uma das visões particulares de verdade, e que as confronte criticamente. Por isso, o novo conceito de tolerância é uma forma de se implementar progressivamente uma nova forma de totalitarismo ou uma tirania por intermédio da validação igualitarista da opinião de todos e de cada um.

O laicismo, que está por detrás da implementação cultural deste novo conceito de tolerância, é hoje a antítese do secularismo de há apenas 30 anos; o laicismo transformou-se numa ideologia dogmática e absolutista, na medida em que nega que tenha certezas dogmáticas como qualquer outra religião política.

A verdadeira tolerância, sendo o respeito pela diferença, não significa o desrespeito pela verdade objectiva.

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1 Comentário »

  1. […] “Misericórdia”. Misericórdia não significa indulgência em relação ao erro — assim como tolerância não significa permissividade. Por exemplo, quando Jesus Cristo salvou a mulher adúltera de ser […]

    Gostar

    Pingback por O discurso patético de Anselmo Borges | perspectivas — Domingo, 14 Junho 2015 @ 7:42 am | Responder


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