perspectivas

Terça-feira, 16 Abril 2013

A liberdade do Rerum Natura em condenar a liberdade justificando um tipo de ditadura e não outro

Se a Igreja Católica sem mete na política, vemos os radicais de esquerda e o integralismo laico do marxismo cultural lançar impropérios na praça pública, jurar vingança eterna, e defender a proibição da prática religiosa. Se a Igreja Católica não se mete na política, vemos os radicais de esquerda e o integralismo laico lançar impropérios na praça pública, jurar vingança eterna, e defender a proibição da prática religiosa. “Mal com El Rei por amor dos homens, mal com os homens por amor d’El Rei …”

O que a esquerda radical pretende será, talvez, que a Igreja Católica se meta na política segundo os critérios exclusivistas dessa mesma esquerda radical — o que aliás tem acontecido, um pouco, em Portugal sob o consulado do actual cardeal patriarca de Lisboa. Porém, devemos ser racionais e criticar princípios, e não apenas as práticas.

“Entre os cerca de trinta mil mortos, os religiosos surgem com apenas 0,3%, depois dos operários, dos estudantes, dos empregados, dos docentes, dos liberais, das donas de casa, das forças de segurança, dos jornalistas e dos actores.”

papa cuba webVamos fazer de conta que os números estão certos, para não complicar ainda mais esta questão. Em primeiro lugar existe nesse argumento uma falácia non sequitur, que consiste em dizer que porque apenas 0,3% do total das vítimas da ditadura eram clérigos, isso significa que a Igreja Católica apoiou a ditadura nesse país. Aliás, o argumento refuta-se a si mesmo. Segundo esse argumento, e levado ao absurdo, concluiríamos que se o número de clérigos fosse de zero porcento em relação ao total das vítimas, o escriba chegaria à conclusão que o cardeal Bergoglio teria sido o ideólogo privilegiado e privativo do regime argentino.

Por outro lado, existe no argumento uma falácia da composição, porque provavelmente muitos daqueles mortos da ditadura eram católicos praticantes e activos. A Igreja Católica não é composta apenas pelo clero. O raciocínio anti-clericalista, para além de ser dogmático em si mesmo, tende a reduzir a Igreja Católica a uma estrutura composta exclusivamente por clérigos e sem qualquer apoio da sociedade em que está inserida — e este raciocínio é próprio de um mentecapto.

“Felizmente, para os católicos, o Papa Bergoglio, conhecido pela sua simpatia com a pobreza e um acérrimo defensor destes Direitos, não fora perseguido. Porquê? Ou ficara em silêncio ou apoiara a ditadura. As escusas que ele apresentara, como o receio de os marxistas tomarem o poder, não abonam em nada a seu favor.”

A esquerda radical mete-se sistematicamente por atalhos políticos que pretendem conduzir a ditaduras e totalitarismos, e depois aparece este tipo de avantesma a criticar as ditaduras que se opõem às ditaduras radicais de esquerda. Se os marxistas tomassem o poder na Argentina — como o escriba parece defender a sua legitimidade — também não haveria democracia nem liberdade de expressão e de opinião (como tem acontecido em Cuba e na Coreia do Norte, por exemplo); mas o escriba considera implicitamente, à boa maneira do Bloco de Esquerda ou do Partido Comunista, que há dois tipos de ditadura: aquela que é boa (a marxista) e aquela que é má (que não seja a marxista).

Parece que uma ditadura só é legítima se for de esquerda; existe uma espécie de superioridade moral absurda que justifica a legitimidade das ditaduras de esquerda e condena qualquer movimento radical de sinal contrário que se oponha a elas. Ora, se um qualquer tipo de ditadura é considerado legítimo, por uma questão de sanidade mental e coerência teremos que considerar todos os tipos de ditaduras como sendo legítimas. Ou seja, o escriba do Rerum Natura refuta-se a si próprio.

Já não há pachorra para essa gente. Mas “cantarei até que a voz me doa”.

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