perspectivas

Quarta-feira, 3 Abril 2013

A forma e o conteúdo dos ritos maçónicos (2)

Filed under: gnosticismo,Maçonaria,Ut Edita — O. Braga @ 3:08 pm

“É ao gnosticismo que nos referimos, doutrina que se tornou a partir daí um dos factores e uma das constantes primordiais das ocupações maçónicas até à actualidade”. — “A Maçonaria Universal”, de Miguel Martín-Albo, 2003, página 56 — com prefácio de António Reis, à época grão-mestre do GOL (Grande Oriente Lusitano).


Quando se fala aqui em “maçonaria” deve ler-se “Maçonaria especulativa”.

A Maçonaria especulativa é um gnosticismo invertido. Não que os símbolos gnósticos antigos, entendidos em si mesmos, sejam invertidos — mas antes que os valores que os símbolos do gnosticismo da Antiguidade Tardia representavam foram invertidos pela maçonaria. O que a maçonaria inverteu foram os valores, e não os símbolos gnósticos entendidos em si mesmos.

Por exemplo, na maçonaria, o valor é dado ao lado esquerdo; enquanto que no Judaísmo, no Cristianismo, e mesmo no chamado “gnosticismo cristão” da Antiguidade Tardia, o valor é dado ao lado direito. “Jesus Cristo está sentado à direita do Pai”, diz o Novo Testamento. Em contraponto, nos rituais de iniciação maçónica, o sapato direito do iniciante é descalçado (a direita é despojada e reduzida à sua insignificância), a perneira esquerda das calças do iniciante é enrolada de forma a mostrar a carne da perna esquerda, e a camisa do iniciante é desabotoada no lado esquerdo, deixando ver o lado esquerdo do peito (ibidem, página 507). Esta inversão dos valores correlativos aos símbolos do gnosticismo da Antiguidade Tardia abrange a própria figura dualista do demiurgo: enquanto que, para o gnosticismo antigo, o demiurgo era mau, para a maçonaria o demiurgo gnóstico é bom — o que explica, em parte, a putativa e propalada “alegria” dos maçons em contraste com o pessimismo típico dos gnósticos antigos.

Se se diz (por exemplo, com Hans Jonas ou com Eric Voegelin) que “o gnosticismo da Antiguidade Tardia era revolucionário” (no sentido de uma expressão de revolta ontológica), a maçonaria assume esse aspecto revolucionário do gnosticismo e inverte os seus valores, radicalizando ainda mais a sua mundividência gnóstica, transformando essa revolta ontológica numa Ordem Absoluta intramundana e intracósmica e em oposição a qualquer princípio primordial (o Deus primordial e transcendental dos gnósticos) que é considerado negativo pela maçonaria (ao contrário do que acontecia com o gnosticismo da Antiguidade Tardia).


“O gnosticismo é um dos factores e uma das constantes”, reza a citação. Ou seja, parece que o gnosticismo não é o único ou talvez nem sequer o principal factor. Uma coisa é certa: a maçonaria não é um monoteísmo. Retirando o monoteísmo da equação maçónica, ficamos com o dualismo ontológico e com o monismo, por um lado, e por outro lado com a noção clara e demonstrada que qualquer dualismo ontológico, na sua escatologia, culmina invariavelmente num monismo.

Os monismos chegam à unidade (ao UNO) através da relativização do particular (incluindo a relativização do indivíduo), ao passo que os monoteísmos chegam à unidade através da absolutização e da universalização do particular (incluindo o indivíduo). No Judaísmo, nem sequer existe o conceito de Deus: Javé é um nome próprio; e o conceito de Elohim é uma influência monista das crenças dos cananeus que o Judaísmo aceitou e que repudiou sucessivamente em vários momentos da História.

O conceito de “ressurreição” dos crentes, que já existia no Judaísmo a partir de 150 a.C., traduz essa absolutização e universalização do indivíduo. Ora, os monismos (sejam religiosos, sejam políticos) relativizam o indivíduo e, em casos extremos, chegam mesmo a considerá-lo como uma parte dispensável no processo de chegar ao Uno [no caso das filosofias e religiões monistas, em que o Uno pode ser, ou de certo modo quase transcendental (Nirvana), ou imanente e panteísta (estoicismo)] — ou a construção do Paraíso na Terra (no caso dos monismos políticos e imanentes, como o marxismo). Por exemplo, o marxismo é uma religião política monista e imanente; o estoicismo é uma filosofia religiosa imanente e panteísta; o gnosticismo da Antiguidade Tardia era, na estrutura comum às várias correntes gnósticas, uma religião dualista cuja escatologia (o finalismo) culminava num monismo.

O monismo puro e o monoteísmo puro são absolutamente incompatíveis; e um qualquer monoteísmo com componentes ou matizes monistas corre sempre o risco de adoptar uma escatologia monista. É neste sentido que o dualismo gnóstico acaba, nos “fins dos tempos”, por se transformar num monismo que implica a total dissolução do particular no Uno.

Esta relativização do particular que é comprovadamente característica dos monismos — e, por isso, a relativização do indivíduo enquanto pessoa — é importante para explicar a posição da maçonaria actual a favor da liberalização do aborto, a favor da promoção cultural da eutanásia, da sodomia e do “casamento” gay, a libertinagem e o hedonismo em geral, e da pulverização cultural e social de “direitos” do indivíduo. A “liberdade” do indivíduo levada ao extremo de desagregação social é uma liberdade negativa, e reflecte a relativização monista e maçónica do seu valor enquanto indivíduo. A autonomia radical do indivíduo traduz a perda real do seu valor enquanto indivíduo, porque não existe indivíduo sem sociedade/comunidade e sem a intersubjectividade do social. O indivíduo é abandonado a si próprio na procura da verdade.

O abandono do indivíduo a si próprio na procura da verdade reflecte o dualismo gnóstico que influenciou a maçonaria — dualismo esse que se dissolve num monismo escatológico (a “fusão final” com o Uno). Por isso é que nos rituais funerários maçónicos, o “Venerável” dirige-se ao maçon defunto desta forma: “Irmão, adeus, para sempre, adeus, adeus” (ibidem, página 503). O “para sempre” não é um adeus ateísta de quem não espera qualquer vida após a morte: antes, é um adeus de quem concebe o defunto como reunido no Uno e, por isso, destituído das suas particularidades individuais. E essa reunião com o Uno só é concebida em relação aos iniciados.

(segue)

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1 Comentário »

  1. […] ao formalismo ritual maçónico identificado com a forma ritual das religiões dos mistérios; o gnosticismo invertido e panteísta que elege o demiurgo (o Grande Arquitecto do Universo) como a divindade intramundana e imanente; a […]

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