Wittgenstein falou daquilo que se deve calar devido à impossibilidade de falar disso. Dizia ele que “é impossível falar daquilo que se deve calar”, mas não deixou de falar daquilo que, segundo ele, se devia calar. E depois de falar daquilo que deveria ter sido calado por ser impossível falar disso, Wittgenstein foi apresentado nos meios intelectuais como um génio, e chegou a ser professor universitário em Inglaterra.
Hoje, já quase ninguém fala em Wittgenstein. Mas se os intelectuais colocam hoje em causa o positivismo como uma “coisa ultrapassada, antiga, horrorosa!”, abraçam agora o sofismo que restou do abandono do positivismo.
O sofismo, no avesso do positivismo, diz que “é possível não falar daquilo que não se deve calar” — e portanto, as ideias e as opiniões são todas iguais. Ou melhor dizendo: o que distingue hoje a validade de uma opinião em relação a uma outra, é a lei: desde que duas opiniões não sejam contra a lei, são ambas igualmente válidas mesmo que contraditórias e/ou opostas entre si.
No tempo em que o positivismo de Wittgenstein e Schlick era rei, uma resposta correcta e lógica anulava a razão da pergunta. Por exemplo, a pergunta: ¿Quanto é 1+1? Resposta: 2. Logo, a pergunta ficava resolvida e não se falava mais nisso. Assunto arrumado.
Hoje, porém, com o sofismo instalado na nossa cultura, a coisa já não funciona assim. Se eu disser que 1+1=2, há sempre alguma alma sabichona que me diz pesporrentemente: “Caro amigo: isso é a sua opinião…!”
No tempo do positivismo, diziam os intelectuais que “o critério da significação (a validade do significado de uma proposição ou questão) é a sua verificação (científica)”. Rapidamente se verificou que esta asserção se refuta a si mesma, porque ela própria não é verificável. Mas hoje estamos ainda pior, porque o sofismo instalado defende a ideia segundo a qual “o critério da verificação é a sua significação”, o que transforma a ciência em qualquer coisa que tenha um qualquer significado exclusivamente subjectivo. O positivismo matou o sujeito, e o subjectivismo sofista vingou-se e matou a ciência.