perspectivas

Terça-feira, 26 Março 2013

Fernando Pessoa ajuda-nos a compreender a política das engenharias sociais e das fracturas culturais

Fernando Pessoa, nas suas Obras em Prosa coligidas, 1975, Tomo III, páginas 17 e 18, transcreve um trecho do livro “Conservantismo”, da autoria do Lorde Hugh Cecil, filho do marquês de Salisbúria, como segue:

«Tornou-se altamente interessante inquirir onde está o centro do Poder que domina, em última análise, a Casa dos Comuns e a autoridade ilimitada que, pela Constituição, essa Casa exerce. É interessante e importante, porém não é muito fácil. Pode dizer-se que o Poder está no Gabinete, isto é, nos quinze ou vinte homens predominantes do partido em maioria.

Mas isso nem sempre será verdade. Pode às vezes haver discordâncias no Gabinete. ¿Qual é a força que então determina que a decisão seja dada num sentido ou noutro? A melhor resposta é que a autoridade suprema num Partido é em geral exercitada pelos mais activos e enérgicos dos organizadores partidários sob comando de um ou mais dos principais chefes do Partido. Às vezes o chefe nominal do Partido está entre estes homens; outras vezes não está. Mas eles derivam a sua força, não só da sua situação pessoal, mas de que, de um modo ou de outro, influem no que se pode chamar de Guarda Pretoriana do Partido, isto é, os seus elemento mais activos e ardentes.

Se é assim, temos graves razões de receio. A Casa dos Comuns nomeia o executivo e tem domínio absoluto sobre a legislação. O Partido em maioria na Casa dos Comuns domina absolutamente a Casa dos Comuns. Esse Partido é, por sua vez, dominado pelos seus elementos mais ardentes e enérgicos, sob o comando dos políticos a quem esses são mais afectos. Quer isto dizer que a suprema autoridade do Estado está nas mãos de partidários extremos e nas mãos dos estadistas que mais admirados são por esses partidários extremos. É quase impossível conceber uma forma menos satisfatória de governo. Isto, contudo, é que é a realidade.

A aparência é que a Casa dos Comuns representa o povo. Mas, de facto, o povo nem tem a voz dominante na escolha da Casa dos Comuns, nem domínio real sobre ela, uma vez escolhida. O povo tem, na prática, só a liberdade de escolher entre o candidatos partidários que são submetidos à sua escolha. São os partidários ardentes — a Guarda Pretoriana — quem escolhe os candidatos; os eleitores têm somente que determinar se querem ser representados pelo nomeado dos Pretorianos Conservadores ou pelo nomeado dos Pretorianos Liberais, ou, em casos mais raros, podem escolher um candidato, não menos disciplinado, nomeado pelo Partido Trabalhista.

Os independentes podem propor-se, e algumas vezes se propõem à eleição. Mas as eleições, nas condições modernas, são a tal ponto matéria de organização e mecanismo que é com grande desigualdade que um independente se pode bater contra os candidatos nomeados pelos partidos. O triunfo de uma candidatura independente é a coisa mais rara deste mundo. A única e verdadeira influência que têm os independentes está no desejo dos chefes partidários de lhes obter os votos. Mas até isto tem na prática um alcance limitado. Há assuntos controversos sobre os quais os partidários ardentes, de um lado e de outro, sentem tão fortemente que quase nada se importam da opinião do público não partidário. E, quando a Casa está eleita, a influência da opinião pública fica semelhantemente limitada.

Alguma coisa se fará para obter apoio na próxima eleição geral; mas, sempre que os homens do Partido do governo realmente se empenhem num assunto, correrão todos os riscos para fazer vingar a sua política. Sobretudo o farão quando o assunto de que se trate envolva o crédito pessoal de um dos chefes da sua confiança. O facto formidável é que a mais alta autoridade do nosso Império imenso e único se encontra alternadamente nas mãos de dois grupos de homens veementes, intolerantes e desequilibrados.»

Mais adiante, no mesmo Tomo, na página 22, Fernando Pessoa escreve o seguinte:

«Um hábito social, isto é, uma tradição, uma vez quebrado, nunca mais se reata, porque é na continuidade que está a substância da tradição. Além de que, não sabendo ninguém o que é a sociedade, nem quais são as leis naturais por que se rege, ninguém sabe se qualquer mudança não irá infringir essas leis. Em igual receio se fundamentam as superstições, que só os tolos não têm — no receio de infringir leis que desconhecemos, e que, como não as conhecemos, não sabemos se não operarão por vias aparentemente absurdas. A tradição é uma superstição. »

No mesmo Tomo, Fernando Pessoa escreve:

«Só pode ser universalmente aplicável o que é universalmente verdadeiro, isto é, um facto científico. Ora, em matéria social não há factos científicos. A única coisa certa em “ciência social” é que não há ciência social. Desconhecemos por completo o que seja uma sociedade; não sabemos como as sociedades se formam, nem como se mantêm nem como declinam. Não há uma única lei social até hoje descoberta; há só teorias e especulações, que, por definição, não são ciência. E onde não há ciência não há universalidade.»

1 Comentário »

  1. Brilhante. Tanto mais por ser tão óbvio.

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    Comentar por Bic Laranja (@biclaranja) — Terça-feira, 26 Março 2013 @ 8:08 am | Responder


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