perspectivas

Quarta-feira, 20 Março 2013

Imaginação e verdade

Filed under: cultura,Ut Edita — O. Braga @ 11:09 am
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“Castellani habla en Los papeles de Benjamín Benavides de asuntos sobre los que la cultura de nuestro tiempo ha echado siete candados; y que hasta los propios cristianos han dejado de ‘imaginar’.

Pero, como en algún pasaje de la obra observa su autor, toda esperanza verdadera se apoya en el pedestal que la imaginación le presta: si no podemos hacernos una idea concreta de lo que esperamos, tendemos a expulsarlo de nuestra mente. Desde hace ya bastante tiempo, se está haciendo un esfuerzo -silencioso pero implacable- que consiste en retirar poco a poco todos los apoyos sobre los que la imaginación popular sostenía su creencia en una vida futura; y así, cegadas todas las salidas por donde el creyente buscaba concebir su destino último, la esperanza acaba marchitándose y siendo ensordecida por «una manga de profetoides, de vaticinadores y cantores del progresismo y de la euforia de la salud del hombre por el hombre».

Pero no hace falta sino mirar en derredor para descubrir que todas las promesas de consecución del paraíso en la Tierra que nos hicieron los ‘cantores del progresismo’ se han revelado falsas y frustrantes.

via A Casa de Sarto: "Los Papeles de Benjamín Benavides", de Leonardo Castellani – leitura absolutamente obrigatória!.

Constatar a transcendência (a tal “vida futura” a que faz referência a citação) não é, mesmo para o camponês analfabeto da Idade Média, uma mera questão de imaginação.

O processo de diferenciação cultural da humanidade desde os tempos mais remotos, que conduziu ao advento das religiões reveladas (por exemplo, Budismo, Judaísmo ou Cristianismo), está ligado à necessidade de disciplina da imaginação humana. A imaginação não é um fim em si mesma: antes, é um meio para se atingir algo. E sendo um meio, deve ser utilizada de uma forma adequada e disciplinada no sentido de se colocar perante o caminho que conduz à verdade. É neste sentido que a ciência e a religião se encontram, na medida em que, tanto numa como na outra, a imaginação não significa necessariamente verdade.

Pascal dizia que “a imaginação é mestra do erro e da falsidade”. Ora, isto não significa que, para ele, a imaginação fosse toda ela negativa — até porque Pascal usou bastamente da sua (dele) imaginação. O que ele quis dizer é que a imaginação, quando utilizada desregradamente, conduz ao erro e à falsidade. Ou seja, tem que existir um critério para a imaginação positiva ou para a imaginação que se insere dentro do caminho da verdade; e esse critério tem-nos sido dado, paulatinamente, e mediante as sucessivas diferenciações culturais ao longo dos tempos, pelas religiões reveladas.


O problema do positivismo não se prende com a negação da imaginação, porque a própria negação da imaginação é uma forma de imaginação (embora errada e falsa, como defendeu Pascal). O problema do positivismo é que eliminou o sujeito, e com isso varreu qualquer hipótese de humanidade (incluindo a imaginação). Porém, em contraponto ao positivismo, verificamos no pós-modernismo a pulverização desregrada da imaginação que a reduz a um fenómeno exclusivamente subjectivo. A intersubjectividade da imaginação, que transporta consigo a sua racionalidade intrínseca, é restringida pela cultura intelectual que influi na cultura antropológica, fazendo que, em termos reais, se obtenha um resultado sócio-cultural e civilizacional semelhante ao pretendido pelo positivismo. O positivismo, por um lado, e por outro lado o subjectivismo solipsista actual, são as duas faces da mesma moeda.


Ao contrário do que parece estar escrito na citação em epígrafe, a percepção da transcendência, mesmo a que existia nos camponeses analfabetos da Idade Média, por exemplo, não é um produto da imaginação humana. Pelo contrário, a percepção da transcendência decorre de uma experiência pessoal e subjectiva do camponês medieval (neste caso) — porque estamos mais próximos de Deus do que de outro ser humano — que é, no entanto, corroborada pela intersubjectividade. O que a religião revelada (o Cristianismo) forneceu ao camponês medieval foi uma orientação racional para essa experiência subjectiva e endógena, mediante a possibilidade de uma intersubjectividade (“coerência racional”) com sentido. A imaginação subjectiva como meio de representação simbólica não faz sentido sem a sua afirmação intersubjectiva, o que significa a racionalização das subjectividades — e foi isto que o Cristianismo e outras religiões reveladas instituíram, com a passagem do tempo, através de processos sucessivos de diferenciação cultural.

Portanto, constatar a transcendência (a tal “vida futura” a que faz referência a citação) não é, mesmo para o camponês analfabeto da Idade Média, uma mera questão de imaginação. Antes, é uma questão de experiência pessoal e subjectiva que, através da racionalização que a intersubjectividade lhe concedeu, e mediante a disciplina da religião revelada, se revelou uma expressão do real. Constatar a transcendência não é a mesma coisa que imaginar uma utopia política qualquer; não devemos colocar num mesmo plano a constatação da transcendência, disciplinada pelas religiões reveladas, por um lado, e por outro lado, a imaginação da utopia que conduziu à concepção do paraíso na Terra. Podemos dizer, por isso, que o homem moderno sofre mais do que o homem medieval, porque tem necessariamente uma experiência pessoal da transcendência mas reprime-a e nega-a em função dos preconceitos culturais introduzidos pelo racionalismo e pelo Iluminismo.

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1 Comentário »

  1. A discensão entre Ciência e Religião, Razão e Fé, no completo esquecimento da Filosofia, gera o que vemos hoje: militantes que querem ser chamados pelo distintivo daquilo que imaginam ser (ao que chamo de Complexo do Elefante Cor-de-Rosa de Sri Lanka). Bem dizia o nosso amigo Olavo de Carvalho: “Fujam do Mundo Melhor! Todas as pessoas que chegaram ao mundo, alegando que tinham a doutrina do Mundo melhor, acabaram por promover, invariavelmente, o genocidio e a tirania!”.

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    Comentar por Ebrael Shaddai — Quarta-feira, 20 Março 2013 @ 1:43 pm | Responder


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