perspectivas

Domingo, 3 Março 2013

A pessoa é um conceito a priori e independente da experiência

Ainda há quem acredite na racionalidade desta União Europeia.

Feto com 12 semanas

Feto com 12 semanas

Quando o “direito à vida” está inscrito na declaração dos direitos humanos que a União Europeia diz defender, nomeadamente através do Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos”, e simultaneamente se reconhece o “direito” ao aborto a pedido discricionário da mulher, já não é possível escamotear e esconder a contradição.

A política pode afirmar que uma coisa é, e simultaneamente não é. Os políticos são livres de dizer o que quiserem; mas a liberdade dos políticos não erradica a racionalidade; a liberdade não elimina a verdade — a não ser que os direitos humanos apenas tenham um valor ilusório e não devam ser levados a sério. Dizer que um embrião ou um feto não são ontologicamente humanos, só lembra ao diabo (e parece que o diabo, de facto, existe).

O problema surgiu com o Iluminismo, e nomeadamente com Kant que definiu assim a “pessoa”: “a pessoa é aquele sujeito cujas acções podem ser imputadas”. A pessoa tem que ter uma autoconsciência contínua: “Aquilo que tem consciência da identidade numérica de si próprio, em vários momentos, é uma pessoa”. É baseado nesta concepção kantiana de “pessoa” que Peter Singer defende o “direito” de uma mãe matar o seu filho depois do nascimento, enquanto a criança “não tem consciência da identidade numérica de si própria”; e é segundo esta concepção de pessoa que a política actual defende já a eutanásia coerciva das “pessoas” dementes.

Kant entrou em contradição com a sua própria teoria, porque confundiu um conceito a priori (a categorização de “pessoa”) com um conceito a posteriori e empírico (a classificação empírica do ser, em termos de compreensão e de extensão).

Mas não podemos apenas culpar Kant: a própria Igreja Católica, durante muito tempo, defendeu a ideia segundo a qual, durante um determinado tempo de gestação, o feto não tinha alma; e ainda hoje a Igreja Católica não considera a possibilidade de um funeral condigno de um feto abortado espontaneamente. Portanto, o mal é geral e generalizado.

Retomando Kant: das duas uma: ou colocamos o embrião/feto em uma categoria a priori de pessoa, e então a autoconsciência passa a ser apenas uma das muitas características ontológicas do ser humano. Ou classificamos a posteriori o embrião/feto em uma lógica exclusivamente empírica, em termos de compreensão e de extensão, e então podemos eleger, como válida e de forma discricionária, apenas uma só ou uma parte do conjunto, mas quaisquer características ontológicas do ser humano. A contradição de Kant consistiu em misturar ou confundir, no que diz respeito à “pessoa”, o conceito a priori, por um lado, com o conceito a posteriori, por outro lado,


Defender a vida humana é tentar ser coerente, até ao limite do possível, com o conceito a priori de pessoa — porque da experiência humana, no sentido da techne grega, resulta sistematicamente o erro; e não devemos errar no que respeita à vida humana sob pena de estarmos a colocar em risco a nossa própria vida. O empirismo diz-nos hoje o seguinte:

“Scientific investigation has proven to be a persuasive pro-life tool by shedding light on the humanity of the unborn child. Science has shown a baby’s tiny heart begins to beat by 21 days after conception and that by 20 weeks fetal age a baby is capable of feeling pain.”

via New research shows brain connectivity begins in utero | LifeSiteNews.com.

Porém, o empirismo já nos disse coisas diferentes acerca do embrião/feto, no passado. Só hoje se diz que o coração de uma criança bate aos 21 dias depois da concepção, e que um feto de 20 semanas sente dor. E não há razão absolutamente nenhuma para acreditarmos que este conceito empírico e a posteriori acerca do embrião/feto não possa ser revisto no futuro.

Considerar a autoconsciência como a única condição da definição de pessoa — e portanto, de ser humano — é como considerar, por exemplo, que uma pessoa tem que ter necessariamente duas pernas, e que, por isso, os pernetas não podem ser considerados pessoas. É reduzir a pessoa a uma determinada característica de ser e do ser; é defender a legitimidade do erro no que respeita ao conceito de vida humana; e é, sobretudo e no limite, colocar nas mãos das elites o direito de decidir sobre a vida e a morte de nós próprios.

Anúncios

2 comentários »

  1. […] e não um conceito a priori e apodíctico. Essa ideia errada do Padre foi desconstruída aqui. E o argumento da autoconsciência utilizado não só a favor do aborto como a favor do […]

    Gostar

    Pingback por O bacorejar abortista do Padre Anselmo Borges | Bordoadas — Domingo, 5 Maio 2013 @ 8:23 pm | Responder

  2. […] e não um conceito a priori e apodíctico. Essa ideia errada do Padre foi desconstruída aqui. E o argumento da autoconsciência utilizado não só a favor do aborto como a favor do […]

    Gostar

    Pingback por O bacorejar abortista do Padre Anselmo Borges | perspectivas — Domingo, 5 Maio 2013 @ 8:23 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.