Em David Hume, não há qualquer verdade em qualquer tipo de código moral, e por isso não existe nenhuma razão teórica para considerar qualquer proposição moral como sendo verdadeira. Ou seja, segundo o cepticismo humeano, o bem não pode ser determinado. Este cepticismo moral e ético de David Hume foi, em grande parte, incorporado pelos marginalistas (século XIX) e por Hayek na sua teoria económica-política, e faz parte integrante daquilo a que chamamos hoje de “neoliberalismo”.
Porém, ainda hoje existem os chamados “liberais clássicos”, que seguem uma linha ideológica directa a partir da escola escocesa do século XVIII (Shaftesbury, Hutcheson, Adam Smith, e também Adam Ferguson) , e que tem o seu maior representante, no século XIX, em John Stuart Mill. Os liberais clássicos não são propriamente cépticos humeanos: aliás, Stuart Mill aproximou-se até, a espaços, da ética do dever de Kant. Portanto, a ideia segundo a qual “o liberal é amoral”, é falsa. Porém, os liberais (fica subentendido que são os clássicos) seguem um outro tipo de cepticismo moral, embora mais benigno: o internalismo ético.
Neste artigo do Brussels Journal, o autor faz referência indirecta ao internalismo ético dos liberais, embora eu não concorde com a ideia de que os liberais clássicos sejam hoje representados pelo libertarismo. Os libertários, como por exemplo, Nozick, são neoliberais radicais. Libertarismo (marginalistas humeanos) ≡ Objectivismo (Ayn Rand) ≃ neoliberalismo (Hayek) . Os liberais clássicos, como por exemplo Stuart Mill, entendem a necessidade de um Estado relativamente forte para um bom funcionamento da economia (está muito claro no pensamento de Stuart Mill).
Contudo, os liberais clássicos têm uma visão historicista da economia política, entendendo o “progresso” como uma lei da natureza. O artigo do Brussels Journal chama a atenção para isso. Essa visão liberal do progresso prende-se com uma ética internalista, que consiste em defender a ideia segundo a qual as razões (subjectivas) para considerar que uma coisa é boa são também as razões para escolher essa coisa.
“Just like Marxism, classical liberalism assumes that people at all times act on purely economic impulses, in the first case collectivist, in the second tending towards more freedom. In a trivial way, of course, behavior is always determined by economic calculation, in the sense that people will only adopt a course of action if it seems beneficial to them. But let me stress the word “seems”. The fact that a human being perceives a certain goal as beneficial, does not in the least mean that this goal is objectively good, and neither does it implicate that all human beings will necessarily perceive the same goals as good, namely, workers’ solidarity in the communist view, or free market economics in the classical liberal view.”
Em contraponto, o externalista nega que as razões (subjectivas) para considerar que uma coisa é boa são também as razões para escolher essa coisa (por exemplo, Philippa Foot, na linha do imperativo categórico de Kant). Para o internalista liberal, o interesse próprio é considerado como uma boa razão para agir, e por isso, segundo os liberais, a economia de mercado, baseada no princípio do interesse próprio, passou a fundamentar a ética e a moral, embora com o poder regulador da lei e do Estado (Stuart Mill). E o poder regulador do Estado depende do formalismo positivista do processo de promulgação das leis, que transforma a vontade exclusivista das elites económicas em leis, mesmo que muitas vezes sejam leis ilegítimas.