perspectivas

Quinta-feira, 21 Fevereiro 2013

A Bélgica vai estender a eutanásia a crianças (2)

Filed under: ética — O. Braga @ 11:00 am
Tags:

Ao longo da minha vida — e já não sou propriamente um jovem — mudei muitas vezes de opinião acerca da forma como via este ou aquele problema, embora mantivesse firme uma certa mundividência. Fernando Pessoa vai mais longe na visão “progressista” da opinião :

“A coerência, a convicção, a certeza são, além disso, demonstrações evidentes – quantas vezes escusadas – de falta de educação. É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.
Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia.”

A modernidade inverteu a lógica dos monges franciscanos: enquanto que estes nada têm e possuem tudo, o homem moderno tem tudo mas não possui nada (Georg Simmel, “Filosofia do Dinheiro”, 1900).

Eu não acompanho Fernando Pessoa quando ele diz que “é sinal de boa educação mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia”. A opinião de Fernando Pessoa é um elogio à loucura. Mas assim como é de loucos mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia, também é loucura julgar que uma pessoa não muda de opinião ao longo de uma vida inteira. Esta é uma das razões por que sou contra a pena-de-morte: um jovem assassino de 20 anos, verosimilhantemente não o será já aos 70.

Por isso, é loucura alguém pensar que uma decisão tomada, em determinado momento, por uma criança a favor da sua eutanásia é uma decisão definitiva e não passível de mudança. As elites da União Europeia encontram-se hoje no grau mais baixo de indigência intelectual, quando defendem a ideia segundo a qual “uma criança pode decidir em plena consciência” o seu suicídio legal.

Se até mesmo os adultos mudam de opinião várias vezes ao longo da sua vida, ¿ por que razão se deveria supôr que uma criança não iria nunca mudar de opinião acerca da sua própria morte?


No verbete anterior falei do lóbi da eutanásia que resulta da confluência de três factores fundamentais: o dinheiro (o “facto social total”, segundo Georg Simmel), o Poder (político), e a inversão revolucionária da ética (a mente revolucionária).

eutanasia webPara Georg Simmel, o dinheiro é o Deus dos tempos modernos; um fim absoluto. O dinheiro, em vez de ser um meio para se atingir qualquer fim (como era antes do Iluminismo), é na modernidade um fim em si mesmo. O dinheiro é o Deus do homem moderno, que pensando livrar-se das amarras sociais do feudalismo medieval, meteu-se num beco ontológico sem saída possível e onde apenas encontrou a liberdade negativa.

Ao contrário da liberdade positiva prevalecente no tempo anterior ao iluminismo, a liberdade negativa do homem moderno não encontra o seu sentido — porque para se ser verdadeiramente livre não é suficiente libertarmo-nos e desligarmo-nos de qualquer coisa: pelo contrário, é preciso, ainda assim, ligarmo-nos a qualquer coisa para encontramos o sentido, que torna a nossa liberdade, positiva. Portanto, o homem moderno, ao querer encontrar a sua liberdade sem dependências, perdeu-a na medida em que perdeu o sentido de vida.

Ligado ao dinheiro como Deus dos tempos modernos, está a sede do Poder político que se baseia no elitismo auto-iluminado do movimento revolucionário, de todos os tempos — desde os gnósticos da antiguidade tardia, passando pelos gnósticos católicos (como, por exemplo, Joaquim de Fiore ou os Fratelli medievais que defendiam o Poder Absoluto do Papa), até aos gnósticos do cisma protestante (como, por exemplo, os Quakers ingleses ou os anabaptistas holandeses), e finalmente o gnosticismo socialista e utilitarista surgido das revoluções europeias do século XVIII (por exemplo, Saint-Simon, Bentham) e no marxismo. Esta sede insaciável de poder político tem hoje uma relação estreita e biunívoca com o dinheiro-Deus.

A modernidade inverteu a lógica dos monges franciscanos: enquanto que estes nada têm e possuem tudo, o homem moderno tem tudo mas não possui nada (Georg Simmel, “Filosofia do Dinheiro”, 1900).

A ler: Should children and incompetent persons be euthanized in Belgium?

Anúncios

1 Comentário »

  1. Compartilho da mesma mudança de opinião que tu, acerca da pena de morte. Publiquei artigo de reflexão (http://oandarilho01.wordpress.com/2012/09/03/pena-de-morte) que começa apelando para o posicionamento pró-vida pleno, intransigente, que precisa rechaçar também a pena capital, inclusive para não ficar vulnerável às críticas dos agentes da Cultura da morte.

    Em tempo: chega a ser irônico que os mesmos ignóbeis que alardeiam que os religiosos têm capacidade de compreensão limitada, sustentem que todos devem dar confiança para compromissos assumidos por crianças. A malícia dessa gente não tem limites.

    Gostar

    Comentar por oandarilho01 — Quinta-feira, 21 Fevereiro 2013 @ 1:48 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: