perspectivas

Segunda-feira, 18 Fevereiro 2013

O Rei é um símbolo da Nação, e não um mero signo da política

Filed under: cultura,Portugal,Ut Edita — O. Braga @ 6:49 am
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Um símbolo tem um representado; tem uma representação. Um símbolo não é um sinal ou um signo. O signo ou sinal é mais ou menos arbitrário: pode ser mudado sem que se altere o seu significado; um símbolo não pode ser mudado sem que se extinga aquilo que ele representa (e vice-versa). Para além do significado cultural que os signos ou sinais também podem ter, os símbolos têm um significado espiritual que é intersubjectivo e universal. Essa é a diferença entre a hermenêutica e a semiótica: a primeira estuda os símbolos e a segunda os signos ou sinais.

Sem um símbolo personificado da Nação, ou seja, o Rei, o povo perde o sentido da História; instala-se na Nação a prepotência e o nepotismo políticos instituídos pela alienação da soberania que retiram ao povo a sua identidade histórica e o controlo mínimo necessário do seu destino.

O símbolo real não se representa a ele próprio, como é óbvio. O Rei como símbolo tem um representado que é a Nação; e só porque representa simbolicamente a Nação é que acaba por ser um signo ou sinal de representação política do Estado. O Rei como chefe-de-estado tem uma representação política semiológica que é diferente do Rei como símbolo, até porque é evidente que uma nação pode ter um rei que não seja, em um determinado momento da História, chefe-de-estado — e nem por isso ele deixa de ser rei.

Sendo que o Rei é um símbolo da Nação que é a sua representação espiritual, não é possível a existência do Rei sem a Nação. Se uma nação desaparece voluntariamente, esvanece-se e se dilui em uma obediência formal e substancial a uma potência estrangeira, perdendo a nação a sua soberania, o rei perde o seu simbolismo e deixa de fazer sentido. Fazendo uma analogia (e não uma comparação!): assim como, por exemplo, Jesus Cristo é o símbolo espiritual do Cristianismo, o rei (ou rainha) é o símbolo de uma nação.

Já o mesmo não acontece com um presidente da república: já constatamos, na prática, que é possível ter um presidente da república mesmo quando a soberania de uma nação é sistematicamente transferida para o leviatão europeu. O presidente da república é um signo cultural e/ou político, mas nunca um símbolo; é um Ersatz do rei, uma “fotocópia” do rei, por assim dizer, que por ser fotocópia nunca pode ser idêntica ao original.

D. Duarte Pio de Bragança

D. Duarte Pio de Bragança

O Rei, no caso português como na maioria das nações, tem um significado originário e axiomático em relação à Nação. E mesmo nos países da modernidade que nasceram já como repúblicas — como por exemplo, o Brasil e os Estados Unidos —, a política teve a preocupação de instituir uma áurea da realeza que transforma o presidente da república em uma espécie de rei ad hoc. Foi assim, por exemplo, que surgiu o peronismo na Argentina e o lulismo no Brasil. Em países republicanos europeus, como por exemplo, França, Alemanha e Itália, os respectivos descendentes da realeza e da nobreza desempenham hoje importantes funções sociais e políticas, e mesmo altos cargos de Estado.

Sem um símbolo personificado da Nação, ou seja, o Rei, o povo perde o sentido da História; instala-se na Nação a prepotência e o nepotismo políticos instituídos pela alienação da soberania que retiram ao povo a sua identidade histórica e o controlo mínimo necessário do seu destino.

A república só fez algum sentido popular quando foi nacional e soberanista e, por isso, uma fotocópia da monarquia. A partir do momento em que a república aliena a soberania da Nação, deixou de se identificar com a tradição monárquica; e, por isso, deixou de fazer sentido. Hoje, nesta União Europeia, a república portuguesa já não faz sentido; e o presidente da república assumiu finalmente o seu estatuto de mero sinal ou signo político, e já não de sub-símbolo nacional mimetizado de quando a república era soberanista.

Como símbolo da Nação, o Rei português não pode ser uma espécie de rainha de Inglaterra que assume hoje uma mera função decorativa. A função decorativa da rainha de Inglaterra está a destruir a monarquia no Reino Unido (por exemplo, com a independência da Escócia, e quiçá também e brevemente, a independência do País de Gales), desnacionalizando a Britânia às mãos de uma elite governativa actual que se diz “conservadora”, e de uma oposição trabalhista que postula claramente a alienação da soberania e da nação britânicas.

A aventura do leviatão da União Europeia “vai dar com os burros na água”. Está escrito nas estrelas. E quando uma gravíssima crise política sobressair, vamos precisar do Rei; vamos precisar de um símbolo personificado da Nação.

2 comentários »

  1. Caro Orlando Braga.

    Em relação ao Brasil. Por que você não considera o período monárquico de 1822 a 1889? Não foi justamente neste período que se deu o nascimento do Brasil enquanto nação?

    Onofre Velloso.

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    Comentar por Onofre Velloso (@ovbastos) — Terça-feira, 19 Fevereiro 2013 @ 12:09 am | Responder

    • D. Pedro viveu muito chegado à maçonaria, e por isso transportou com ele o surgimento da república, primeiro no Brasil e depois em Portugal. A chamada “monarquia constitucional” portuguesa, que preparou o terreno para a república em Portugal, foi obra do maçon D. Pedro e dos seguidores maçónicos do movimento de 1820 conhecido como “Vintismo”. Do Vintismo e da acção maçónica surgiu, em fins do século XIX, a organização secreta e sanguinária maçónica conhecida por “Carbonária”, que assassinou o rei português D. Carlos I, em 1 de Fevereiro de 1908.

      Portanto, em minha opinião, D. Pedro não foi um bom exemplo de monarca, o que não significa que o seu irmão, D. Miguel tenha sido um bom exemplo de rei, embora por razões diferentes. Em bom rigor, não podemos dizer que no Brasil independente alguma vez tenha existido uma monarquia propriamente dita. O Brasil conheceu uma monarquia até 1800, e principalmente com D. João VI e a Corte no Rio de Janeiro até 1818. A partir daí, o que se passou no Brasil foi o prelúdio da república ou uma república em construção por via da acção política maçónica.

      Note-se que o movimento maçónico seguido em Portugal desde D. Pedro até hoje, e seguido no Brasil no século XIX e parte do século XX, foi o movimento maçónico de matriz francesa (e não o inglês e/ou americano) marcadamente revolucionário e sanguinário.

      De qualquer modo, é verdade que, do ponto de vista formal, existiu um sistema político monárquico no Brasil anterior à implantação da república.

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      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 19 Fevereiro 2013 @ 4:33 am | Responder


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