perspectivas

Domingo, 17 Fevereiro 2013

A ética do sentimento, de Schopenhauer a Emmanuel Levinas

“As relações humanas interpessoais são importantes para avaliar as circunstâncias a morte; na verdade, a minha mortalidade, a minha condenação à morte, a minha morte constituem a absurdidade que torna possível a gratuitidade da minha responsabilidade pelo outro.

Esta proposição pode ser lida na página 124 do livro de Sofia Reimão (ver nota em rodapé), e reflecte o pensamento do francês Levinas e, alegadamente, o pensamento de Gabriel Marcel que não conheço. Mas vamos ver se a proposição é verdadeira por reductio ad absurdum.


1/ Desde logo, fica claro que a proposição é um imperativo hipotético, e por isso não tem força de lei moral.

2/ A proposição parece querer fundamentar uma ética na imanência e, por isso, prescindindo de uma axiomática e de uma axiologia transcendentais. Ou seja, segundo a proposição, é a imanência da morte, em si mesma considerada “absurda”, que fundamenta o amor pelo próximo. Em última análise, conclui-se que o amor pelo próximo, ou a responsabilidade pelo outro, decorre do (alegado) absurdo da vida. A pergunta que se faz, agora, é esta:
¿ Como se pode extrair uma lógica qualquer a partir do absurdo que é, por definição, a ausência de lógica?
A verdade é que eu posso dizer que uma determinada situação ou raciocínio são absurdos, partindo de uma posição lógica; mas já não posso dizer que uma situação ou raciocínio são lógicos partindo de um pressuposto de absurdidade. ¿ Como é que eu posso construir uma lógica a partir do absurdo?

pastora de Jean-François_Millet3/ A proposição em epígrafe parte de uma renúncia radical de fundamentação racional dos valores da ética, na linha de Schopenhauer, de Levinas, ou de mulheres como, por exemplo, Herlinde Pauer-Studer e mesmo Hannah Arendt. Porém, a partir do momento em que se renuncia à fundamentação racional dos valores da ética, e com o apelo exclusivo ao sentimento e à emoção para a fundamentação desses valores, ficam abertas as portas à arbitrariedade — porque nem todos os seres humanos têm os mesmos sentimentos, ou sentimentos idênticos. Alguns seres humanos são mesmo incapazes de qualquer empatia sentimental; e, ainda assim, os valores de uma ética — que se querem universais e intemporais — também têm que valer para esses seres humanos destituídos de sentimentos empáticos.

4/ A proposição supracitada incorre em um sofisma naturalista, na medida em que não se podem tirar conclusões morais (o amor e/ou a responsabilidade pelo outro) de um facto (a imanência da morte) — não é possível deduzir valores e normas a partir dos factos.


(Os verbetes desta série — “A Questão da Medicina e a Morte como Questão”, de Sofia Reimão — podem ser lidos sob esta categoria).

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