perspectivas

Terça-feira, 12 Fevereiro 2013

A privatização da morte é consequência da privatização da religião

Do livro de Sofia Reimão (ver nota em rodapé), talvez o mais interessante seja o capítulo 2 com o título genérico “Morte e Modernidade”, na medida em que aborda um pouco mais a área do problema ético da morte.

« (i)O facto de a morte ser frequentemente anónima, em clínicas e hospitais, mostra que existem efeitos secundários antropológicos e éticos, muito profundos. A natureza pública do acontecimento com que termina a vida não é a única vertente a desaparecer; de facto, o doente terminal é separado do seu ambiente familiar e as pessoas emocionalmente envolvidas ocultam os seus verdadeiros sentimentos. (ii) De acordo com Gadamer, esta separação introduz a morte no ciclo tecnológico da produção industrial.

(iii)O progresso técnico-cientifico, em conjunto com o individualismo típico dos dias de hoje, marcam profundamente a experiência contemporânea da morte e afastam-na para longe da sociedade, privatizando-a. (iv) Há quem afirme que é devido a este contexto que a eutanásia se torna compreensível para muitos: esta “morte secreta” revela que o homem moderno conseguiu tomar posse da morte dos outros, considerando-a como algo de seu. (v) O suicídio, como recusa dos outros, surge, também, neste contexto; (vi) por outro lado, aumentam as situações em que doentes terminais se sentem realmente sós, no pressuposto de que as pessoas que os rodeiam pensam eles já não são importantes. »


“A maquinaria moderna é mais complexa a cada dia que passa, e o homem moderno mais elementar.” — Nicolás Gómez Dávila

A ética preponderante hoje — sublinho: hoje, no Ocidente — é essencialmente uma ética semelhante à da escola cirenaica, e não, como erroneamente se diz, uma ética epicurista — porque para os epicuristas, o prazer obtém-se por eliminação do hedonismo, enquanto que para os cirenaicos, o “bem soberano” (prazer) é o próprio hedonismo. Porém, a ética actual predominante e institucionalizada segue algumas influências secundárias e laterais do epicurismo, em dois aspectos: 1) o isolamento do indivíduo face à cidade (a sociedade), e 2) o cálculo da amizade.

Se somarmos aos princípios éticos cirenaico-epicuristas; a revalorização do marxismo cultural sob outras vestes ou forma, que destrói a família natural e antropológica; a demagogia política do conceito do cidadão-não-legislador que atomiza a sociedade e a prepara para um novo tipo de totalitarismo; a afirmação do desconstrucionismo e do pós-estruturalismo de que Heidegger e Gadamer são co-responsáveis; a privatização coerciva da religião (John Rawls) em nome da liberdade e na linha ideológica de Rousseau que escreveu que “a vontade geral deve obrigar o cidadão a ser livre”; e os direitos do homem entendidos, em si mesmos, como uma política — chegamos às causas da actual “morte anónima” da pessoa.

Portanto, grosso modo, a ética prevalecente hoje é a de um certo hedonismo cirenaico que adoptou o modus operandi do epicurismo. Digo “hoje” porque, pelo menos em Portugal, este fenómeno ético não ocorria há apenas vinte anos, e deve-se à forte influência cultural e política proveniente dos países luteranos do norte da Europa, por um lado, e por outro lado, pelo processo de recuperação cultural do marxismo (marxismo cultural, pós-estruturalismo e desconstrucionismo) depois da queda do muro de Berlim.

Para os epicuristas, “por sermos mortais, habitamos uma cidade sem muralhas” (Epicuro). Uma das principais condições dos seguidores de Epicuro era a de sair da cidade e habitar fora das muralhas, longe da sociedade, isolados dela. Hoje, esse isolamento epicurista traduz-se na noção de “o homem só, no meio da multidão”. Essa multidão não é necessariamente a de uma grande metrópole: pode ser uma pequena multidão de uma pequena cidade, vila, ou mesmo aldeia; trata-se mais de um problema de mundividência e menos de um problema de existência ou de situação.

O segundo matiz epicurista da ética actual e predominante, é o cálculo epicurista da amizade. Para os epicuristas, a amizade é o resultado de um rigoroso cálculo de utilidade: ter amigos constitui o supremo bem, e a multiplicação de amizades constitui a mais elevada garantia de segurança que pode ser oferecida ao indivíduo. Porém, a reciprocidade estabelece-se, simultaneamente, na relação dessa amizade como condição da sua permanência — ou, por outras palavras, a amizade não é apenas uma virtude (um meio ou mediação para a sabedoria ou para a felicidade) mas é também um fim em si mesma. Falta saber como é possível que possa surgir a generosidade, o altruísmo e a abnegação, a partir do interesse particular epicurista (princípio do interesse próprio).

Esta ética misturada entre o hedonismo cirenaico, por um lado, e uma certa mundividência epicurista, por outro lado, tem vindo a ser imposta à sociedade ocidental desde o Iluminismo, mas foi a partir do pós-modernismo que se acelerou o processo de inversão cultural e ética no Ocidente. E os principais responsáveis por essa inversão ética pós-modernista são as elites (a ruling class), e principalmente as elites académicas. É das universidades que tradicionalmente sai a escumalha ética.

O desenvolvimento da ciência não tem necessariamente que implicar ou produzir o ambiente ético actual — ao contrário do que diz Gadamer. O que contribui para a criação da actual ética cirenaica/epicurista é o cientismo que é coisa diferente de ciência.

O individualismo típico dos nossos dias tem origem numa interpretação errada e pós-moderna do princípio da autonomia de Kant, interpretação essa que separa o cidadão, por um lado, do legislador, por outro lado — ao contrário do que Kant tinha preconizado.

A privatização da morte é consequência da privatização da religião.

Esta privatização da religião não é já a repressão da religião própria dos totalitarismos do século XX, mas antes é um processo ideológico auto-contraditório, pouco claro e ambíguo, que se baseia na doutrina de John Rawls de privatização da moral, por um lado, e por outro lado na invocação dos “direitos” do indivíduo-não-legislador para justificar essa privatização coerciva da religião; ou seja, depois da queda do muro de Berlim, os direitos humanos transformaram-se, em si mesmos, em uma política (Marcel Gauchet).

Em suma, se somarmos aos princípios éticos cirenaico-epicuristas; a revalorização do marxismo cultural sob outras vestes ou forma, que destrói a família natural e antropológica; a demagogia política do conceito do cidadão-não-legislador que atomiza a sociedade e a prepara para um novo tipo de totalitarismo; a afirmação do desconstrucionismo e do pós-estruturalismo de que Heidegger e Gadamer são co-responsáveis; a privatização coerciva da religião (John Rawls) em nome da liberdade e na linha ideológica de Rousseau que escreveu que “a vontade geral deve obrigar o cidadão a ser livre”; e os direitos do homem entendidos, em si mesmos, como uma política — chegamos às causas da actual “morte anónima” da pessoa.


(Os verbetes desta série — “A Questão da Medicina e a Morte como Questão”, de Sofia Reimão — podem ser lidos sob esta categoria).

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