perspectivas

Domingo, 10 Fevereiro 2013

O “não-ser”, ou pensar a minha não-existência

Filed under: A vida custa,filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 9:28 am
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No livro de Sofia Reimão (ver nota em rodapé), refere-se amiúde o conceito de “pensar a minha não-existência perante a morte”, ou pensar o “não-ser” — no seguimento daquilo a que alguns chamam de “filosofia” existencialista e/ou descontrucionista de Heidegger et al.


Okakura Kakuzö

Okakura Kakuzö

A propósito de Heidegger, não sabia mas fiquei a saber que o conceito de Dasein de Heidegger foi plagiado do autor japonês Okakura Kakuzo que primordialmente o tinha introduzido no seu livro “Book of Tea”, escrito em 1906. Kakuzo ofereceu uma cópia do seu livro a Heidegger em 1919, em que o conceito de Dasein foi traduzido, no livro e do japonês para o alemão, como “das in-der-Welt-sein”. E Heidegger simplesmente fez de conta que o conceito era original e de sua autoria. Por este facto e por outros se vê a qualidade ética do dito “filósofo” alemão.


Schelling — baseando-se em S. Tomás de Aquino e Santo Agostinho — chamou muitas vezes à atenção de que não é possível a um ser humano pensar a subjectividade sem contradições, porque a subjectividade é circular em si mesma — mas Heidegger e Gadamer pensaram que Schelling era burro. E por isso, ambos fizeram de conta que a auto-referencialidade não existia, e particularmente Heidegger fez da filosofia uma série de romances de cordel que ainda hoje encantam as mentes mais intelectualizadas.

¿ Existo porque penso, ou penso porque existo?

Repare-se na frase: “Houve um tempo em que eu não vivia, e chegará um tempo em que já não viverei”. Na tentativa de pensar a minha não-existência, tenho que produzir uma imagem de mim próprio; como se eu fosse outra pessoa; tenho que “saltar para fora” de mim próprio — o que é uma impossibilidade objectiva: nunca posso “pensar-me a mim próprio” a partir do “exterior de mim próprio”. Se me penso a partir do exterior de mim próprio, então não me penso a mim; e se me penso a partir do interior [de mim próprio], então não posso pensar o que seria “não existir”.

Os inteligentes, que publicaram livros, como Heidegger ou Gadamer, pensam que a auto-referencialidade é um conceito medieval e ultrapassado pela “evolução da lógica”.

Segundo Gödel (outro grande burro!), todos os sistemas auto-referenciais são insondáveis. Se traduzirmos o teorema de Gödel em modo filosófico e metafísico, teremos que deduzir o facto geral de “eu ser prisioneiro de mim próprio”, não me podendo ver a partir do exterior.

A ciência e a filosofia vêem as coisas a partir da terceira pessoa, mas a subjectividade — a alma, a consciência, o espírito; chamem-lhe o que quiserem — só pode ser descrita adequadamente na primeira pessoa. Ou seja, todo o saber científico e/ou filosófico sobre o “eu” pessoal e individual é apenas indirecto, e não pode ser outra coisa. Qualquer perspectiva de “terceira pessoa” não penetra no “eu individual”.

Não obstante, terá que existir algo em comum entre todas as almas individuais: a intersubjectividade. Sem a intersubjectividade e sem a consciência, não seria possível a ciência.


(Os verbetes desta série — “A Questão da Medicina e a Morte como Questão”, de Sofia Reimão — podem ser lidos sob esta categoria).

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