perspectivas

Sábado, 9 Fevereiro 2013

O positivismo e a impossibilidade da consciência

Filed under: filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 8:29 am
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Sofia Reimão escreve, na página 73 do seu livro (ver nota em rodapé):

“Importa saber se, a partir da consciência da mortalidade, é possível efectuar uma fenomenologia da morte enquanto tal. Em primeiro lugar, podemos afirmar que o “morrer” pode, até certo ponto, ser objecto de experiência. Contrariamente ao morrer e às expressões fenomenais da morte humana, a morte — isto é, o estado de morte — parece escapar à experiência do ser vivo e a uma inteligência intencional, a uma redução fenomenológica. O método fenomenológico descreve o que aparece à consciência, descreve a doação daquilo que é dado à consciência.

Parece que a morte não se dá à maneira de um objecto externo da percepção ou do vivido da consciência: a morte seria um não-fenómeno. Se a morte humana não é dada como um objecto àqueles que estão vivos, parece ser de concluir que uma tentativa de reflexão sobre a morte, através da ajuda do método fenomenológico estará votada ao fracasso. Dá-nos a impressão de que a morte seria meta-fenomenológica. Na verdade, não revestindo nenhuma espessura ontológica, sendo privação de ipseidade, a ausência de um para-si, a morte parece não nos deixar aproximar do seu limiar senão através de símbolos e metáforas: ela não é experimental.

O olhar que lhe prestamos é o olhar de alguém que está vivo. Vemo-nos, portanto, forçados a aproximar-nos da morte unicamente através do que está aquém dela, isto é, a partir da vida. Em suma, tudo leva a crer que uma redução fenomenológica da morte está, à partida, condenada.”


Há, neste texto, uma confusão que decorre de uma ambiguidade no uso de determinados termos: por exemplo, fenomenologia, fenómeno, experiência, consciência, objecto, etc. — e essa confusão deve-se talvez ao enviesamento interpretativo dado por um espírito formatado pelo positivismo, mas que porventura lhe tenta escapar.

1/ Por exemplo, o conceito de “fenomenologia” ( “o que aparece à consciência”) não se refere apenas à relação da consciência com objectos externos físicos (com massa), porque, de assim fosse, seria impossível ao ser humano conceber fenomenologicamente, por exemplo, a função de onda (Ψ) ou a onda quântica pura (que não tem massa). A fenomenologia debruça-se sobre tudo aquilo que apareça à consciência, seja um objecto com massa (físico) ou sem massa (não-físico) — porque a onda quântica pura também é um “objecto” na medida em que faz parte da função Ψ que é parte objectiva da realidade.

Ou seja — e utilizando a linguagem absurda de Heidegger — é possível que algo apareça “para-mim” de forma objectiva, mesmo não sendo um “objecto das coisas do mundo” (físico).

De facto, existe uma dificuldade extrema do ser humano em conceber alguns aspectos da realidade através da linguagem corrente: dou um exemplo de uma proposição:

“Para quaisquer três números, o produto do primeiro com a soma do segundo com o terceiro é igual à soma dos produtos do primeiro com o segundo e do primeiro com o terceiro”.

Agora vejamos a mesma proposição em lógica-matemática:

(∀x) (∀y) (∀z) [x.(y+z)=(x.y)+(x.z)

A simplicidade dos símbolos, quando comparados com a complexidade inteligível da linguagem, não significa necessariamente que os “símbolos e metáforas não sejam experimentais”.

2/ Em segundo lugar, temos o conceito de “experiência”, segundo o trecho supracitado. Aqui, também parece existir uma certa ambiguidade, na medida em que “experiência” é concebida alternadamente como “experiência positivista”, por um lado, e/ou “experiência subjectiva”, por outro lado, fundindo ad liminem as duas noções numa só — o que é objectivamente impossível.

A experiência humana pode ser subjectiva pura, ou intersubjectiva — sendo que a intersubjectividade é a base da ciência da natureza quando os dados da realidade são confirmados empiricamente.

A consciência é uma experiência originária, comprovável a nível intersubjectivo, que antecede a experiência objectiva.

Sem que esta definição de “consciência” seja verdadeira, a ciência não seria possível, porque a ciência não é possível sem consciência e sem intersubjectividade. A ciência e o seu método pressupõem a consciência como uma experiência originária, comprovável a nível intersubjectivo e que antecede a experiência objectiva.

O facto de um fenómeno experiencial intersubjectivo não ser empiricamente verificável não significa necessariamente que ele não pertença ao real.

3/ As experiências ditas “perto da morte”, subjectivas mas confirmadas intersubjectivamente, embora não possam ser empiricamente verificáveis e demonstráveis, revelam de facto uma experiência da morte enquanto tal — em que a consciência parece não depender do corpo físico para se manter enquanto consciência —, e não apenas uma experiência do “processo de morte” a partir do “aquém” e do “mundo dos vivos”. Naturalmente que quem nunca passou por essa experiência não pode ser testemunha experiencial dela.

Em suma, o excerto em epígrafe parte de um preconceito negativo naturalista, ou seja, de uma espécie de dogma do nosso “espírito do tempo”.


(Os verbetes desta série — “A Questão da Medicina e a Morte como Questão”, de Sofia Reimão — podem ser lidos sob esta categoria).

7 comentários »

  1. […] Não obstante, terá que existir algo em comum entre todas as almas individuais: a intersubjectividade. Sem a intersubjectividade e sem a consciência, não seria possível a ciência. […]

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    Pingback por O “não-ser”, ou pensar a minha não-existência « perspectivas — Domingo, 10 Fevereiro 2013 @ 9:28 am | Responder

  2. Estimado Braga.

    Percebo que domina o conceito de função de onda. Por acaso além do livro “O tao da física”, de Fritjof Capra, já leu o livro “O Enigma Quântico – Desvendando a Chave Oculta” de Wolfgang Smith pela Vide Editorial e prefácio de Olavo de Carvalho.

    Pode parecer que foge do assunto deste artigo, no entanto, lendo esse seu artigo, começo a percebe que muita confusão no ensino da ciência vem do fato do cientista e professores de ciência não dominarem as etapas do processo pelo qual apreendemos a realidade. Isso falo como aluno que fui e agora professor de Física.

    Olavo de Carvalho admite que Wolfgang Smith apresente a solução para o enigma quântico. Em suas palavras <>.

    Em sala de aula devido a programas de ensino e ementas pré estabelecidos, sou obrigado a “ensinar” sobre esse mundo quântico <> para alunos que ainda não dominam a realidade que os cercam. Hoje consigo identificar qual era a razão da minha dificuldade e qual a dificuldade dos meus alunos: como falar de coisas não sensíveis se ainda não dominamos o discurso de como apreendemos a realidade sensível.

    Acompanho seu blog e reconheço na sua pessoa um domínio sobre filosofia, domínio esse, que gera admiração da minha pessoa pela a sua.

    Portanto, devido a admiração faço a pergunta: algo idêntico ocorre nas ciências humanas? Esse modo operante – falar de coisas não sensíveis antes de entendermos como apreendemos a realidade sensível é o elemento preponderante da cultura moderna? A sociedade moderna tem sua orientação moral delineada nas coisas não sensíveis antes de dominar a relação do homem com a realidade sensível?

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    Comentar por George Valadares — Terça-feira, 22 Julho 2014 @ 1:10 am | Responder

    • 1/ O livro “Tao da Física”, de Fritjof Capra, é do início da década de 1970. Na década de 1980, o físico francês Alain Aspect fez uma experiência com fotões e constatou que eles comunicavam entre si a uma velocidade superior à da luz. De um modo semelhante, em 1992 o físico alemão G Nimtz enviou informação (fotões) através de um túnel e verificou uma velocidade quatro vezes superior à da luz.

      2/ Não li o livro de Wolfgang Smith.

      3/ O que se passa no ensino da Física são basicamente dois fenómenos culturais: o primeiro é a tentativa de ocultação das descobertas da física quântica por parte dos professores, porque a física quântica actual coloca em causa alguns paradigmas, como por exemplo, o determinismo do mundo físico. O segundo é a tentativa, por parte da comunidade científica, de negar as conclusões lógicas a que chegou a física quântica, através por exemplo da teoria da descoerência de Zureck, James Hartle, Roland Omnès, ou Murray Gell-Mann.

      Ou seja, a ciência está hoje em estado de negação.

      4/ Tal como acontece na religião, a quântica deve ser ensinada através de símbolos, sejam estes matemáticos ou através de metáforas simbólicas.

      5/ você pergunta:

      “Esse modo operante – falar de coisas não sensíveis antes de entendermos como apreendemos a realidade sensível é o elemento preponderante da cultura moderna?”

      Essa pergunta contém uma falácia, que consiste em insinuar que é possível conhecer a “realidade sensível”. Aliás, é uma falácia que é muito utilizada por quem está em estado de negação face às conclusões da física quântica. Só podemos conhecer positivamente (cientificamente) partes das “realidade sensível”, por um lado, e por outro lado, a “realidade” não tem definição, e por isso é que é impossível conhecê-la TODA de modo positivo (positivismo). Só podemos conhecer aquilo que é definível.

      A “realidade sensível” é um conceito, e não uma noção. Um conceito pode conter elementos constitutivos até ao infinito.

      Portanto, a sua pergunta parte de um princípio errado.

      Talvez o que você pretendesse perguntar seria o seguinte:

      “A cultura actual transformou a física quântica em uma religião New Age?”

      Eu penso que não.

      Os princípios teóricos e filosóficos da física quântica são demasiadamente complexos para serem assimilados por qualquer pessoa. A função de onda quântica não é comparável aos OVNIS ou ao ZEN. A equação de Schrödinger não pode ser colocada no mesmo plano da teoria de iniciação de Gurdijeff.

      Na física quântica estamos a falar no formalismo matemático que, sob o ponto de vista da filosofia, se transforma em metafísica pura, e não de metafísica especulativa e imaginativa das religiões New Age.

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      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 22 Julho 2014 @ 11:02 am | Responder

  3. Com sua orientação e parafraseando, acredito que posso fazer a pergunta de maneira correta.

    Dada nossa limitação de controlar todas as coisas – variáveis, sistemas físicos -, não pode haver , estritamente falando, um determinismo das coisas.

    Isso porque, não há grau de especificação que possa afastar a indeterminação residual das coisas, por exemplo sistemas físicos, como você aponta “Um conceito pode conter elementos constitutivos até ao infinito.” e Wolfgang Smith na distinção entre objeto corpóreo e físico.

    Essa distinção é o prefácio para atacar a física quântica com a metafísica aristotélica (matéria e forma); S. Tomás de Aquino (ato e potência).

    Depois da sua observação “Na física quântica estamos a falar no formalismo matemático que, sob o ponto de vista da filosofia, se transforma em metafísica pura, e não de metafísica especulativa e imaginativa das religiões New Age.”, meu “ratio” de leitura do livro ganhou um pequeno grau de dilatação.

    Voltando, a indeterminação residual, não impede de construirmos aviões, dispositivos eletrônicos, etc. Porém, tal fato, não implica que a ciência deva ser usada em todas as estâncias da vida do indivíduo, como por exemplo, torna-se a religião que irá orientar moralmente o homem.

    Apesar de leigo em filosofia e política, começo a ter a vaga apreensão da uma promessa comum no positivismo e iluminismo, que é: o homem maravilhado com obtenção de feitos magníficos – tecnologia – alcançou a independência; pode-se realizar qualquer coisa, uma vez que o “determinismo” da ciência simbolizado na tecnologia aduz a convicção que antes vinha da fé.

    Esse estado de negação é justamente a tentativa de obliterar o fato de que não há grau de especificação que possa afastar a indeterminação residual das coisas, e portanto é inadequado propor que a ciência traga a convicção alcançada na fé?

    O cientificismo apontado em muitos de seus artigos, é por excelência, tornar a ciência detentora das diretrizes, as quais, deve ser a ortopraxis do homem moderno?

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    Comentar por George Valadares — Terça-feira, 22 Julho 2014 @ 2:34 pm | Responder

    • 1/ Como eu disse anteriormente, não li o livro desse senhor Wolfgang, e por isso não posso falar dele senão através de ideias que me possam fornecer. Falar daquilo que não lemos é muito complicado.

      2/ Se alguém opõe a metafísica aristotélica e/ou a tomista, por um lado, à física quântica, por outro lado, só pode ser burro. Não há qualquer contradição REAL ou oposição lógica entre o tomismo e a física quântica.

      3/ A indeterminação não é “residual”. A indeterminação é real e faz parte da própria construção da realidade física. A causalidade ou a a-causalidade, no domínio atómico, não são expressão dos nossos conhecimentos limitados, mas sim são constitutivas neste domínio da realidade. Por isso, devemos falar em de uma probabilidade OBJECTIVA, por contraposição a uma probabilidade meramente subjectiva baseada apenas em uma falta de conhecimento das “razões causais” (como defendeu, erradamente, Einstein).

      Quando você diz que a indeterminação é “residual”, parte do princípio da probabilidade subjectiva que se baseia na falta de conhecimento das razões causais; ou seja, parte do princípio de que existe uma qualquer lógica causal naturalista que impõe a regularidade das leis do universo, e que a ciência ainda não descobriu.

      A indeterminação pode ir de 0 a 1 — e 1 é a indeterminação total, e 0 é a ausência de indeterminação (determinismo rigoroso). Ora, entre 0 e 1 pode-se encontrar qualquer grau de indeterminação; e isto é tudo o que se pode realmente dizer acerca da indeterminação: encontra-se entre o zero e o um.

      “Indeterminação residual” é um termo utilizado pela ciência positivista para desvalorizar a indeterminação real.

      4/ Não devemos confundir “fé”, por um lado, e “crença”, por outro lado. Ao contrário do que se pensa, a ciência, propriamente dita, é perfeitamente compatível com a religião — porque a fé não é a mesma coisa que crença.

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      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 22 Julho 2014 @ 3:46 pm | Responder

  4. Eu cometi um erro.

    Essa distinção é o prefácio para atacar a física quântica com a metafísica aristotélica (matéria e forma); S. Tomás de Aquino (ato e potência).

    2/ Se alguém opõe a metafísica aristotélica e/ou a tomista, por um lado, à física quântica, por outro lado, só pode ser burro. Não há qualquer contradição REAL ou oposição lógica entre o tomismo e a física quântica.

    Devo pedir desculpas, pois usei a palavra “atacar” de maneira equivocada. Retificando fica:

    Essa distinção é o prefácio para fundamentar a física quântica com a metafísica aristotélica (matéria e forma); S. Tomás de Aquino (ato e potência).

    É comum, entre os físicos usar a palavra atacar como sinônimo de usar. Confesso, é um péssimo abuso de linguagem.

    Mais uma vez obrigado por ajudar a diferenciar indeterminação residual de indeterminação real e ter o zelo de não usar fé como sinônimo de crença.

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    Comentar por George Valadares — Quarta-feira, 23 Julho 2014 @ 4:27 am | Responder

    • Se substituir “atacar” por “fundamentar”, já estou de acordo.

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      Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 23 Julho 2014 @ 8:11 am | Responder


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