perspectivas

Quarta-feira, 6 Fevereiro 2013

Sofia Reimão e o cepticismo de David Hume

Filed under: ética,filosofia — O. Braga @ 5:37 pm
Tags: , , ,

(Os verbetes desta série podem ser lidos sob esta categoria).

Sofia Reimão escreve o seguinte (pág. 63 do referido livro):

(i) Embora inclua fundamentais problemas teóricos de natureza metafísica e teológica, o tema da morte permanece, antes de mais, como um assunto antropológico: diz respeito à vida humana.

(ii) A questão do significado da morte está relacionada com a questão da natureza humana, com a questão fundamental que é a de saber “o que é o homem”.

(iii) Este problema não pode ser esclarecido se for negligenciado o problema da realidade da mortalidade.


1/ Verificamos aqui, neste excerto, com uma clarividência total, a inversão da prioridade lógica das coisas (a inversão revolucionária do nexo causal), causado pelo embotamento intelectual da pós-modernidade absorvida pela Técnica. Desde logo, seria avisado que se utilizasse a conjunção adversativa “ou” — de natureza metafísica ou teológica — em vez da copulativa “e”, porque a “metafísica”, mesmo sendo a “clássica” (como se houvesse outra!), não é a mesma coisa que “teologia”.

2/ Depois, diz que os problemas de natureza metafísica são “teóricos”, e por isso, relegados para um segundo plano, uma vez que o termo usado, “antes de mais”, releva a prioridade da morte como um “assunto antropológico”, em detrimento dos primeiros princípios. Ou seja, por exemplo, a primeira lei de Leibniz é considerada “teórica” e, por isso, de importância secundária. Ou os axiomas da lógica, que não são físicos, têm uma importância relativa e secundária para a “questão do ser”.

3/ David Hume, conhecido pelo seu cepticismo radical, defendeu que afirmações sobre relações de ideias, por um lado, e afirmações sobre questões de facto, por outro lado, diferem em dois aspectos: o primeiro (1), é o tipo de reivindicação da verdade que pode surgir dos dois tipos de afirmação. Certas afirmações sobre relações de ideias são verdades necessárias — por exemplo, o teorema de Pitágoras, ou o teorema de Euclides que diz que “a soma dos ângulos de um triângulo é de 180º, e não outra coisa qualquer”.

Ou seja, mesmo para o céptico radical David Hume, os axiomas da lógica e os seus teoremas derivados são verdades evidentes. Segundo Hume, afirmar os axiomas e negar o teorema é construir uma auto-contradição; mas, por outro lado, afirmações sobre questões de facto nada mais são que verdades contingentes: negar uma afirmação de natureza empírica não é uma auto-contradição (segundo David Hume) porque, alegadamente, o estádio dos assuntos de origem empírica poderia ter sido outro.

4/ Acontece que o radicalismo céptico de Hume foi invertido pelo pós-modernismo: os axiomas da lógica e os seus teoremas derivados são agora verdades contingentes, e os factos (históricos, por exemplo, mesmo que desconstruídos a bel-prazer) passam a ser verdades necessárias. Ou seja, em oposição ao cepticismo racionalista de Hume, temos hoje um cepticismo irracional.

5/ A modernidade, em geral, pega na realidade e corta-a às postas, e depois diz que das postas não se pode deduzir a realidade inteira. Seria como se eu cortasse um peixe às postas e depois inferisse, da análise de uma posta, que o peixe não tem cabeça. Estamos aqui a falar de um problema importante de embotamento intelectual, de um capsis diminutio evidente da intelectualidade pós-moderna. Assim como Heródoto não compreendeu Homero, o intelectual pós-moderno não compreende a lógica entendida fora dos requisitos essenciais da Técnica.

6/ É lógico que David Hume tinha razão: as verdades necessárias são axiomáticas, e por isso, metafísicas. E também por isso é que a metafísica tem prioridade sobre a antropologia na questão de saber “o que é o Homem”. E preocupa-me que alguém que escreva um livro acerca da vida e da morte (humana, ou não), e que pode influenciar o pensamento do “espírito do tempo”, seja de tal forma radicalmente céptico que inverta as premissas do cepticismo radical de David Hume!

(1) O segundo ponto em que diferem é no método seguido para verificar a verdade ou falsidade dos dois tipos de afirmação.

Anúncios

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: