perspectivas

Segunda-feira, 4 Fevereiro 2013

David Hume e o milagre

“Dado que uma experiência uniforme equivale a uma prova, que é uma prova directa e completa, produzida pela natureza do facto, contra a existência de qualquer milagre, nenhuma semelhante prova pode ser destruída ou o milagre só pode tornar-se credível por meio de uma prova oposta e que seja superior.”
— David Hume, “Investigações sobre o Entendimento Humano”

Não vamos refutar este preconceito negativo de David Hume por intermédio da teologia (o que seria possível por alguém que não eu, porque não sou teólogo), mas antes vamos refutá-lo utilizando a ciência.

1/ O tipo de argumento de David Hume contra os milagres — escorando o seu argumento na necessidade de uma “experiência uniforme” (estatística) que alegadamente equivale a uma prova — é hoje comummente utilizado não só pelo homem moderno e ignorante em geral, mas também por professores de filosofia nas salas de aula.

Tal como o empirismo cientificista actual ignora ostensivamente Gödel, assim o homem moderno, e as ciências empíricas em geral, ignoram ostensivamente as descobertas da física quântica.

2/ Convém dizer que as equações da física quântica são inteiramente determinísticas — tal como acontece na física clássica. São baseadas em pressupostos estatísticos e de repetição de “experiências uniformes” que “equivalem a provas”. O indeterminismo surge quando se trata de estabelecer uma relação entre essas equações determinísticas e os actos experimentais.

3/ Vamos aqui abordar o conceito de “efeito de túnel”, da física quântica. Vejamos a seguinte proposição:

“A Energia Total (ET) de um objecto é, grosso modo, o resultado da relação da energia cinética C e da energia potencial de gravitação P desse objecto”. Normalmente, diz-se que ET = C + P = energia constante.

Se atiramos uma pedra em direcção a um cume de um pequeno monte, essa pedra adquire energia cinética e perde energia potencial; mas se a pedra não chegar ao cume e cair em direcção à base do pequeno monte, então dizemos que perdeu energia cinética e ganhou energia potencial. Nos dois casos, a Energia Total da pedra não se alterou. Os físicos dizem, neste último caso, que a pedra “foi reflectida numa barreira de potencial”, ou seja, que a pedra se situa num determinado ponto em que a energia potencial é superior à energia total da pedra — e por isso, a pedra rolou até à base do pequeno monte. Para que, a partir desse ponto, a pedra atingisse o cume do pequeno monte, a sua energia cinética teria que ser negativa, o que é uma impossibilidade, e corresponderia a uma velocidade igual a um número imaginário puro.

Em resumo, a nossa pedra não tinha a velocidade necessária para ultrapassar o cume do pequeno monte, e por isso a energia potencial gravitacional encarregou-se de a fazer rolar até à base.

4/ Em física quântica, não existe essa interdição de um objecto depender da relação entre as forças cinética e potencial. Na década de 1920, o físico George Gamow identificou o chamado “efeito de túnel”, que consiste basicamente no seguinte: “uma partícula elementar, que tem massa, pode aparecer do outro lado de uma barreira de energia” — o que, segundo a física clássica, era considerado impossível. Tudo se passa como se este nosso pequeno monte pudesse ser “perfurado” por um túnel por onde “passa” a partícula elementar longeva. Ou seja, a partícula elementar longeva não precisa de subir o monte para depois tombar do outro lado: simplesmente pode “cavar” uma espécie de túnel e “aparecer” do outro lado.

Se fosse possível alguém falar a David Hume acerca do “efeito de túnel”, em que uma partícula (com massa!) atravessaria um obstáculo, ele diria que se trataria de um milagre. Mas há mais!

5/ No entanto, a física quântica não garante que todas as partículas podem ou devem atravessar o obstáculo! Mostra, simplesmente, através da experiência, que a probabilidade de uma partícula elementar longeva atravessar o obstáculo nunca é nula (zero) — mas não é possível dizer quando uma partícula atravessa a barreira, e se uma partícula atravessa a barreira.

Ou seja, do ponto de vista da “experiência uniforme” (segundo a expressão de David Hume), ou da estatística, é impossível determinar uma regra ou lei geral em relação ao “efeito de túnel” quando este fenómeno ocorre, livre, na natureza. A probabilidade que um átomo, que se desloque lentamente, tem de “furar” uma elevação com 1 micrómetro de altura e com a mesma largura é de cerca de 1% — e é tudo o que a física quântica pode prever: probabilidades que podem acontecer nuns casos, e noutros não.

Uma situação semelhante passa-se com o chamado “salto quântico” (quantum leap), em que as probabilidades de ocorrência são essencialmente aleatórias e medidas, até certo ponto, através de uma “teoria discreta de probabilidade”. Não é possível prever com exactidão, baseando-nos em estatísticas e em “experiência uniforme”, quando vai ocorrer um “salto quântico”.

6/ Quando um professor (burro e/ou desactualizado) de filosofia tentar doutrinar as crianças; ou quando um ateu deitar mão do argumento de David Hume para “determinar um mundo determinístico” e baseado na “experiência uniforme” — não se esqueçam que nem sequer é preciso recorrer à teologia para os rebater: basta que leiam um pouco sobre ciência!

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