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Terça-feira, 29 Janeiro 2013

Desidério Murcho e “o engano de Karl Popper”

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 11:50 am
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“Mesmo com este exemplo deveria ser óbvio que Popper se enganou, pondo a ênfase nas teorias, em vez de a pôr nos investigadores, nas pessoas.”

via De Rerum Natura: Teoria e realidade.

Ao contrário do que está escrito no verbete acima, Karl Popper estabeleceu o princípio da falsicabilidade para “combater” o Convencionalismo que, por sua vez, e a ser aplicável, sustentaria a homeopatia, por exemplo, como sendo ciência. Para falarmos no Convencionalismo, falemos, por exemplo, em Pierre Duhem (ou mesmo em Poincaré, entre outros).

karl popper crayon webTal como acontece na homeopatia, em que um falhanço numa previsão é sempre justificável através de um outro caso qualquer que se diz que “não falha” — Pierre Duhem defendeu a ideia segundo a qual o fracasso na previsão de um fenómeno (em observação) falsifica apenas uma determinada conjunção de hipóteses. E, neste contexto, segundo Duhem, o cientista tem a liberdade de alterar qualquer das hipóteses das premissas de que partiu para construir a teoria. Assim, a esta nova hipótese já alterada, em particular, é atribuída o estatuto de “convenção”, e a questão da falsidade ou da veracidade não se levanta.

Ou seja, o Convencionalismo de Pierre Duhem faz com que uma hipótese possa ser convertida numa “convenção” impossível de ser falsificada. Ora, foi contra o Convencionalismo que Karl Popper propôs o princípio da falsicabilidade. Portanto, ao contrário do que Desidério Murcho escreveu, não foi Karl Popper que se enganou: o Convencionalismo é que estava errado.

Quando Desidério Murcho diz que “Popper pensava que a irrefutabilidade se devia às próprias teorias pseudo-científicas, que eram feitas de maneira a nunca serem refutadas pela experiência”, não se trata aqui de “Karl Popper pensar, ou deixar de pensar”: o Convencionalismo defendia o estatuto de “convenção” de uma hipótese como sendo imune à questão da veracidade ou da falsidade. E Karl Popper veio instituir o método empírico adequado para expor continuadamente uma teoria à possibilidade de ser falsificada.

Em suma, não foi Karl Popper que “pôs a ênfase nas teorias” (como Desidério Murcho escreveu): pelo contrário, Karl Popper pôs a ênfase na experiência em função e ao contrário daquilo que era defendido pelo Convencionalismo.

O “imperativo categórico” de Karl Popper para as ciências empíricas é o seguinte:

“Todas as regras do método empírico têm de ser concebidas de tal forma que não protejam qualquer afirmação em ciência contra a falsificação.”

Quanto à questão de adicionar hipóteses a uma teoria — como a homeopatia faz, quando diz que “se não é do cu, é das calças, e se não é das calças é do soutien, etc.” — Karl Popper sugeriu que fossem admitidas apenas as hipóteses que aumentem o grau de falsicabilidade da teoria, por forma a fortalecer a relação entre a teoria e a experimentação.

Em conclusão, a tentativa de Desidério Murcho em identificar, de algum modo, Karl Popper com as “teorias da homeopatia”, não faz nenhum sentido lógico.

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