perspectivas

Sábado, 26 Janeiro 2013

O saber da ciência, a ética e as leis

Filed under: ética,Ciência,filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 1:02 pm
Tags: ,

Desidério Murcho mistura, no mesmo texto, duas coisas diferentes: o problema do saber, e o problema da ética que define a lei. E essa mistura existe talvez porque Desidério Murcho parte implicitamente do princípio segundo o qual uma ética universal não é necessária à feitura das leis, ou então que qualquer sistema de leis define a ética.

Vamos ao primeiro problema: o do saber.

“Nem o pensar prepara o viver, nem o viver prepara o pensar.” — Nicolás Gómez Dávila

É claro que, não sendo eu médico, não sei o que um médico sabe. Mas também é verdade que aquilo que um médico sabe não é esotérico: antes, é exotérico. Aquilo que um médico sabe é compartilhado publicamente pela classe científica dos médicos. Portanto, aquilo que um médico sabe está sujeito ao contraditório no seio da comunidade dos médicos. Por isso, o problema de “um médico ter razão, ou não”, depende da informação comum partilhada pela comunidade científica, e segundo a verdade científica considerada como tal em um determinado momento. E das duas, uma: ou essa verdade científica é validada pela política, ou não.

Portanto, o problema do saber científico não se restringe a um indivíduo. É a comunidade científica que o valida (por exemplo, através dos peer reviews), e não um indivíduo em particular, ou um grupo restrito de indivíduos.

Por outro lado, é possível a um cidadão, que não saiba grande coisa de ciência, ter uma opinião geral mas decisiva acerca da opinião de um qualquer cientista em particular. Dou como exemplo a opinião do professor Galopim de Carvalho, segundo a qual “as primeiras células evoluíram a partir dos átomos”. Basta lermos a literatura científica, disponível e acessível ao comum dos mortais, para sabermos que não existem nem evidências e nem inferências que permitam concluir que o professor Galopim de Carvalho tem razão na sua opinião. A opinião do professor Galopim de Carvalho resulta da sua fé privada, e não da ciência propriamente dita. Ora, a fé pertence à religião, e não à ciência.

A filosofia moderna abarca também esta capacidade de se possuir um saber genérico sobre o saber especializado — mediante literatura especializada destinada ao público em geral. Um filósofo da ciência não tem que ser especializado em todas as áreas da ciência.

Vamos ao segundo problema: a ciência, a ética e as leis.

“Sem a educação, encontramo-nos no horrível e mortal perigo de levar a sério as pessoas educadas.” — G. K. Chesterton (“The Illustrated London News”).

Aqui estou parcialmente de acordo com Desidério Murcho: a ciência não determina a ética.

Feto com 12 semanas

Feto com 12 semanas

A ideia de responsabilidade moral reside na experiência subjectiva, enquanto que a ciência só concebe acções determinadas pelas leis da natureza, e não concebe autonomia, nem sujeito, nem consciência e nem responsabilidade. A noção de “responsabilidade” é não-científica. A ética e a moral pertencem ao domínio da metafísica que se caracteriza pela falta de “bases objectivas” — aqui entendidas no sentido naturalista [naturalismo ≡ cientismo metodológico].

E por isso, a ciência não pode determinar as leis; e consequentemente, a ciência não pode, por si só, determinar a política. Mas pelo facto de a ciência não determinar a ética, as leis e a política — isso não justifica que não exista uma verdade científica que depende um determinado paradigma científico (Thomas Kuhn) vigente em uma determinada época.

Portanto, dizer que a ciência, por si só, não pode determinar a política, é uma evidência. “Cada macaco no seu galho”: mas também é verdade que os dados científicos são contributos importantes e mesmo essenciais para o bom trabalho do eticista, do legislador e do político.

Eu afirmei que estou parcialmente de acordo com Desidério Murcho sobre a ciência, a ética, e as leis, porque considero que o cientistas italianos — que Desidério Murcho refere — foram mal condenados. Em lado nenhum, em ciência, se diz que um vulcanólogo é um vidente ou um profeta da desgraça. Eu nunca li nada, em ciência, onde se afirmasse que um vulcanólogo pode prever, com exactidão no tempo, a erupção de um vulcão. Um vulcanólogo pode prever uma erupção: ponto final. Mas não pode dizer se a erupção ocorrerá hoje, amanhã, na próxima semana, ou no próximo mês. Por isso é que os vulcanólogos italianos foram mal condenados.

Quanto à opinião de Desidério Murcho acerca do Estado, e das funções do Estado, isso daria outro verbete e não cabe aqui.

[ ficheiro PDF ]

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: