perspectivas

Terça-feira, 22 Janeiro 2013

A utopia em oposição à esperança

Filed under: A vida custa,ética,cultura,Decadência do Ocidente,gnosticismo,Ut Edita — O. Braga @ 10:46 am
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“Em todo o utopista dorme um sargento da polícia.” — Nicolás Gómez Dávila

Um texto de Clara Ferreira Alves acerca de uma entrevista dada por Maria José Morgado ao semanário Expresso em 8 de Dezembro de 2003 (ficheiro PDF), é uma crítica à utopia. Qualquer pessoa minimamente informada sabe que é difícil ver na utopia um factor real de mudança social, porque estando fora do real, a utopia torna impossível qualquer transformação verdadeira.

Quem ler o texto de Clara Ferreira Alves, pode ficar com a sensação de que “o tempo das utopias do século XX já foram; pertencem ao passado” — aquelas utopias do século passado, responsáveis pelo morticínio de dezenas de milhões de seres humanos inocentes. Mas isso não é verdade: Clara Ferreira Alves apenas tenta afastar um fantasma que a atormenta. As utopias apenas mudaram de forma, mantendo um conteúdo semelhante às do passado.

“A cidade imaginada pelo utopista é sempre de mau gosto, a começar pela do Livro do Apocalipse.” — Nicolás Gómez Dávila

maria josé morgado webEm Fevereiro de 2010, Maria José Morgado afirmou o seguinte:

« (…) precisamos de bases de dados de ADN, amostras de ADN, porque essas amostras de ADN previnem erros judiciários, permitem focalizar a investigação no autor verdadeiro dos crimes e afastar as hipóteses de imputação ao autor errado.
(…)

Precisamos de renunciar a uma pequena parte da nossa liberdade para termos toda a liberdade. »

Vemos, aqui, mais uma vez, a utopia de Maria José Morgado a funcionar. E em Abril de 2012, Maria José Morgado insistiu:

A coordenadora do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa intervinha no auditório da Faculdade de Direito de Coimbra, numa conferência sobre «A Base de Dados de Perfis de DNA em Portugal», promovida pelo Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV).

«Temos um quadro excessivamente restritivo», que impõe «limitações graves à recolha de vestígios» nas investigações com vista à identificação dos autores de crimes, sublinhou.

Entre estas restrições legais, Maria José Morgado apontou a «proibição de recolha de amostras-problema em fase precoce do processo».

Vemos, mais uma vez, como a utopia de gente como Maria José Morgado pode causar danos irreparáveis na sociedade: os cientistas descobriram a possibilidade de ligação entre o ADN de uma pessoa qualquer, por um lado, e a revelação pública do seu nome e identidade, por outro lado, e através de bases de dados públicas na Internet. Ou seja: com a utopia de Maria José Morgado, a privacidade da pessoa e do cidadão tende a desaparecer.


“Os problemas não se resolvem; apenas passam de moda.” — Nicolás Gómez Dávila

Para além d’ “A República” de Platão — onde, pela primeira vez na História, se fez a defesa de campos de concentração para presos políticos e de delito de opinião —, a utopia surgiu pujante no Renascimento que foi um tempo de início de um processo de decadência, e não de “progresso” como se pensa hoje: o pensamento intelectual renascentista tornou-se predominantemente imanente, e o pensamento dos gnósticos da antiguidade tardia foi recuperado e introduzido na cultura intelectual europeia. Para além de uma manifestação de decadência intelectual, a utopia é um sintoma de doença espiritual que pode ser individual ou mesmo colectiva (fé metastática).

A utopia difere da esperança. A utopia implica uma certeza de um certo futuro, embora em graus variáveis (essa certeza do futuro pode ser mais ou menos obsessiva), ao passo que a esperança é apenas uma forma de desejo. A esperança apela para a conjugação favorável de forças exteriores ao Homem; a utopia afirma a certeza prometaica no Homem como a única força da natureza. A utopia é antropocêntrica; a esperança coloca o Homem no universo.

Portanto, podemos ter esperança sem ser utópicos. Ao contrário, um utopista nunca tem esperança, porque a esperança é o desejo da manifestação do possível, mas não do provável ou do certo; uma “esperança certa” é um absurdo. E a certeza do futuro, que se apodera do utopista, retira qualquer sentido ao desejo e à esperança, porque não podemos esperar nada de uma certeza senão a certeza ilusória da espera.

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