perspectivas

Domingo, 20 Janeiro 2013

As contradições de Desidério Murcho acerca da homeopatia

O Desidério Murcho escreve outro artigo em que troca o verbo “impor” pelo verbo “reconhecer”. No artigo anterior acerca do mesmo assunto (a homeopatia), Desidério Murcho tinha escrito (grosso modo) que “o Estado não deve impor a ciência à sociedade”, e agora escreve que “o Estado não deve reconhecer a ciência”. O argumento de Desidério Murcho é apresentado pela negativa, utilizando o termo “pseudo-ciência”, em lugar de “ciência”, a ver:

“Se a homeopatia for pseudo-ciência, não deve ser reconhecida pelo Estado.”

1/ Desidério Murcho diz que a proposição supra está errada. Ou seja, Desidério Murcho afirma que “se a homeopatia é uma pseudo-ciência”, então, conclui ele, “o Estado deve reconhecê-la como ciência”.

“Poucas pessoas compreendem a diferença seguinte:

1/ A homeopatia é pseudo-ciência.
2/ Se a homeopatia for pseudo-ciência, não deve ser reconhecida pelo Estado.

Na melhor das hipóteses, podemos provar 1 cientificamente. Mas é evidente que 2 não pode ser provada cientificamente. O género de princípio de filosofia política que justifica 2 é o paternalismo: a ideia de que o Estado deve legislar contra as pessoas para as proteger de si mesmas. Assim, apesar de as pessoas quererem usar a homeopatia, o Estado deve dificultar-lhes a vida, não a reconhecendo legislativamente, porque a homeopatia as prejudica, apesar de elas evidentemente pensarem que não as prejudica.”

Este tipo de argumento é exactamente o mesmo utilizado por quem defende a legalização do consumo e comércio das drogas duras: “se as pessoas querem usar a heroína, o Estado não deve dificultar-lhes as vida, não a reconhecendo legalmente porque a heroína as prejudica, apesar de elas evidentemente pensarem que não as prejudica.”

2/ O que está patente nesta argumentação de Desidério Murcho é o princípio da autonomia de Kant (ver o que é), que consiste no conceito de “cidadão e legislador”. Porém, Desidério Murcho — tal como acontece, hoje, com os ideólogos da liberdade — perverte o sentido original do princípio da autonomia de Kant, sendo que, segundo Desidério Murcho, a componente da liberdade é sublinhada e a componente da responsabilidade é truncada. Ou seja, Desidério Murcho considera apenas a liberdade negativa e desconsidera a liberdade positiva. Para Desidério Murcho, existe apenas o “cidadão”, e o “legislador” é remetido para um plano secundário.

Ora esta perversão do princípio da autonomia de Kant é um erro contemporâneo que se adiciona ao erro primordial de Kant que foi o de pensar que “todo o indivíduo é responsável pelos seus actos”; faz parte do pressuposto iluminista do ser humano como “bom selvagem” e “sem pecado original”.

3/ O conceito de “paternalismo”, segundo Desidério Murcho, desemboca, em termos práticos, na negação a priori de qualquer autoridade de direito e, por isso, e o que é o mais importante, na negação a priori de qualquer autoridade de facto (excepto, naturalmente, a autoridade de direito e de facto de Desidério Murcho, que se mantém por intermédio dos seus — dele — livros). Sendo que qualquer autoridade de facto é a priori colocada em causa, o conhecimento torna-se impossível (excepto o conhecimento de Desidério Murcho, que se coloca acima dessas autoridades de “lana caprina”).

A negação a priori de qualquer autoridade de facto é a pior forma de paternalismo, porque é um paternalismo auto-inflingido (auto-imposto), em primeiro lugar, e depois tende natural e obviamente a ser imposto aos outros.

4/ Desidério Murcho, mais adiante, incorre no seu (dele) mesmo erro, quando escreve:

“A minha oposição às posição do David Marçal é porque creio que quanto mais o Estado certificar a ciência, mais a população fica infantilizada, aceitando-a não porque compreende o que dá plausibilidade epistémica à ciência, mas antes porque o estado, que tem a autoridade da força bruta, a sanciona.”

O Estado não “certifica” ciência nenhuma! Mas que grande treta! ¿ Onde e como é que o Estado “certifica” a ciência ? Quem certifica a ciência é a comunidade científica (que é uma elite que faz parte da ruling class), e não o Estado (ver o que é o “Estado”).

[ ficheiro PDF do artigo de DM ]

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