perspectivas

Quarta-feira, 16 Janeiro 2013

¿ Qual é a diferença básica entre a Esquerda e a Direita ?

Hoje existe uma grande confusão entre Esquerda e Direita.

“Ser de direita” implica uma determinada visão do ser humano — e “ser de esquerda” implica outra visão, diferente, do ser humano.

Por exemplo, defender um capitalismo selvagem não significa que se é “de direita”. Por outro lado, defender uma maior intervenção do Estado na regulação da economia não significa necessariamente que se é da esquerda.

Há políticos que se dizem da Direita mas que na realidade não o são, porque “ser de direita” implica uma determinada visão do ser humano — e “ser de esquerda” implica outra visão, diferente, do ser humano. O que marca distintamente a diferença entre Esquerda e Direita, em um determinado indivíduo, é a forma como ele concebe o ser humano — e não a forma como ele vê a economia.

mircea eliade webUm indivíduo de direita segue os princípios da cultura ancestral — conforme Mircea Eliade nos relatou nos seus livros de investigação antropológica — que se baseiam no conceito de “pecado original” que é comum a todas as culturas passadas e presentes. O ser humano é visto como um “anjo caído”, um “animal ferido” na sua origem ontológica, e o objectivo da política é o de suprir as lacunas dessa fraqueza originária humana mediante instituições fortes e que se fundamentem na herança histórica e na experiência do passado. O indivíduo de direita é um herdeiro de uma civilização, e ao mesmo tempo é o transmissor dessa civilização para as gerações futuras. Para um indivíduo de direita, a tradição é a condição do progresso.

Um indivíduo de esquerda recusa a herança da tradição porque acredita que o futuro é portador de maior felicidade e de sempre crescente liberdade, e considera o passado como limitador dessa felicidade e dessa liberdade. Para o indivíduo de esquerda, a política significa romper com a tradição em nome do progresso. Para a esquerda, o ser humano é um ser naturalmente bom (o “bom selvagem”, de Rousseau) e sem “pecado original”, que tende, pelo sentido da História, a um progresso em direcção à perfeição (Historicismo, e o “progresso” visto como uma lei da natureza), sendo que considera que os “arcaísmos do passado” são obstáculos a ser removidos em função desse progresso rumo à perfeição do ser humano — e a política é vista como uma forma de libertação desse “passado arcaico”.

A forma como um indivíduo vê o grau de intervenção do Estado na economia está ligada à sua sensibilidade ética, e não ao facto de ser de direita ou de esquerda. Naquilo a que se convencionou chamar de Esquerda e Direita, existem pessoas com sensibilidade ética e outras que são eticamente empedernidas. Podemos encontrar brutos nas denominadas “Esquerda” e “Direita”, pessoas que são insensíveis aos sentimentos e emoções — assim como existem pessoas “duras de ouvido” e que não são sensíveis à música.

Assim, é possível a um bruto defender o totalitarismo de Estado, e a um outro bruto defender o capitalismo selvagem e o darwinismo-social. São, ambas, formas embrutecidas de ver a realidade, e que se prendem unicamente com a afirmação supremacista do princípio do interesse próprio.

13 comentários »

  1. […] escrevi aqui, ser direita ou de esquerda decorre da forma como olhamos o ser humano. A forma como o blogue […]

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    Pingback por O Estado Sentido e o anão Ranhoso « perspectivas — Segunda-feira, 21 Janeiro 2013 @ 2:27 pm | Responder

  2. Muito obrigado por essa objetiva explanação!
    Realmente vê-se que a maioria dos minimamente interessados por política, hoje, só se atém ao aparente dualismo financeiro entre os que se declaram de esquerda ou direita.

    E essa confusão é tão eficaz em distrair, que a opinião pública acaba se encantando com o discurso perigoso dos esquerdistas.

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    Comentar por oandarilho01 — Sábado, 26 Janeiro 2013 @ 1:29 pm | Responder

  3. […] a direita e a esquerda tem a ver com as diferentes mundividências fundamentais, conforme descrita aqui. E antes de ser política (ideologia) ou económica, a diferença é metafísica e ética. Quem […]

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    Pingback por Como uma certa ‘direita’ vê a direita | perspectivas — Sexta-feira, 3 Maio 2013 @ 12:38 pm | Responder

  4. […] a direita e a esquerda tem a ver com as diferentes mundividências fundamentais, conforme descrita aqui. E antes de ser política (ideologia) ou económica, a diferença é metafísica e ética. Quem […]

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    Pingback por Como uma certa ‘direita’ vê a direita | Bordoadas — Sexta-feira, 3 Maio 2013 @ 12:41 pm | Responder

  5. PORTUGAL E A COCA-COLA EM: HA RAZÕES PARA ACREDITAR NUM MUNDO MELHOR?
    http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2012/03/negociopolitica-coca-cola-em-portugal.html

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    Comentar por Osvaldo Aires Bade — Quinta-feira, 1 Agosto 2013 @ 3:31 pm | Responder

  6. […] Essa sociedade “do bem-estar material e de uma cultura do provisório e da pós-verdade” é a sociedade defendida pela esquerda, em geral, que o Anselmo Borges apoia. [¿Qual é a diferença básica entre a Esquerda e a Direita?] […]

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    Pingback por O Anselmo Borges fala do Silêncio | perspectivas — Sábado, 18 Fevereiro 2017 @ 8:20 pm | Responder

  7. […] domínio dos princípios, o conservadorismo é incompatível com o marxismo cultural. Não é possível conciliar, por exemplo, o Jacob […]

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    Pingback por Adolfo Mesquita Nunes contribui para a tarefa política de fechar a Esquerda à direita | perspectivas — Quinta-feira, 25 Outubro 2018 @ 10:51 am | Responder

  8. […] seja: para se ser de Direita não é necessário ser um ditador: ser um ditador é independente do facto de se ser de […]

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    Pingback por ¿Salazar era de Direita? | perspectivas — Quarta-feira, 7 Novembro 2018 @ 2:00 pm | Responder

  9. […] o mais incómodo do referido texto é a “crítica” que faz ao conservadorismo (através da critica a Edmund Burke) — não que o conservadorismo não seja passível de qualquer […]

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    Pingback por Os bolcheviques (a Esquerda) e os mencheviques (a “Direita”) actuais | perspectivas — Sexta-feira, 15 Fevereiro 2019 @ 8:01 pm | Responder

  10. […] Rebelo de Sousa é o exemplo do “político palhaço” da “Direita” que não pode viver sem a Esquerda; mas não só ele: há muitos mais, como, por exemplo, Rui […]

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    Pingback por Das duas, uma: ou Marcelo Rebelo de Sousa é estúpido, ou está senil; e o Frei Bento Domingues também | perspectivas — Segunda-feira, 25 Fevereiro 2019 @ 8:09 pm | Responder

  11. […] não me parece que esse partido seja de “extrema-direita” — sem dúvida que é um partido de Direita que defende a liberdade, embora sem ser “libertário” como é o caso do partido IL (Iniciativa […]

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    Pingback por O partido CHEGA não é de “extrema-direita” | perspectivas — Sábado, 12 Outubro 2019 @ 9:45 pm | Responder

  12. […] não me parece que esse partido seja de “extrema-direita” — sem dúvida que é um partido de Direita que defende a liberdade, embora sem ser “libertário” como é o caso do partido IL (Iniciativa […]

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    Pingback por O partido CHEGA não é de “extrema-direita” | Escólios — Sábado, 12 Outubro 2019 @ 10:14 pm | Responder

  13. […] que decorre da aliança entre a Esquerda marxista cultural, por um lado, e por outro lado a “Direita” dita […]

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    Pingback por O Estado não é moralmente neutro, mas antes segue a moral das elites políticas do Zeitgeist | perspectivas — Domingo, 8 Março 2020 @ 7:40 pm | Responder


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