perspectivas

Domingo, 13 Janeiro 2013

O ser humano é o único animal que pode ser irracional porque quer

Filed under: aborto,ética,cultura,educação,filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 4:12 pm
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Este verbete aponta para outro, aqui [ ver ficheiro PDF do verbete ]. Pelo que eu entendi, o verbete aborda uma passagem de um livro sobre ética (ou filosofia moral, como quiserem) destinado a adolescentes e alunos de filosofia. Eu não li o livro, e o meu juízo baseia-se apenas no extracto publicado no verbete. Já vamos ao trecho publicado.


O blogue apresenta no cabeçalho a seguinte frase de Stuart Mill: “As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.”

¿Podemos comparar, por exemplo, a crença segundo a qual o universo teve um princípio (o Big Bang) com a crença em extraterrestres? Não, porque há diversos níveis de crença (Aristóteles): o conteúdo ideológico de uma determinada crença pode ser possível, pode ser verosímil, ou pode ser provável. Podemos dizer, então, que é provável que o universo teve um início, por um lado, e que é possível que existam extraterrestres, por outro lado. Ou seja, não podemos colocar estas duas crenças na mesma categoria ou no mesmo nível lógico.

Aquela frase de Stuart Mill induz em erro, porque coloca todas as crenças num mesmo nível — ainda mais errónea pode ficar quando interpretada por estudantes de filosofia. Ainda hoje não consigo perceber por que razão as pessoas, em geral, consideram Stuart Mill como um génio, quando as suas ideias contribuíram decisivamente para a evolução cultural para o niilismo actual.


«Se o subjectivismo ético [ou moral] não é verdadeiro, porque razão se sentem algumas pessoas atraídas por ele? Uma das razões tem que ver com o facto de a ciência fornecer o nosso paradigma de objectividade, e quando comparamos a ética à ciência, à ética parecem faltar as características que tornam a ciência tão irresistível. Por exemplo: a inexistência de provas em ética parece uma grande deficiência. Podemos provar que o mundo é redondo, que não existe o maior número primo e que os dinossauros viveram antes dos seres humanos. Mas poderemos provar que o aborto é certo ou errado?

A ideia geral de que os juízos morais não se podem provar é apelativa. Qualquer pessoa que já tenha debatido um tema como o aborto sabe como pode ser frustrante tentar “provar” que o seu ponto de vista é correcto. No entanto, se examinarmos esta ideia mais de perto, revela-se dúbia (…).

via Dúvida Metódica: Subjectivismo moral (3): Haverá provas em ética?.

Agora vamos ao texto do livro. ¿O que é a “prova”?

Em rigor, não pode ser encontrada uma prova concludente para uma evidência tão simples como a existência de um mundo exterior a nós próprios. Kant chamou a isto o “escândalo da razão”. A moderna teoria da ciência formula, com Karl Popper, uma versão mais moderada do “escândalo da razão” de Kant: segundo Karl Popper, “o mundo exterior [a nós próprios] é uma hipótese de trabalho para a ciência da natureza”.

Portanto, quando o texto diz que “a ciência fornece o nosso paradigma de objectividade”, continuamos a falar em crenças e em níveis diferentes de crenças.

Podemos considerar que aquilo que vemos, ou percepcionamos através dos sentidos, é objectivo. A prova empírica é útil ao ser humano para se mover no seu habitat (macrocosmo), mas o empirismo não produz mais nada senão provas empíricas. Ou, melhor dizendo: a prova empírica faz parte do “realismo ingénuo”, segundo o qual acreditamos (trata-se de uma crença) que as coisas existem e são conforme as percepcionamos subjectivamente através dos nossos sentidos.

Karl Popper chamou ao realismo ingénuo a “teoria do balde” que ele refuta: para que seja possível compreender uma percepção sensorial no nosso campo de percepção, esta tem que ser “compreendida” através de uma teoria que já existe a priori na nossa cabeça (Kant), porque a nossa consciência não é uma câmara escura com uma abertura através da qual é reproduzido o “mundo objectivo” — a nossa consciência não é um “balde” onde os nossos sentidos deitam imagens de objectos. Husserl chegou ao mesmo resultado que Kant através do conceito de noese: a “realidade para nós” é a “noese” de Husserl: o nosso cérebro monta precisamente aquelas coisas que estamos a ver à nossa frente (percepção), a partir dos dados da “realidade em si” mesma.

A única coisa que se pode provar a si mesma são os axiomas da lógica, que não são físicos.

Os axiomas da lógica não têm estrutura física, e por isso não podem ser refutados empiricamente. Os axiomas da lógica fazem parte da metafísica. Por exemplo, os números primos não são invenção ou criação do ser humano: existem independentemente do ser humano existir, ou não. O ser humano apenas descobriu que os números primos existem. Neste sentido, podemos dizer que “os números primos são metafísicos”, dado que existem inseridos numa estrutura axiomática lógica.

A lógica é utilizada tanto na ciência, por exemplo na feitura das teorias científicas, como na ética, e até na estética. E, através da lógica, podemos “provar” — com as condicionantes de “prova” acima referidas — que o universo teve um princípio (por exemplo, através da lógica-matemática), e também podemos “provar”, através da lógica, que o aborto é imoral.

O que pode acontecer é que existam pessoas que não queiram acreditar que o telescópio Hubble “provou” que o universo está em expansão, ou que não queiram acreditar que um embrião contém em si mesmo o ADN de um novo ser humano e único. Ou seja, temos o livre-arbítrio de reduzir o valor da realidade a zero (niilismo), ou de nivelar as nossas crenças pelo princípio do interesse próprio: temos, por isso, a liberdade de sermos irracionais. O ser humano é o único animal que pode ser irracional porque quer.

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