perspectivas

Sexta-feira, 11 Janeiro 2013

O fascismo da liberdade

Não foi por acaso que um bovinotécnico (* ver nota) chamou à atenção para este textículo de sua própria autoria. O texto começa por uma lengalenga para chegar ao corolário que começa aqui:

«Julgo que o tempo veio depois a ensinar-me alguma coisa, e aquela de que tiro maior proveito é a da volatilidade das paixões políticas, sobretudo quando combatemos, até ao extremo, por uma ideia que queremos que seja reconhecida por todos, como quase sempre sucede nos períodos de revolução.

(1) Na verdade, o domínio do político é o do que é comum a nós e aos outros, pelo que é absolutamente insensato querermos impor a quem pensa de modo diferente de nós aquilo que nós pensamos e em que acreditamos.

(2) A virtude duma sociedade livre não está tanto da democracia stricto sensu considerada, já que esta é essencialmente um método e não um fim, mas na pluralidade, isto é, na coexistência pacífica de todas as opiniões, e no respeito pelas escolhas do próximo, que devem ser tão livremente assumidas e decididas quanto as nossas.

(3) Há valores que são «melhores» do que outros? Não duvido. Por isso tenho e defendo os meus. Mas o que uma sociedade livre – e mais nenhuma outra – permite é que eu possa pensar de modo distinto dos outros, sem que isso signifique que nos excluamos reciprocamente.»

Há aqui uma série de equívocos que convém denunciar:

1/ Qualquer opinião é sempre uma imposição. Pode não ser uma imposição mediante a força bruta do Estado — ou pode não parecer, à primeira vista, uma opinião imposta através da força bruta do Estado —, mas é sempre uma forma de imposição. E quando alguém diz que “é insensato querermos impor, a quem pensa de forma diferente de nós, aquilo que pensamos e em que acreditamos”, está a querer impor aos outros a sua opinião segundo a qual “não devemos impor nada aos outros”.

Estamos aqui perante a liberdade negativa, que ganhando um unanimismo na cultura antropológica se transformou numa espécie de fascismo da liberdade, na medida em que atomiza a sociedade e transforma-a em campo fértil de proliferação de novas formas de totalitarismo.

2/ A “coexistência pacifica” de todas as opiniões não significa que as minhas opiniões são melhores do que a do vizinho porque são “as minhas opiniões” — conforme o escriba defende. A ideia segundo a qual as minhas opiniões são melhores do que as de alguns outros, apenas e só porque “são minhas”, é inqualificável (estou a tentar ser educado). Uma pessoa que pensa assim tem um ego do tamanho do universo; e provavelmente tem grande dificuldade em fazer uma simples auto-crítica.

3/ A verdade é que uma pessoa saudável mentalmente pensa que tem uma boa opinião até ao momento em que lhe demonstrem racionalmente que a sua opinião não é tão boa quanto pensava. A forma como o supracitado escriba vê a opinião está directamente ligada à actual crise da ciência, e por extensão, à ciência política: nenhum cientista gosta de ver uma sua teoria rebatida e mesmo refutada, mas a ciência tem avançado, na procura da verdade, à custa de muitas azias de muitos cientistas. Mas hoje, torna-se extremamente difícil refutar qualquer teoria científica, exactamente porque “toda a gente tem o direito à sua opinião”, e a opinião é boa apenas porque “é a minha opinião”. Este novo fascismo da liberdade é, na sua essência, anti-científico.

A ideia do escriba, segundo a qual devemos aceitar a opinião dos outros, mesmo que errada, sem que nos excluamos mutuamente, significa a legitimação da mediocridade. O fascismo da liberdade assenta na falácia da mediocridade. Em termos políticos, o fascismo da liberdade traduz-se, por exemplo, na seguinte proposição: “Passos Coelho e o povo português fizeram um acordo: cada cidadão diz o que quiser de Passos Coelho, e este último faz aquilo que lhe dá na real gana”. Esta frase sintetiza o conceito de liberdade negativa que está na base do fascismo da liberdade.


A procura da verdade (da “verdade” que é característica da ciência, e não da “certeza” que é uma questão de fé ou de fezada) significa necessariamente exclusão de teorias e, por isso, de opiniões.

A verdade é que o escriba bovinotécnico nunca deixou de ser fascista: apenas mudou de indumentária e de ferramentas políticas. O novo fascismo da liberdade é a ideia segundo a qual se toleram as ideias dos outros, por um lado, mas que, por outro lado, se impõem, através da força bruta do Estado, as ideias de uma elite de luminárias que se pensam acima de qualquer crítica. Karl Popper explicou muito bem este fenómeno político actual do fascismo da liberdade, nomeadamente quando demonstrou que, ao longo da História, o povo (povo entendido como “opinião pública”) enganou-se muito menos do que as elites políticas.

* A bovinotecnia é a arte de tratar do “gado” de uma forma tal que se consiga fazer crer aos “bovinos” que serão livres se abandonarem o seu estatuto de bovinidade.

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