perspectivas

Sábado, 5 Janeiro 2013

A burrice do professor brasileiro de filosofia

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 6:00 am
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O problema verdadeiro é a filosofia subjacente a este Acordo Ortográfico, segundo a qual “se deve escrever conforme se fala”, que levará à pulverização e tribalização da língua portuguesa. Por isso, defender a língua portuguesa significa lutar contra este Acordo Ortográfico.

Quando, há já alguns anos, li um artigo de Olavo de Carvalho em que ele criticava os cursos de filosofia em determinadas universidades brasileiras, sinceramente, naquela altura, pensei que ele exagerava um pouco na crítica. Mas depois, à medida em que ia lendo artigos publicados por professores universitários de filosofia, aprendi que, de facto, Olavo de Carvalho não exagerou em nada na crítica daquele artigo.

Cheguei a este verbete assinado por um professor de filosofia da UFSJ através destoutro do blogue Firefox Contra o Acordo Ortográfico.

1/ Em primeiro lugar, o “filósofo” compara a instituição do Acordo Ortográfico com as obras de transposição das águas do rio S. Francisco, e outras obras públicas, como se a língua fosse uma espécie de obra de engenharia que pode ser legitimamente planificada por um qualquer escritório de engenheiros e arquitectos sociais.

2/ O “filósofo” escreveu o seguinte:

“Por que o acordo ortográfico é importante? Estudantes dos países lusófonos intensificarão a mobilidade nos próximos anos, sem acordo terão que estudar numa ortografia diferente da usada em seu país; diversas empresas brasileiras estão hoje actuando em países africanos de língua portuguesa, há muitos brasileiros vivendo lá e contratos sendo ali assinados, o acordo facilita tudo isto; o mercado editorial de todos os países lusófonos ganhará com o acordo, os livros editados num país poderão ser utilizados em todos os outros, incluídos os livros didácticos e complementares empregados no sistema educacional.

O principal motivo é que o acordo tornará a língua portuguesa uma das mais faladas do mundo, os documentos internacionais a contemplarão, facilitando o trabalho diplomático e os protocolos internacionais. Embora exista diferença de sotaque e estilo entre as outras línguas, a grafia delas é igual. Não há caso de grafias diferentes de uma mesma língua. É o que devemos perseguir também para o português.”

a) Com podem verificar, eu alterei a grafia do “português brasileiro” para o “português português”, passo a redundância; mas nem por isso um brasileiro alfabetizado deixa de poder perceber o texto.

b) Depois, podem verificar o verdadeiro Leit Motiv do interesse do Acordo Ortográfico por parte do Brasil: a geopolítica.

objector de consciencia webA política brasileira passou um século a maldizer Portugal e os portugueses, e a história colonial portuguesa no Brasil, mas agora que existem novos países africanos com grande potencial, e que falam e escrevem na língua portuguesa, o Brasil pretende “sentar-se à mesa para comer”, mas sem ter tido o trabalho de contribuir para “a confecção da comida”. Ora, comer sem ter trabalhado até seria compreensível se o Brasil não tentasse impôr a sua variante linguística a todos os outros países que falam português. Porque é disto que estamos a falar: uma tentativa de neocolonialismo, desta feita incluindo o país de origem da própria língua.

c) A seguir, o “filósofo” confunde língua escrita, por um lado, com língua falada, por outro lado — o que é extraordinário e revela a incapacidade intelectual de quem defende este Acordo Ortográfico. Ou seja: a verdade é que não são as duas variantes do português escrito que irão impedir que o português seja uma das línguas mais divulgadas no mundo, porque, por exemplo, um brasileiro lê perfeitamente “português português” (passo a redundância) e um português lê perfeitamente “português brasileiro”.

O problema verdadeiro é a filosofia subjacente a este Acordo Ortográfico, segundo a qual “se deve escrever conforme se fala”, que levará à pulverização e tribalização da língua portuguesa. Por isso, defender a língua portuguesa significa lutar contra este Acordo Ortográfico.

d) É absolutamente falso que não existam grafias diferentes de uma mesma língua. Basta verificarmos as diferenças, por exemplo, entre o inglês escrito nos Estados Unidos e o inglês escrito em Inglaterra para chegarmos à conclusão de que o professor de filosofia, ou é burro, ou é estúpido.

e) O “filósofo” passa um atestado de capsis diminutio ao cidadão brasileiro em geral, atribuindo-lhe uma incapacidade de cognição relevante, quando diz que os cidadãos brasileiros têm dificuldade em ler e interpretar o “português português” (passo a redundância). O “filósofo” brasileiro acaba por passar um atestado de mentecapcia ao brasileiro comum.

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4 comentários »

  1. Reblogged this on Firefox contra o Acordo Ortográfico and commented:
    Uma crítica alternativa à publicada ontem.

    Comentar por ashyam90 — Sábado, 5 Janeiro 2013 @ 3:30 pm | Responder

  2. será que não quis dizer mentecapta, é que mentecapcia, não existe!

    essa palavra encontra-se no ponto e):

    fico a aguardar

    Comentar por Rui Emanuel Laranjeira Teixeira — Sábado, 5 Janeiro 2013 @ 3:37 pm | Responder

    • Se Vc for ao dicionário Michaelis, tem. Vc pode dizer que esse dicionário é brasileiro, mas é o único argumento que lhe resta.

      Ademais, faz todo o sentido: a mentecapcia é o estado do mentecapto, assim como a loucura é o estado do louco, etc.. Pode não vir em nenhum dicionário de “português português”, mas existe.

      Essa coisa de estar a esquadrinhar um texto de determinada pessoa à procura de um erro, revela muita coisa que não vale a pena dizer agora.

      Comentar por O. Braga — Sábado, 5 Janeiro 2013 @ 6:38 pm | Responder

    • A pedido de várias famílias “puristas” da língua portuguesa, e conforme um comentário acima, substituo a palavra “mentecapcia” por “mens captio”, que tem a vantagem de ser em latim embora signifique a mesma coisa.

      Enquanto que “mentecapto” é um adjectivo (de “mens captus”, ou “mente captus” com a corruptela medieval do latim), “mens captio” (mentis captionis, no plural) ou “mente captio” é um substantivo que está na origem etimológica de “mentecapcia”.

      Naturalmente que alguns desses “puristas” da língua não sabem patavina de latim: vão ao dicionário ver se uma palavra existe ou não, independentemente da sua origem etimológica. E por isso é que o dicionário Michaelis, apesar de ser brasileiro, está correcto.

      Comentar por O. Braga — Sábado, 5 Janeiro 2013 @ 7:48 pm | Responder


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