A “guerra da restauração” é uma guerra dos desesperados, daqueles que já não têm quase nada a perder. E quem já perdeu quase tudo não tem medo do impossível.
Enquanto que o período anterior a 1640 era de humilhação e miséria para a maioria dos portugueses, o período anterior à crise de 2010 foi de alguma opulência desmedida à custa do endividamento e do enfeudamento nacional ao Euro. Enquanto que depois de 1640, as coisas só poderiam melhorar nas condições de vida dos portugueses, depois de 2010 as coisas só podem piorar.
Para que se tenha uma ideia, durante a ocupação filipina, os espanhóis estabeleceram um imposto especial em Portugal, chamado “Real d’Água”, que incidia sobre a água que os portugueses iam buscar às fontes e aos rios. Os portugueses pagavam imposto aos espanhóis para recolher água das fontes naturais e dos rios! Depois de 1640, o imposto do Real d’Água foi abolido. Em contraponto, depois da crise de 2010, impostos que não existiam em Portugal passaram a existir.
Portanto, concluo que ainda não estamos na fase de uma nova “guerra de restauração”, mas antes estamos sob ocupação estrangeira — como estivemos sob ocupação estrangeira entre 1580 e 1640. A nova “guerra da restauração” acontecerá quando Portugal bater estrondosamente no fundo, e de tal modo, que toda a acção política de ruptura com o status quo do actual Poder político possa ser considerada pelo povo como um beneficio e uma melhoria.
A “guerra da restauração” — em ambos os casos referidos — é uma guerra dos desesperados, daqueles que já não têm quase nada a perder. E quem já perdeu quase tudo não tem medo do impossível. O problema é o de saber se vamos deixar à Esquerda radical a exclusividade da defesa dos desesperados (como parece estar a acontecer hoje).