É preciso ter muito cuidado com os intelectuais em geral, mas com os de Esquerda em particular.
É sabido, por este exemplo, que a Esquerda (intelectual) é contra a pena-de-morte em relação aos crimes de sangue, incluindo os assassinos em série; mas, por outro lado, é a favor da pena-de-morte para as pessoas que negam o aquecimento global. E o mais interessante é o conceito escatológico de “crimes contra as gerações futuras” que justifica a pena-de-morte para os negacionistas do apocalipse “aquecimentista”.
Para a Esquerda, a noção de “probabilidade” é irrelevante. A Esquerda tem certezas. Trata-se de uma fé imanente, porque só a fé tem certezas. Por exemplo, neste texto de Galopim de Carvalho:
“Posteriormente a esta crise de frio, a temperatura do planeta subiu para os níveis actuais e vai continuar a subir, agora potenciada pelas emissões antropogénicas do dióxido de carbono e dos outros gases com efeito de estufa.”
Este “vai continuar a subir”, do Galopim, é uma certeza, e não uma probabilidade. É uma fé. Ou melhor: é uma fézada. Se fosse uma probabilidade, o “vai continuar a subir” seria objecto de discussão científica; mas tratando-se de uma certeza, transforma-se em dogma que pode justificar, para alguns, a pena-de-morte para os hereges. Não se trata de ciência: em vez disso, é uma espécie de religião.
O mais extraordinário é que o Galopim constrói, em primeiro lugar, um discurso acerca das variações térmicas do planeta ao longo de centenas de milhares de anos — ou seja, ele parte de uma certeza acerca do passado —, reconhecendo que as temperaturas globais estão sujeitas a mudanças que não dependem do Homem. Mas nem reconhecendo que as mudanças climáticas foram, no passado, imprevisíveis e independentes do Homem, ele não deixa de ter a certeza de que a temperatura “vai continuar a subir” por culpa do Homem. Trata-se de um novo tipo de “pecado original” que fundamenta uma nova religião imanente e escatológica.
Em ciência, mesmo que os dados do passado — as estatísticas — estejam correctos, em princípio nada nos garante que exista uma probabilidade de 100% — a tal “certeza” — de que os mesmos fenómenos verificados pela estatística ocorrerão no futuro. Embora o universo tenha sido concebido com grande estabilidade física, a ponto de ser possível a construção de leis (da natureza) por parte da ciência, essa estabilidade física não é total nem absoluta, e por isso nada nos garante que todos os dados da natureza tenham sido descobertos pelo Homem, por um lado, e por outro lado, nada nos garante a 100% que as próprias leis da ciência não tenham que ser alteradas no futuro.
Segundo cálculos efectuados por eminentes matemáticos, a probabilidade de o planeta Terra deixar de orbitar o Sol e passar a orbitar uma outra estrela do universo não é de Zero. Ou seja, não existe a certeza de que o planeta Terra não possa ser sujeito a um salto quântico e passe para a órbita da estrela Sírius, por exemplo. E no entanto, Galopim tem a certeza de que “a temperatura do planeta vai continuar a subir por culpa do Homem”, enquanto outros intelectuais concebem os “crimes contra as gerações futuras” que justificam a pena-de-morte.