Guglei Maria de Fátima Bonifácio e deparei-me com este texto de Agosto de 2012. E depois de o ler, conclui que essa coisa de ser de direita porque não se é de esquerda, tem muito que se lhe diga — mesmo dando de barato que fosse um lapsus calami de Maria de Fátima Bonifácio o facto de ela ter escrito que “a União Soviética colocou um homem na Lua”.
Pegar naquele texto é complicado, mas vou ter que o fazer por alguma ponta. E é complicado porque ela faz uma crítica ideológica a uma ideologia. Seria uma coisa parecida que um teólogo cristão fizesse uma critica teológica às ideias de um Imã maomedano: a gente fica sem saber onde começa a teologia e onde acaba a crítica. Depois, mais complicada fica a situação quando uma historiadora se mete na filosofia e sobretudo na ética, chamando os outros de “ignorantes”; por exemplo, quando ela se refere a Locke que não deixou de ser um dos fautores do conceito de “contrato social” que está na origem da “promessa do político” tão criticada por David Hume (que era um conservador, em termos políticos). É que Locke teve duas fases ideológicas na sua vida, quase diametralmente opostas… e a segunda fase tresanda a revolucionário.
A crítica ao marxismo — ou ao socialismo, se quisermos — não pode ser feita sacrificando a ética, tal como Maria de Fátima Bonifácio faz. Ela incorre na falácia da mediocridade que é característica do discurso político de Passos Coelho. Por exemplo, ela ignora, no texto, a origem do capitalismo — segundo Max Weber — que não se baseou no consumo de bens materiais, mas antes na necessidade de investir o capital que sobrava de uma vida quase monástica e “socialista” do calvinista. Portanto, o capitalismo não tem necessariamente que ver com “maior acesso a plasmas, casas, automóveis, iPad’s e viagens por paragens tropicais; por quem lhes garanta a posse de um maior número de bens, materiais ou simbólicos”.
Basta olhar para o que se passa hoje em muitos países da Europa, e sobretudo nos países periféricos, para verificarmos que não há necessariamente uma ligação directa entre um determinado tipo de capitalismo, por um lado, e felicidade do ser humano, por outro lado; ou como escreveu G. K. Chesterton : “demasiado capitalismo não significa a existência de demasiados capitalistas, mas antes significa a existência de muito poucos capitalistas”.
A crítica de Maria de Fátima Bonifácio ao socialismo é feita em nome desse “capitalismo de muito poucos capitalistas”. É uma crítica ideológica (“ideológica” no sentido de “religião política”), e contem nela os “amanhãs que cantam” que ela critica nos marxistas. Quando Maria de Fátima Bonifácio critica o “fim da história”, de Karl Marx, esqueceu-se de mencionar o “fim da história” do liberal Francis Fukuyama.
Maria de Fátima Bonifácio escreveu aquele texto em Agosto de 2012. Um mês depois, aconteceu a manifestação de um milhão de pessoas contra Passos Coelho. A certeza de Maria de Fátima Bonifácio, segundo a qual “a esquerda radical nunca chegará ao Poder” equivale à certeza revolucionária do futuro; trata-se de uma fé metastática de sinal contrário.
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