perspectivas

Quinta-feira, 27 Dezembro 2012

O milagre e canonização católica

A propósito de um programa de televisão acerca da Rainha Santa Isabel, ouvi e vi um tal Manuel Vilas-Boas afirmar que “a Igreja Católica terá que rever o critério do milagre como sendo essencial à canonização”.

1/ Desde logo, temos que saber no dicionário o que é “milagre”: deriva do latim miraculum, que significa “maravilha”, “coisa extraordinária”, e define-se como “facto sobrenatural oposto às leis da Natureza”. O dicionário diz-nos também que “sobrenatural” significa 1/ “superior à natureza”; 2/ “fora das leis da natureza”. Só nos falta saber, para que fique completa a nossa cogitação preliminar, o que é “lei da natureza” — e aqui é que está a essência do problema do milagre: na definição de “lei da natureza”.

2/ Quando o tal Manuel Vilas-Boas disse o que disse, partiu do princípio de que existem leis da natureza que se opõem ao milagre; ou de que o milagre é superior à natureza; ou que o milagre está fora das leis da natureza. A definição de “lei da natureza” pode ser esta: “é a relação mensurável (pelo ser humano), universal e constante, estabelecida entre os fenómenos naturais”. Ou seja: aquilo que não é mensurável estatisticamente não pode constituir uma lei da natureza. Há aqui, nesta definição, um problema enorme: a estatística pertence ao passado. Mas não vamos explorar esta linha de pensamento, e passemos adiante.

3/ Neste sentido, podemos dizer que, por exemplo, a lei da gravidade, antes de existir como tal nos compêndios de física, não era uma “lei da natureza”: só passou a ser uma “lei da natureza” quando o ser humano a descobriu — o que significa (ironicamente) que o universo, antes da “criação” da lei da gravidade, não dispunha da lei da gravidade, o que pressupõe (falsamente) que o cientista cria o mundo.

Ou seja, Manuel Vilas-Boas, assim como a esmagadora maioria do homem moderno, segue Kant na ilusão científica: “O entendimento (aka, ciência) cria as suas leis, não a partir da natureza, mas impõe-lhe-as.” (Crítica da Razão Pura). Portanto, em última análise, e segundo o pensamento moderno, a lei da natureza é a lei que o entendimento humano lhe impõe (à natureza).

4/ Se a “lei da natureza” é a lei que o entendimento humano impõe à natureza, tudo aquilo que não é imposto à natureza pelo entendimento humano, por razões várias, não pode ser considerado “lei da natureza”. Desde logo, por exemplo, a ignorância humana no seu estádio actual pode significar que uma lei da natureza, existente ad Aeternum, não possa ser considerada “lei da natureza” e, por isso, possa ser categorizada como “sobrenatural” ou “ficcional”. E o afunilamento da visão positivista, e empirista redutora, pode ser até um obstáculo formidável no sentido da imposição limitada do entendimento humano à natureza, fazendo com que as leis da natureza se situem apenas em um determinado espectro da realidade.

5/ Partindo do princípio kantiano supracitado de “lei da natureza”, o problema da consciência, e da sua correlação com a realidade, é incontornável. A consciência é uma experiência originária, comprovável a nível intersubjectivo, que antecede a experiência objectiva. Sem que esta definição de consciência seja verdadeira, a ciência não seria possível, porque a ciência não é possível sem consciência e sem intersubjectividade. A ciência e o seu método pressupõem a consciência como uma experiência originária, comprovável a nível intersubjectivo e que antecede a experiência objectiva.

6/ Temos aqui os três ingredientes que reduzem a proposição de Manuel Vilas-Boas ao absurdo: a consciência; a “lei da natureza” que reflecte “a realidade para nós”; e a realidade “em si mesma”. E por isso é que a Igreja Católica deve continuar a canonizar em função do milagre.

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