perspectivas

Sábado, 22 Dezembro 2012

Husserl (4)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:16 am
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Husserl introduziu o conceito de “noema” (ver explicação deste conceito em fenomenologia)

O noema não é apenas (um) qualquer objecto: é também a sua representação e a sua imagem — “imago”, em latim, que por sua vez deriva do latim “imitari” que significa “imitar”, “reproduzir algo”. E daí o conceito de “imaginação” que percorreu, desde os Gregos, por assim dizer, dois “caminhos” diferentes: o caminho de Aristóteles e o de Platão.

O “caminho” de Aristóteles é-nos mais familiar e foi grosso modo adoptado pela psicologia: a imaginação, segundo Aristóteles, é um acto psíquico e/ou uma faculdade intermédia entre a percepção e a abstracção das ideias universais. Esta noção de imaginação (de imagem) foi adoptada maioritariamente pela escolástica medieval, e continua válida hoje.

No entanto, existe outra noção de imagem e de imaginação: a de Platão, que se baseia no conceito platónico de Ideia, segundo a qual uma coisa se dá como imagem de outra que, por sua vez, remete, por semelhança, para uma “realidade primitiva”. Husserl fez a simbiose entre o conceito de imagem de Aristóteles e o de Platão. Se a noção de imagem e de imaginação, segundo Aristóteles, não nos é estranha, o conceito de Ideia de Platão já está alienado ou afastado da cultura contemporânea, e por isso vamos tentar dar aqui um exemplo alegórico do que pode ser a Ideia de Platão.


Ao contrário do que Kant dizia, o cientista não cria a ciência. Um físico, por exemplo, não é o criador do mundo, mas antes aquele que descobre a verdade física que é imanente ao mundo. Esta verdade física imanente está acima do espaço-tempo concreto e é intemporal. Por exemplo, a lei da gravidade, descoberta pela Física, vale sempre em qualquer ponto do universo, sob uma forma adaptada. A fórmula da lei da gravidade — que por sua vez pressupõe a validade de outras verdades intemporais, como por exemplo os axiomas da lógica — pertence à categoria de verdade intemporal.

Para descobrir a lei da gravidade, a ciência parte do particular, abstrai desse caso particular, e generaliza, ou seja, prossegue em direcção ao universal. É assim que a fórmula da verdade da lei da gravidade se torna universal, ou seja, essa fórmula passa a ser aplicável a todos os casos que venham a surgir.

Porém, também podemos fazer o percurso inverso: partir de uma determinada fórmula e prosseguir na definição de um objecto concreto, por exemplo, uma pessoa. Neste caso, o objectivo deixou de ser a fórmula de todos os seres humanos possíveis (que é o que a ciência procura), mas apenas passa a ser a fórmula de um ser humano concreto. Neste caso, vale o seguinte princípio: tudo o que é possível descrever com exactidão também pode ser formalizado (transformado em fórmula).

Se descrevermos com exactidão a fórmula de um ser humano em concreto, o seu ADN, o estado químico das células, o ponto exacto do espaço-tempo onde ele existe, e os processos atómicos e quânticos na estrutura celular, então podemos dizer que nos aproximaríamos de uma fórmula que descreve o estado particular desse ser humano.

Em um caso ideal (surge a aqui o correlativo do termo “Ideia”, de Platão), deixaria de existir qualquer diferença entre esse ser humano e a sua fórmula individual — para além do facto de esse ser humano em concreto permanecer na dimensão do espaço-tempo, mas com a sua fórmula individual existindo na dimensão da intemporalidade. À medida que o ser humano muda e envelhece, a sua fórmula individual — que descreve com exactidão a existência desse ser humano num momento e num determinado local — permanece.

Se fosse possível incluir na fórmula desse ser humano, não só o estado actual concreto, mas também todos os estados anteriores dessa pessoa desde que nasceu, essa pessoa continuaria a existir na sua fórmula intemporal. Neste caso deixaria de existir qualquer diferença entre o ser humano real e a sua fórmula individual — para além da determinação imposta pela dimensão do espaço-tempo.

Podemos então dizer que a fórmula individual de um ser humano é a sua verdade física existente no espaço-tempo, mas expressa numa fórmula intemporal, e de tal forma que a substância e a evolução desse ser humano em concreto, ao longo da sua vida real e física, estão totalmente descritas na sua fórmula intemporal.

Do ponto de vista da física quântica, coloca-se aqui o problema de saber se pode acontecer um estado de identidade (estados idênticos) entre esse ser humano concreto e em termos físicos, por um lado, e a sua fórmula individual, por outro lado — porque a fórmula existe numa dimensão não-física e intemporal, enquanto que o ser humano existe na dimensão do espaço-tempo.

Este problema é resolvido da seguinte maneira: dois sistemas no mesmo estado quântico são idênticos. Dois seres humanos no mesmo estado quântico são exactamente a mesma pessoa — o que em termos reais e na dimensão do espaço-tempo é uma impossibilidade objectiva!.

Aplica-se por isso a seguinte regra: duas formações que existem em tempos diferentes ou em níveis de tempo diferentes — por exemplo, um ser humano e a sua fórmula individual — são idênticos na sua essência se os seus padrões quânticos forem idênticos.

Este conceito de “fórmula individual” de um objecto corresponde ao conceito de “Ideia”, de Platão.

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