perspectivas

Domingo, 16 Dezembro 2012

A influência moura em Portugal e em Espanha

Filed under: Portugal — O. Braga @ 11:38 am

Para cá vieram os europeus mais miscigenados com os selvagens mouros; portugueses que, diferentemente dos espanhóis, não nutriram nenhum ódio avassalador contra a cultura humana árabe. O português, portanto, nem era puramente o descendente dos nórdicos que na península fundaram cidades, nem apenas a extensão do norte da África em solo europeu. Os povos do antigo Condado Portucalense eram loiros e morenos, ruivos e escuros. Assim, portanto, a Europa que aportou na Terra de Santa Cruz estava longe do carácter circunspecto e grave das nações do norte.

via Acarajé Conservador: Um conservadorismo autóctone.

Posso estar enganado, mas penso que a influência cultural moura e/ou árabe (porque nem todos os mouros eram árabes, mas também berberes do norte África) foi historicamente mais evidente em Espanha do que em Portugal. Em contraponto, em Portugal tivemos (proporcionalmente) uma maior miscigenação com judeus sefarditas do que em Espanha. Basta o facto de o reino mouro de Granada ter permanecido em Espanha até 1492!, para constatarmos uma maior influência árabe na cultura espanhola.

Sinagoga de Belmonte (Portugal)

Sinagoga de Belmonte (Portugal)

Os ruivos portugueses são produto da mistura dos visigodos e/ou suevos, com judeus, nomeadamente e com preponderância na Beira Alta e Beira Baixa.

Quando os reis católicos espanhóis expulsaram os judeus, no reinado do rei português D. João II, ocorreu uma migração em massa de judeus de Espanha para Portugal. D. João II não expulsou os judeus imigrantes de Espanha, e foi apenas o rei seguinte, D. Manuel II, pressionado pelos reis católicos espanhóis, que acabou por o fazer — mas nem todos os judeus saíram efectivamente do território português. Mesmo assim, permaneceram pequenas comunidades judias sefarditas em Portugal até hoje, como por exemplo em Belmonte (Beira Baixa), Mirandela (Trás-os-Montes), ou Trancoso (Beira Alta). E muitos judeus e judias, naquele tempo, casaram-se com portugueses e portuguesas com características étnicas do norte da Europa (os chamados “cristãos novos)“.

A influência cultural moura propriamente dita, em Portugal, restringe-se à província portuguesa do Algarve. Depois, temos a província do Alentejo com alguma influência cultural moura mas que nada se compara com a que existe no sul de Espanha — até porque o Alentejo foi povoado por ordens religiosas católicas durante a primeira dinastia portuguesa. Etnicamente, os “mouros portugueses” concentraram-se essencialmente no Algarve. A parte da cidade de Lisboa a que chamamos hoje de “mouraria”, tinha apenas uma pequena população moura que não assumiu posteriormente um significado étnico — embora influenciasse bastante a cultura lisboeta — importante na cidade.

No norte e centro de Portugal, a influência directa moura é praticamente inexistente, a começar pela toponímia árabe que praticamente não existe nestas duas regiões. Em contraponto, se viajarmos de automóvel de Madrid para sul (o que eu fiz várias vezes), verificamos a existência de um imenso território em que a influência árabe é não só visível na toponímia, mas também nas características étnicas e culturais da população do sul de Espanha.

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3 comentários »

  1. Estimado,

    Muito interessante! Eu cheguei a escrever um artigo comentando sobre a influência moura/mourisca na Espanha reconquistada.

    http://acarajeconservador.blogspot.com.br/2012/12/a-conversao-dos-muculmanos-na-espanha.html

    Contudo, pretendo escrever um segundo artigo colocando como a relação do português com esta mesma cultura foi totalmente distinta e oposta ao trato dos castelhanos.

    Abraços,

    Pedro

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    Comentar por Pedro Augusto Ravazzano — Domingo, 16 Dezembro 2012 @ 12:40 pm | Responder

    • Durante a duração do reino de Granada em Espanha, e mesmo antes da formação desse reino, as diferentes culturas da Espanha não eram estanques, ou seja, não existiu uma espécie de apartheid cultural que impedia a miscigenação entre mouros e não-mouros.

      A ideia segundo a qual se conclui que pelo facto de existirem comunidades separadas implicava, em Espanha, a não-miscigenação étnica, não é verdadeira. De facto, mesmo durante o tempo do reino de Granada, o intercâmbio cultural, comercial e étnico ocorreu em Espanha de forma sistemática, e independentemente da vontade das elites políticas.

      Em Portugal, a população mourisca remanescente da Reconquista, e em termos relativos e proporcionais, era muitíssimo inferior à que existia em Espanha. E dado que as culturas em Espanha não eram estanques — não existia o tal apartheid —, a miscigenação com os árabes foi maior em Espanha do que em Portugal.

      Basta verificarmos o espírito violento característico dos espanhóis, e compará-lo com o espírito violento dos árabes. Em contraponto, em Portugal prevaleceu uma certa cultura sueva e céltica misturada com os cristãos-novos, que muitos dizem não ser tipicamente mediterrânica e violenta.

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      Comentar por O. Braga — Domingo, 16 Dezembro 2012 @ 1:01 pm | Responder

  2. Como coloquei no meu artigo, onde refletia unicamente sobre o caráter oficial-político do problema mouro, o combate sistemático contra esta cultura nos territórios espanhóis reconquistados se deu por um esforço sistemático dos Reis Católicos em extinguir da península todo o ranço infiel. Na época, inclusive, se desenvolvera leituras heréticas a respeito da eficiência do batismo na purificação de uma “mancha de sangue” entre os mouriscos. A cultura humana islâmica foi, isto sim, metodicamente eliminada da Espanha, o que pode ser comprovado com os interditos e proibições aos resquícios do passado muçulmano da região: trajes, hábitos, costumes. Assim, portanto, ainda que o poder político não concretizasse o seu projeto, o fato é que houve um empenho ferrenho na eliminação da maldição maometana na península ibérica, contudo a cultura moura remanesceu porque conseguiu se infiltrar num tecido mais profundo.

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    Comentar por Pedro Augusto Ravazzano — Domingo, 16 Dezembro 2012 @ 8:37 pm | Responder


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