perspectivas

Segunda-feira, 10 Dezembro 2012

A política cultural falhou, e depois culpa-se a Internet

A internet está a tornar-nos fúteis. A tese é de Nicholas Carr, norte-americano que se consagrou a analisar o modo como a rede interfere no nosso modo de pensar e o empobrece. As conclusões estão no livro Os Superficiais – o que a internet está a fazer aos nossos cérebros.

E se um dia alguém nos tira da frente o monitor e todo o mundo mágico que nos é apresentado? Se antes era difícil imaginar um mundo sem televisão ou telefone, será concebível vivermos sem estarmos ligados a um computador ou amarrados a um telemóvel?

Mesmo esta pergunta já é mera retórica. Ainda que consideremos ter um ou outro dos aparelhos enunciados, se não estivermos ligados à internet não somos ninguém. Pior: somos um não-ser que vive num limbo que já não existe, o chamado mundo real, que não tem realidade se não estiver na rede.

Se o leitor perdeu tempo a ler este texto até aqui, parabéns. Ou antes, preocupe-se: ainda faz parte de uma ínfima porção de seres humanos que consegue concentrar-se durante muito tempo num só tema. É que a internet, defende o ensaísta Nicholas Carr, está a tornar-nos cada vez mais dispersos e até superficiais.

via Sequestrados pela Net – Tecnologia – Sol.

¿Será que esta tese é objectivamente verdadeira? Digo “objectivamente”, porque do ponto de vista subjectivo tudo pode ser verdadeiro…

A Internet não veio alterar o modelo de pensamento do homem moderno; apenas substituiu as velhas conversas de botequim pelos chats.

O que mudou foi o tipo ou a forma de interacção social, porque ainda na década de 1960 e em algumas zonas geográficas da Europa, o homem moderno vivia numa organização social quase-comunitária, e depois, no fim da década, passou a viver claramente em rede social. Mas hoje, face à radicalização do princípio da autonomia do indivíduo, o homem vive bastante isolado e convivendo em chats na Internet.

Um “modo de pensamento mais contemplativo” existia quando o homem moderno comum ainda seguia algumas tradições emanadas da prática religiosa. A partir do momento em que a secularização passou a ser promovida pelo Estado — com o advento do poder discricionário da maçonaria sobre o Estado que transformou o secularismo em uma religião do Estado — o modus pensandi do cidadão passou a ser aquele que vigora, com ou sem Internet. O que mudou, com a Internet, não foi o modus pensandi: em vez disso, mudou o modus operandi devido à radicalização do princípio da autonomia do indivíduo que o lança para o limbo do relativismo quase absoluto.

Portanto, Carr confunde modus pensandi e modus operandi do homem moderno, e confunde Internet com política cultural.

O modo de ver o mundo — ou seja, um determinado padrão de mundividência — do Homem pode manter-se praticamente o mesmo se mudarem os meios tecnológicos de comunicação com o mundo. O que mudou, de há 20 anos a esta parte, foi a forma como o homem moderno interage com o mundo, mas não a forma como o homem moderno vê o mundo que se mantém praticamente a mesma, depois de um processo político coercivo de secularização da sociedade.

O que tornou a sociedade moderna (ainda) mais pobre intelectualmente, e menos criativa em geral (porque “criatividade” não é apenas “originalidade”), não foi a Internet, mas antes foi o processo político e cultural que retirou a contemplação e a introspecção ao cidadão comum e anónimo — ou seja, a secularização que castra os espíritos.

1 Comentário »

  1. Ele caiu no velho dilema de quem nasceu primeiro “o ovo ou a galinha”.

    Ele acredita que nasceu a internet primeiro e esta então pos os ovos(as conversas frivolas).

    O que existe são empresas que são parasitas culturais, e tiram lucram com a idiotice alheia.

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    Comentar por Marcelo R. Rodrigues — Segunda-feira, 10 Dezembro 2012 @ 7:42 am | Responder


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