perspectivas

Quarta-feira, 5 Dezembro 2012

Alain de Benoist, o liberalismo actual e a sua negação da liberdade do indivíduo (1)

Recomendo a leitura deste texto de Alain de Benoist, em que faz uma análise resumida da evolução do liberalismo desde a revolução burguesa de 1789. Não há nada no texto com que eu discorde: tenho vindo a dizer aqui essencialmente a mesmas coisas embora de forma esparsa e ao longo de muitos verbetes — embora eu pense que Alain de Benoist se esqueceu de referir o “factor China” que é contraditório na actual tendência ideológica ocidental.

alain-de-benoist-daguerre webEu tenho referido aqui, por exemplo e a espaços, a visão de Fernando Pessoa acerca da ligação essencial entre o indivíduo e a nação. Para Fernando Pessoa, a Humanidade é uma entidade abstracta, e apenas existem os indivíduos e as respectivas nações. Alain de Benoist parece compartilhar muito do pensamento de Fernando Pessoa (incluindo o paganismo, com o que eu não concordo).

Ora, foi essa composição biunívoca “indivíduo/nação” que não só foi negada pelo liberalismo actual — de esquerda (Partido Socialista e Bloco de Esquerda) ou de direita (Partido Social Democrata e parte do CDS/PP) —, mas também entra em contradição com o liberalismo clássico. No fundo, Alain de Benoist condensa no texto, e de uma forma magistral, o conceito de “atomização da sociedade” que eu tenho referido aqui em vários verbetes.

A revolução de 1789 — de facto, uma revolução liberal ou burguesa — deu origem à emergência dos estados-nação na Europa; os impérios trans-nacionais foram destruídos por Napoleão (com excepção do Reino Unido e da Rússia). Depois de Napoleão, surgiram as aglutinações das nacionalidades — Bélgica, Itália, Alemanha, etc., e já no século XX, desmembrou-se o império austro-húngaro. Acontece que, hoje, os desígnios da revolução liberal — a instauração dos estados-nação e a independência das nacionalidades mediante a biunivocidade “indivíduo/nação” de que nos falava Fernando Pessoa — são negados por um liberalismo radical que tem algumas características comuns à esquerda e à direita; e uma dessas características comuns é a depreciação do estado-nação em favor de uma aparente exaltação do indivíduo.

Ou seja, o liberalismo actual renega e recusa os princípios basilares do liberalismo clássico, e por isso não podem ser confundidos um com o outro.

Digo “aparente exaltação do indivíduo” porque de facto o que está por detrás da actual ideologia de exaltação do indivíduo em detrimento da comunidade nacional é algo de sinistro, e que pretende (maquiavelicamente) chegar ao contrário daquilo que aparentemente defende. Através de uma ideologia deliberada de atomização da sociedade, o liberalismo actual não se revela liberal, mas em vez disso, revela-se totalitário — na medida em que coloca o indivíduo totalmente isolado face ao Estado. É neste contexto que tenho falado em sinificação que é um ponto central da política globalista emanada da plutocracia internacional (o actual “grupo dos trezentos”, segundo Fernando Pessoa) e com a anuência dos caciques locais de “esquerda” (por exemplo, China).

Se reparamos bem, é essa a impressão digital da política de Passos Coelho (a sinificação de Portugal), independentemente de ele a querer ou não. Passos Coelho não tem livre-arbítrio.

Uma das dúvidas que tenho é acerca do papel desempenhado pela maçonaria neste processo actual de atomização das sociedades europeias por via de um aparente exacerbamento do individualismo (sublinho: aparente), porque a maçonaria esteve presente na revolução de 1789 (que defendeu o princípio do estado-nação) que evoluiu hoje para a negação dos princípios liberais clássicos. Ou seja, ou o actual liberalismo é anti-maçónico, ou a maçonaria operou uma reviravolta radical nas suas posições de há 200 anos a esta parte.

Outra coisa que me causou imensa “confusão”: ¿como foi possível que os defensores acérrimos e fiéis do federalismo europeu e da União Europeia tivessem recusado a inserção da herança cultural europeia comum do Cristianismo? Ou seja, existe aqui uma aparente contradição, porque o Cristianismo seria talvez um dos factores de aglutinação dos povos da Europa na construção do federalismo europeu. Mas as elites políticas europeias recusaram a inclusão do Cristianismo como um dos factores de aglutinação europeia no recente “tratado constitucional” e no Tratado de Lisboa. Portanto, a minha “confusão” é apenas aparente, porque o que está em causa hoje não é uma construção democrática de uma Federação Europeia, mas antes a sinificação de alguns países da Europa mediante a construção de um leviatão — e tudo isto em nome do exacerbamento radical de putativos direitos do indivíduo! Estamos em presença de um cinismo político inédito.

Outra coisa de que o Alain de Benoist fala e que eu já referi aqui muitas vezes é a prevalência actual do presentismo. Diz Alain de Benoist: «os liberais actuais encorajam o “narcisismo”; vivem num eterno presente». Viver num eterno presente é sinónimo de presentismo. O presentismo é uma peça essencial do actual processo de sinificação de algumas sociedades nacionais europeias (nem todas!) rumo a uma submissão incondicional ao leviatão.

Alain de Benoist escreve o seguinte:

“O actual liberalismo não defende a liberdade: em vez disso, destrói a independência do indivíduo. Por via da corrosão das memórias históricas, o liberalismo (actual) retira o Homem da História: propõe dar ao Homem os meios de subsistência, mas rouba-lhe a razão de viver e retira-lhe a possibilidade de ter um destino”.

(continua )

2 comentários »

  1. […] (Ler Parte I) […]

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    Pingback por O liberalismo actual e a sua negação da liberdade do indivíduo (2) « perspectivas — Sexta-feira, 7 Dezembro 2012 @ 5:41 am | Responder

  2. O texto de Benoist encontra-se traduzido ao português aqui:
    http://legio-victrix.blogspot.com.br/2010/11/comunidade-e-sociedade-uma-visao.html

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    Comentar por Aurélia Dubs — Quinta-feira, 8 Janeiro 2015 @ 11:52 pm | Responder


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