perspectivas

Desidério Murcho, a sociedade perfeita e o progresso como lei da natureza

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Um dos dogmas do liberalismo (de direita e/ou de esquerda) é o de que os seres humanos são todos iguais (ou seja, têm todos os mesmos “direitos”).

A principal diferença entre o liberalismo de esquerda em relação ao de direita, é que o primeiro vai mais longe: não só os seres humanos são todos iguais, como as culturas e as opiniões são todas equivalentes. É sobre esta estrutura de negação científica da realidade antropológica que se baseia o pensamento de Desidério Murcho plasmado aqui.

Por vezes questiono-me por que razão Desidério Murcho tem livros de filosofia à venda na FNAC, porque quando ele mistura no mesmo conceito a genética (cor da pele) com cultura antropológica (religião) e com aculturação e influência do meio (orientação sexual, estilos de vida e opinião), induz o leitor em erro grave. E mais: quando Desidério Murcho compara — ou mesmo que faça apenas uma analogia — os símios com o ser humano, incorre numa falácia de apelo à natureza.

O liberalismo, em si mesmo, é também uma mentalidade tribal — sendo que esta, entendida em si mesma, é o que Desidério Murcho denuncia e critica. O que falta saber é se essa mentalidade tribal liberal, a de Desidério Murcho, é melhor do que outras mentalidades tribais. Ou seja, o Desidério Murcho critica a mentalidade tribal dos outros, e diz que a sua (dele) mentalidade tribal liberal é a melhor que existe.

Desde logo, parece-me estar implícito no conceito de “conviver com as diferenças”, segundo Desidério Murcho, a ideia de “permissividade”, e não de “tolerância”, porque a tolerância significa “aceitar que alguém possa pensar de uma determinada maneira embora não concordando com essa pessoa”; e se não concordamos, temos que explicar por que não concordamos. Para o Desidério Murcho, “conviver com as diferenças” é sinónimo de permissividade — excepto se a “diferença” for aquela que Desidério Murcho ache intolerável. E se alguém explica racionalmente por que não concorda com uma determinada ideia ou comportamento, Desidério Murcho acha que essa explicação é irracional — excepto se a explicação for consentânea com o seu (dele) tribalismo.

A ideia de Desidério Murcho segundo a qual “hoje convivemos melhor com as diferenças do que há duzentos anos” incorre noutra falácia: a falácia de Parménides. Para além disso, está implícita nesta ideia a noção de que é possível modificar a natureza fundamental do ser humano — a mesma ideia que preside à política correcta das engenharias sociais.

“Convivemos melhor com as diferenças do que há duzentos anos” — coisa nenhuma!

Desidério Murcho incorre noutra falácia lógica: Cum hoc ergo propter hoc. O que acontece hoje é que o ser humano a Ocidente vive amontoado em cidades — tornou-se maioritariamente citadino — o que leva, por um lado, à indiferença em relação ao outro, e por outro lado, à atomização da sociedade que está na base dos totalitarismos do século XX.

“Indiferença em relação ao outro” não é a mesma coisa que “conviver melhor com as diferenças”. Mas Desidério Murcho pensa que é a mesma coisa.

Diz Desidério Murcho que “temos hoje mais consciência da importância de respeitar qualquer ser humano”. Haja alguém, por favor — peço encarecidamente! — que diga uma coisa muito simples a Desidério Murcho: o “progresso” não é uma lei da natureza! E depois, diz ele que “o caminho rumo à sociedade paradisíaca e perfeita, é longo”, mesmo com a novidade cultural do aborto que nos dá, certamente, “mais consciência do respeito em relação ao ser humano”.

Desidério Murcho desfia conceitos muito vagos, e não noções. Por exemplo: o que é “aceitação da diferença”? Por que é que hoje existe “aceitação da diferença”, e não existiu “aceitação da diferença”, por exemplo, na península ibérica do primeiro e segundo milénios depois de Jesus Cristo? Qualquer pessoa que tenha lido acerca da convivência entre judeus, católicos e muçulmanos ibéricos, entre 800 e 1200, fica sem saber se essa convivência implicava, ou não, a “aceitação da diferença”. Outra falácia lógica de Desidério Murcho : ad Novitatem.

Não me vou estender na análise do pensamento de Desidério Murcho porque o artigo não merece a pena — nem a pena que escreve, nem a pena que nos leva a escrever.

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