perspectivas

Sábado, 24 Novembro 2012

A Teodiceia é biunívoca

Filed under: filosofia,Religare — O. Braga @ 6:06 am
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Sobre este texto do Padre Nuno Serras Pereira:

A Teodiceia é biunívoca: nem se pode imputar a Deus os erros do mundo, nem se pode fazer com que Deus cometa os erros do mundo.

1/ existe uma diferença entre ira, por um lado, e ódio, por outro lado. Podemos estar irados sem ódio. Podemos entrar em estado momentâneo de ira, por exemplo, em relação aos actos de um filho nosso, o que não significa que o odiemos. Sabemos que uma acção tem sempre um efeito; sabemos que a ira pode ter, em determinadas situações, um efeito positivo (causa/efeito). Por outro lado, nem sempre o ódio se traduz em ira: existe uma espécie de ódio sereno, silencioso e cínico.

2/ normalmente, e salvo casos excepcionais (ver ponto 5), o ser humano é vítima de si mesmo, da sua ignorância, da sua imprudência — e não vítima da “ira de Deus”. Quando o ser humano “silencia as Suas exigências, o Seu zelo pela nossa perfeição” (sic), é o ser humano que é vítima de si próprio, porque ainda não conseguiu assimilar/interiorizar determinados valores revelados.

‘Angelus’, de Jean-François Millet

3/ neste sentido, é a alma humana que constrói o seu próprio inferno ou o seu purgatório. A noção popular de “alma penada” traduz o espírito que se vitima a si próprio. O que Deus pode fazer e faz, é emanar continuamente a Graça, que é gratuita e acessível a todos os que a queiram receber. Deus pode, em situações que Ele considere excepcionais, e por vezes por intercessão de Jesus Cristo, e através deste, pela plêiade dos Santos, operar um milagre que “abra os olhos da alma” de um ser humano — por exemplo, o que acontece em certas “situações-limite”.

Podemos ver traduzida esta noção de milagre em relação à alma humana no Evangelho de S. João, 5, 2 – 5,14 [“Em Jerusalém, junto à porta das Ovelhas, há uma piscina, em hebraico chamada Betzátá. (…)” etc.

Os cinco pórticos — onde “jazem doentes, cegos, coxos e paralíticos”: estamos em presença de estados psíquicos, e não propriamente de estados físicos. A mensagem de Jesus Cristo é a água da qual surge a força que cura, ou seja, que elimina os bloqueios psicológicos patogénicos; e a mensagem de Jesus Cristo opõe-se a uma doutrina que tenha a sua origem no mundo, e que só é perceptível através dos cinco sentidos que são os cinco pórticos onde se encontram os doentes.

As pessoas que estão na piscina de Betzátá estão diminuídas nas suas capacidades porque não tiveram acesso à verdade existencial. Elas aceitam a mensagem da espiritualidade interior [condição da felicidade em Deus], mas não são capazes de a realizar de facto: uma coisa é aceitar a palavra de Jesus Cristo; outra coisa diferente é compreendê-la de tal forma a interiorizá-la efectivamente.

“Estava ali um homem deitado há 38 anos” — em uma linguagem simbólica, o “homem deitado” jaz na sua fé ou nas suas convicções; ele jaz na verdade que recebeu [da educação, da catequese por exemplo] mas não é capaz de se mover na dimensão dessa verdade. Ele chega sempre à água atrasado em relação aos outros — ou seja, é um ser humano que age a partir de uma convicção que tem na sua mente, e age sempre a partir daquilo que está para ele em segundo lugar [a dicotomia “razão” versus “espírito”], porque em primeiro lugar não está a razão, mas antes está a verdade da alma e da consciência que resulta da sua existência [os pensamentos, pelo contrário, são sempre secundários].

O Evangelho de S. João está repleto deste tipo de imagética, o que torna quase impossível ao Homem moderno entendê-lo. E por maioria de razão, grande parte das escrituras estão cheias de simbolismos deste tipo, imperceptíveis a “olho nu”.

4/ O Logos não é o Pai, porque se o fosse, não faria sentido a Trindade. Mas também não é uma alma humana — no sentido daquilo que S. Paulo dizia ser “os homens da Terra”, em contraponto aos “homens do céu” —, tanto na sua essência como em substância. O Logos é “consubstancial ao Pai”, e neste sentido, sendo de substância (no sentido de Espinoza) idêntica ao Pai, não é da mesma essência do Pai. Isto significa que entre Deus e o ser humano — “o homem da Terra” — existe uma intermediação gradativa em potência.

5/ o Mal organizado existe. Não no sentido maniqueísta (da religião do persa Mani) e gnóstico das duas forças contrárias heracliteanas equivalentes que se opõem, mas antes a de uma força que renega a Causa Primeira (Deus). O Mal organizado é uma negação; é uma revolta que é simbolicamente traduzida pela imagem do “anjo caído”. Ao contrário da maioria das almas que são vítimas de si próprias, e por isso inconscientes, o Mal organizado é consciente. Mas se podemos tratar o Mal com ira — nós, que lidamos directamente com o nosso semelhante e com ele convivemos —, nunca o devemos fazer com ódio, porque entraríamos no campo específico do Mal; e a ira só se justifica quando é utilizada com algum benefício para outrem.

6/ a ideia de um Deus que odeia foi alterada por Jesus Cristo, que introduziu a noção de Deus como sendo o Pai. Ora, um pai não odeia os seus filhos; ou, se odeia, não é pai propriamente dito.

7/ é notório que a Igreja Católica — e o Cristianismo em geral — tem perdido influência nas almas a Ocidente, onde hoje impera o “racionalismo irracional” — porque “racionalismo” não é sinónimo de racionalidade. Por isso, e ao contrário do que parece pensar o Padre Nuno Serras Pereira, o discurso da Igreja Católica terá que mudar de forma a que o homem moderno entenda, por exemplo, a metáfora em que S. João se refere a “Jerusalém, junto à porta das Ovelhas, há uma piscina, em hebraico chamada Betzátá. (…)”. Neste sentido, o Papa Bento XVI tem feito um trabalho notável, intelectualizando o discurso e tendo como alvo os jovens intelectuais que serão parte da elite futura — afastando-se do discurso medieval do “Deus iracundo e odiento”.

A Teodiceia é biunívoca: nem se pode imputar a Deus os erros do mundo, nem se pode fazer com que Deus cometa os erros do mundo.

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2 comentários »

  1. http://defesadoevangelho.com.br/newspost/a-origem-do-mal-teodiceia/

    On Saturday, November 24, 2012, perspectivas wrote: > O. Braga publicou: ” Sobre este texto do Padre Nuno Serras Pereira: A Teodiceia é biunívoca: nem se pode imputar a Deus os erros do mundo, nem se pode fazer com que Deus cometa os erros do mundo. 1/ existe uma diferença entre ira, por um lado, e ódio, por outro lad” >

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    Comentar por conservador — Domingo, 25 Novembro 2012 @ 5:03 am | Responder

    • Obrigado pelo link.

      1/ O conceito de “teodiceia” de Leibniz — embora o nome “teodiceia” fosse cunhado por Leibniz — já existia pelo menos desde S. Anselmo de Aosta. Podemos mesmo detectar vestígios do conceito de teodiceia na patrística.

      2/ Quem está invertido é o tal Gary Crampton, porque não situou as ideias de Leibniz na sua (deste último) época: chama-se ao raciocínio de Crampton: falácia de Parménides. Crampton é ignorante.

      Como já disse, o conceito de teodiceia vem de muito antes de Leibniz; e ressurgiu com ele, embora de uma forma mais elaborada e refinada, a propósito da polémica de Leibniz com o panteísmo de Espinoza e com o ateísmo de Hobbes, que estavam muito em moda na Europa daquela época (século XVII). Antes de dizermos, por exemplo, que Aristóteles estava “invertido”, temos que nos colocar na época de Aristóteles, e nos circunstancialismos da sua época.

      3/ O trocadilho de Crampton é uma espécie de sorites (outra falácia lógica). É lógico que “se este mundo é o melhor porque Deus o escolheu”, segue-se que Ele escolheu este mundo porque é o melhor. Não é possível desligar logicamente a qualidade do mundo do criador do mundo. Trata-se de um sofisma de Crampton.

      O mais que se poderia dizer de Leibniz é que o seu (dele) raciocínio estaria incompleto — o que não é verdade, porque a sua explicação da teodiceia é mais profunda e completa do que aquela referida no texto supracitado.

      4/ Se é verdade que, em filosofia, não podemos falar no conteúdo de Deus, podemos falar na Sua forma. A forma de uma coisa não é o mesmo que o conteúdo dessa coisa. E sendo o conteúdo de Deus um mistério — e não um enigma, que possa ser resolvido —, nem a religião pode saber alguma coisa pouca desse conteúdo senão mediante revelações credíveis (não é qualquer “revelação” que serve).

      Só quis comentar a parte referente a Leibniz, porque este filósofo tem sido injustamente maltratado por ateus e católicos; e também Descartes, que sendo um católico praticante e devoto, educado pelos jesuítas, é injustamente diabolizado por muitos católicos.

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      Comentar por O. Braga — Domingo, 25 Novembro 2012 @ 7:52 am | Responder


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