perspectivas

Sexta-feira, 9 Novembro 2012

Passos Coelho e os “trabalhadores da undécima hora”

A sopa em que mergulhou a polémica tem como principal ingrediente o facto de Jonet ter afirmado que “os portugueses vivem muito acima das possibilidades” e que, por isso, vão ter que “aprender a viver com menos”. “Vamos ter que empobrecer muito, vamos ter que viver mais pobres”, disse, em conclusão, a presidente do Banco Alimentar (BA), na quarta-feira em directo no programa Última Edição, na SIC Notícias, onde se debatiam as causas e consequências da actual situação de crise generalizada.

via Isabel Jonet acusada de usar a fome como arma política – Sociedade – PUBLICO.PT.

O que me aborrece nas citações de Isabel Jonet é o fatalismo implícito nas suas palavras. Se há uma coisa que me chateia profundamente é o determinismo, que é o grande inimigo da liberdade. Muitas vezes, pessoas que se dizem amantes da liberdade parecem enveredar por esse fatalismo determinista — o pulsar dolente do fado lisboeta e mouro que apela ao fatalismo e ao determinismo profético, e que nega a própria liberdade.


O mestre Adriano Moreira, no seu livro “Tempo de Véspera”, escreveu o seguinte:

O determinismo da desgraça

“(…) os trabalhadores da undécima hora só prosperam quando as batalhas forem ganhas, os tempos cumpridos, os sonhos realizados. Não são os que ficaram silenciosos, os que não participaram na acção, que fizeram o mundo em que vivemos. Acontece que estão lá na época da colheita. Os que fazem o mundo são os outros, são os que transformam as ideias em palavras e as palavras em acção.
(…)

É porque os velhos lutadores estiveram nos debates, responderam à chamada para o combate, participaram nas carências, correram todos os riscos, que chega algum dia em que batem as pancadas da undécima hora. Os construtores do mundo, de uso não têm mais do que dez horas para viver. A colheita em regra não lhes pertence. (…) O grande destino que lhes coube e cumpriram foi o de preparar a vinda da undécima hora.”

Passos Coelho e os seus apaniguados são os “trabalhadores da undécima hora” que fazem, hoje, a “colheita” dos erros da governança do passado recente. Por isso é que Passos Coelho e os seus apaniguados não são de direita nem de esquerda — não pertencem ao grupo dos “velhos lutadores”, de esquerda ou de direita —, porque não construíram nada: apenas se preocupam agora, na undécima hora, com a colheita das desgraças que os construtores do nosso mundo erigiram.

Porém, nem tudo o que “velhos lutadores” construíram foram desgraças; mas os trabalhadores da undécima hora, os profetas da desgraça, nunca conseguirão ver o mundo de outra maneira, porque não contribuíram para a construção do mundo como fizeram os “velhos lutadores”. Apenas se preocupam com a “colheita”, independentemente de esta ser boa ou má; o seu juízo é acrítico, porque nunca se preocuparam em construir alguma coisa. São os que chegam na undécima hora.

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