“Perdi a conta dos leitores que me perguntam sobre a famigerada estória. Uns querem saber se realmente existe essa distinção entre estória e história. Outros teriam ouvido que a palavra existiu outrora, mas hoje seria considerada arcaica. Há quem especule que estória tenha nascido de um erro de tradução. Quase todos perguntam se é uma distinção útil e necessária, ou se não passa de supérfluo balangandã.
Peço perdão àqueles que fiz esperar, mas aqui vai minha resposta a todos.
Foi João Ribeiro, forte conhecedor de nosso idioma, quem propôs a adopção do termo estória, em 1919, para designar, no campo do Folclore, a narrativa popular, o conto tradicional, objecto de estudo dos especialistas daquela área. E não se tratava de inventar, mas sim de reabilitar (hoje usariam o horrendo resgatar…) uma forma arcaica, comum nos manuscritos medievais de Portugal.”
Os portugueses têm a mania que são donos da língua portuguesa, o que não é verdade. E, por outro lado, os brasileiros têm a mania de dizer que escrevem um “português moderno”, o que também não é verdade.
Ele há termos antigos e/ou arcaicos, ou medievais, que existem no Brasil e desapareceram em Portugal. E vice-versa. E quando me perguntam, à laia de crítica mais ou menos dissimulada, por que escrevo aqui a palavra “estória”, quando me refiro a um relato de credibilidade duvidosa — quando esta palavra desapareceu em Portugal mas existia, por exemplo, no século XIX —, o que se passa é que muitos termos arcaicos da língua portuguesa perderam-se em Portugal e continuam a existir no Brasil.