perspectivas

Sábado, 25 Agosto 2012

Hannah Arendt e o seu conceito de ‘banalidade do mal’

Filed under: ética,cultura,Política,politicamente correcto,Ut Edita — O. Braga @ 10:22 pm
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Dizer que uma pessoa que não sente remorso nem culpa, é uma “pessoa normal”, é uma estupidez, e só se justifica mediante o relativismo ético que caracterizou Hannah Arendt.

Há que distinguir “banalidade do mal”, por um lado, de “banalização do mal”, por outro lado. E também haveria que laborar no conceito de “mal”, mas infelizmente não cabe aqui e agora fazê-lo, por falta de espaço.

O mal sempre foi mais ou menos banal, consoante as épocas, e sempre assim será: a tentativa de erradicar o mal da condição humana não é só utópica: é também, em si mesma, uma manifestação da banalização do mal, e já não só a mera expressão da banalidade do mal. O primeiro utopista de que há história foi Platão, que defendeu, na sua “República”, a criação de campos de concentração, assim como defendeu a queima dos livros de Homero. No entanto, Platão foi também o criador da alegoria da caverna e o defensor do conceito de Ideia. O problema da utopia é que aplica a absolutização do conceito de Ideia platónica a um mundo material (no sentido macroscópico do universo); ou seja, não separa ou não distingue os dois conceitos.

Hannah Arendt

Do que Hannah Arendt falou no seu livro “Eichmann em Jerusalém” (1963) com o subtítulo “Relatório sobre a Banalidade do Mal”, decorre da existência real e concreta do Homo Totalitarius que é um fenómeno moderno (nisso, concordo com ela); o Homo Totalitarius não existia, como tal, antes de meados do século XVII. E a confusão que se seguiu à publicação do seu livro prende-se com a ambiguidade que a palavra “banalidade” transporta consigo naquele contexto concreto: se Hannah Arendt tivesse utilizado o termo “banalização”, em vez de “banalidade”, talvez muita da confusão em redor do seu livro poderia ter sido evitada. Mas essa ambiguidade de Hannah Arendt é intrínseca à sua forma relativista de pensar, e por isso o seu livro não poderia ser outra coisa senão ambíguo.

Eu penso que é verdade que o homo totalitarius é um fenómeno moderno; mas discordo da visão de Hannah Arendt segundo a qual Eichmann era “uma pessoa completamente normal” (sic), no seguimento da ideia segundo a qual o Estado nazi — segundo Arendt — não ter nada de “demoníaco”, e nem ser, pior ainda, “psicopatológico”, mas, em vez disso, ser apenas — segundo Arendt — o produto ou consequência do “consentimento” dado por homens e mulheres completamente “normais, tal Eichmann”.

Hannah Arendt parece não ter compreendido que a Alemanha ficou cativa de uma elite — que se seleccionou a si mesma, ao longo da década de 1920, mediante uma simpatia comum e fundamental em relação a uma determinada mundividência — composta, na sua esmagadora maioria, por psicopatas que assumiram o poder político. Portanto, dizer, como Hannah Arendt diz, que o Estado nazi não era nada demoníaco nem psicopatológico, e afirmar que Eichmann era uma pessoa normal, é um completo disparate. É separar o Estado, por um lado, das pessoas e/ou da elite política que o conduz, por outro lado.

Portanto, a natureza maléfica da elite nazi — composta maioritariamente por psicopatas cuidadosamente seleccionados na sociedade alemã, e ao longo de mais de uma década — não era banal (banalidade do mal), como diz Hannah Arendt: antes, essa natureza maléfica foi banalizada (banalização do mal) mediante um mecanismo de mimetismo cultural transversal a toda a sociedade alemã, e mediante um efeito cultural de Trickle-down (Georg Simmel) — da mesma forma que o acto de abortar pode ser actualmente tão banalizado que funciona já como um método anti-conceptivo e é mesmo ensinado nas escolas; mas esta banalização do aborto (que é uma forma de mal) tem a sua origem na psicopatia das elites políticas actuais, no mimetismo cultural e no efeito cultural de Trickle-down. E quando a psicopatia das elites encontra um ambiente epigenético favorável à sua proliferação, surgem como cogumelos e em todo o seu esplendor, os Eichmann deste mundo.

Um psicopata, como Eichmann, não sente remorso; não sente culpa. A psiquiatria definiu já um arquétipo mental preciso do psicopata. Dizer que uma pessoa que não sente remorso nem culpa, é uma “pessoa normal”, é uma estupidez, e só se justifica mediante o relativismo ético que caracterizou Hannah Arendt.

5 Comentários »

  1. Sr.Orlando, estou a ler o livro que me sugeriu dela e neste artigo já me deu claras providências que tenho de tomar ao interiorizar o pensamento da dona Hannah Arendt. Há mais algo que eu precise de saber para entender melhor a autora? No 9º ano não tive história, fiquei sem saber a segunda guerra mundial e no início do livro ela faz uma crítica à “Resistência”, quem é essa “Resistência”?

    Comentário por Eu Mesmo — Terça-feira, 18 Agosto 2015 @ 10:45 pm | Responder

    • A resistência a que se refere a Hannah Arendt é a resistência francesa. Ver:

      https://pt.wikipedia.org/wiki/Resist%C3%AAncia_francesa

      Comentário por O. Braga — Quarta-feira, 19 Agosto 2015 @ 9:01 am | Responder

      • Penso que deveria ler um livro sobre a segunda guerra mundial, infelizmente nos últimos anos de ensino público tinha professoras de história que leccionavam 7-8 aulas por ano (e não eram penalizadas porque tinham atestado médico e só no último mês do último ano é que foram substítuidas), antes de passar a Hannah Arendt; tem algum historiador de preferência ou um livro particular que descreva a segunda guerra mundial ?

        Comentário por Eu Mesmo — Sábado, 22 Agosto 2015 @ 7:31 am

      • Eu gostaria de lhe dizer o seguinte:

        Muitas vezes me aconteceu ler um livro e não perceber quase nada do que lá estava escrito. Por exemplo, quando li pela primeira vez a filosofia do Direito de Hegel, não percebi quase nada; e uma das razões por que não percebi era a de que eu não tinha as bases necessárias para o compreender.

        Para ter as bases necessárias para compreender Hegel, por exemplo, tive que perceber primeiro as ideias metafisicas de Heraclito, de Parménides, de Platão e de Aristóteles. Depois voltei a ler Hegel e já percebi mais um pouquinho.

        Depois li alguns iluministas, como por exemplo, Montaigne, Rousseau, Kant. E passei a compreender ainda melhor Hegel. Depois li alguns idealistas alemães, como por exemplo, Fichte. E Hegel ficou ainda mais claro na minha mente.

        Finalmente li Eric Voegelin, e as ideias de Hegel foram quase todas desconstruidas. Há alguns conceitos que se salvam em Hegel, mas poucos.

        O que eu quero dizer é que você não pode começar a construir uma casa pelo telhado. Primeiro, você tem que fazer as fundações, depois construir as paredes, e finalmente construir o telhado. As fundações da filosofia são os gregos antigos. É por aí que você deve começar. Existe um curso online de filosofia do professor Olavo de Carvalho que não é caro; eu recomendo.

        Contudo, esteja à vontade para colocar quaisquer questões.

        Comentário por O. Braga — Sábado, 22 Agosto 2015 @ 9:53 am

      • Sim, mas o que eu estou a tentar preencher é um vazio histórico, é uma parte da história que ficou em branco e eu deveria e quero saber o desenrolar dos acontecimentos da segunda guerra mundial… Não tem um historiador de preferência que narre os acontecimentos com precisão?

        Comentário por Eu Mesmo — Sábado, 22 Agosto 2015 @ 12:05 pm


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