perspectivas

Quarta-feira, 8 Agosto 2012

O ateísmo religioso neo-ateísta

A única forma de ser ateu é ser-se radicalmente céptico. Não se pode ser ateu acreditando que Deus ou deuses não existem, porque para além de não ser científica tal postura — a ciência não pode provar que uma coisa não existe —, a crença segundo a qual Deus não existe não deixa de ser uma crença.

O verdadeiro céptico é aquele que deu um tiro na cabeça — mas só é totalmente céptico depois de morto.

Um exemplo de um ateu propriamente dito foi Bertrand Russell e não, por exemplo, Richard Dawkins. Um indivíduo que acredita no evolucionismo como se de uma espécie de religião se tratasse não pode, por definição, ser ateu. E Bertrand Russell era de tal forma céptico que até duvidou e colocou mesmo em causa o evolucionismo.

Este cepticismo de Russell não é o cepticismo da Grécia antiga [por exemplo, Sócrates ou Aristóteles], porque este último é o cepticismo necessário à ciência e à investigação; o cepticismo de Sócrates é o cepticismo que tende a suspender o juízo do sujeito quando se faz a análise de um problema. Em contraponto, cepticismo de Russell é o cepticismo radical moderno que foi marcado por David Hume, e que pode ser definido como “uma atitude do espírito que leva a negar que o pensamento possa atingir uma verdade geral de carácter especulativo” [relativismo].

Niels Bohr traduz, talvez de forma não intencional, este cepticismo radical moderno quando diz que “o sentido de um conceito só é definido por meio de uma experiência concreta”. Aqui, “experiência” deve ser entendida como sendo empírica e prática, e nunca como sendo subjectiva. “Os conceitos não têm sentido no absoluto; a sua definição é apenas operacional”.

Acerca deste cepticismo moderno e radical, Hegel escreveu:

«Segundo este cepticismo muito moderno, a faculdade humana do conhecimento é uma coisa que contém conceitos, e já que ela não tem senão conceitos, não pode atingir as coisas que estão fora.

(…)

Nenhum ser racional iria imaginar que pelo facto de “possuir” a ideia de uma coisa, ele possui igualmente essa coisa. Portanto, este cepticismo não é bastante consequente para mostrar, ao mesmo tempo, que nenhum ser racional não deva imaginar que possui uma ideia.

Com efeito, a ideia é também qualquer coisa; portanto, o ser racional não pode ter senão a ideia da ideia, e não a própria ideia; nem mesmo a ideia da ideia, porque esta ideia na segunda potência seria, portanto, a ideia da ideia, até ao infinito.»

Enfim, o que Hegel quer dizer é que a negação da metafísica é sempre uma metafísica. Não há como sair disto senão suicidando-se. O verdadeiro céptico é aquele que deu um tiro na cabeça — mas só é totalmente céptico depois de morto.

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