perspectivas

Quarta-feira, 25 Julho 2012

Resposta a uma pergunta acerca da refutação do determinismo (1)

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 6:46 pm

Introdução

O filósofo Edmund Husserl escreveu que o desvelamento que permite a matematização furiosa da ciência é também um obscurecimento. Com a quântica e com a matematização furiosa da ciência, as relações da realidade e do saber perderam a aparência de falsa evidência que possuíam no início da era científica. Hoje, um cientista é — ou deve ser — simultaneamente realista e positivista, o que conduz a uma espécie de esquizofrenia: é realista porque afirma, por exemplo, a existência de partículas elementares quânticas que ele não vê nem experiencia, e é positivista no que diz respeito ao método científico empirista.

Entre a comunidade científica, existem hoje os agnósticos — os muito educados que não têm opinião sobre a quântica —; os seguidores da teoria de David Bohm; a escola de Copenhaga — minimalista e positivista —; a corrente de Eugene Wigner e de Bernard D’Espagnat que defende uma relação entre a consciência e a matéria; a teoria dos universos paralelos de Everett e comandita, que é tão difícil subscrevê-la como refutá-la; a teoria da “descoerência”, de Roland Omnès e amigos; etc.; enfim, todas estas teorias têm os seus problemas e as suas contradições intrínsecas.

Portanto, os próprios físicos não se entendem no que diz respeito à quântica e já se interrogam quanto ao estatuto da ciência; por isso, a minha abordagem aqui é filosófica, porque para polémica já chega a que existe entre os próprios cientistas. Existem vários modelos quânticos teóricos contraditórios entre si, e todos eles apresentam vantagens e desvantagens. Não existe, nem de perto nem de longe, um consenso mais ou menos alargado: nem a putativa descoberta da pegada do bosão de Higgs acalmou os ânimos, porque o modelo que se apoia no bosão de Higgs não considera, em si mesmo, a entropia da força da gravidade.

Entre o formalismo matemático e o mobiliário ontológico tradicional, a filosofia opta pelo segundo embora interpretando o primeiro. A matemática é uma linguagem simbólica. Por exemplo, a expressão matemática ΔE Δt ≥ h/2π corresponde a Ψ. E Ψ é o símbolo da Função de Onda ou Função Ondulatória Quântica. “E” é a energia, “t” é o tempo, h é a constante reduzida de Planck, e o π é 3,1416etc. Portanto, a expressão matemática ΔE Δt ≥ h/2π encerra em si um conceito que é possível traduzir numa linguagem filosófica e “decente”.

Não vou aqui falar em conceitos, por exemplo, de energia potencial, de energia cinética e de energia total, ou de feixe de ondas, ou de vector de estado, porque aí eu iria complicar aquilo que se pretende ser simples: tentar responder a esta pergunta:

“Nenhuma lei da natureza é absolutamente certa e pré-determinada. Em rigor, ninguém provido de razão poderá dizer que tem a certeza absoluta de que o Sol vai surgir no horizonte nascente da próxima manhã.”

Percebo o princípio e concordo, mas não percebo o argumento pelas leis físicas… Podia explicar-se essa verdade de uma maneira acessível e compreensível para leigos na área da Física?

Não venham os críticos e detractores dizer que a minha resposta à pergunta é simplista, porque ela será construída exactamente para ser simplista e facilmente entendível. Não dou passos maiores do que a perna.


O “princípio da incerteza” de Heisenberg — diz-nos, a traço grosso, que existem sempre dois modos complementares de “construir” a realidade. Se observarmos a realidade de um desses modos, o outro torna-se indefinido — ou seja, por exemplo, é impossível fazer a observação de uma Partícula Elementar Longeva [ou partícula subatómica, por exemplo, um electrão], e simultaneamente definir a sua posição; ou se faz a sua observação (tempo), ou se define a sua posição (espaço), isto é, numa observação, por exemplo, de um electrão, ou se define o tempo ou o espaço que ele ocupa, e não as duas coisas simultaneamente.

[continua]

2 comentários »

  1. […] definição que dei, no postal anterior [que diz respeito a esta pergunta], do “princípio de incerteza de Heisenberg” é politicamente […]

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