perspectivas

Sábado, 21 Julho 2012

Breve nota sobre o gnosticismo da antiguidade tardia

Filed under: gnosticismo — O. Braga @ 10:01 am

O gnosticismo antigo foi cristão ou pagão? Responde o lógico: Sim!

Porque foi as duas coisas e independentemente uma da outra. O gnosticismo é uma espécie de vírus que se adapta a qualquer circunstância cultural ou histórica. O gnosticismo cristão foi essencialmente anti-judaísmo, mas também foi — em certos vultos da patrística — imanente e escatológico.

Como se viu no postal anterior sobre este assunto, os teóricos gnósticos (1) recusam a afirmação do sujeito e do indivíduo, (2) rejeitam a transcendência e afirmam o escape imanente à realidade , e (3) afirmam o absolutismo do determinismo.

Estes três ingredientes gnósticos podem ser “cozinhados” de forma diferenciada. Podemos ter, por exemplo, uma maior “dose” de determinismo e uma fraca “dose” de negação do sujeito. Também podemos encontrar alguns — mas não todos — ingredientes culturais e ideológicos em algumas personagens da patrística [os primeiros cristãos], nomeadamente em Orígenes e até, em pequena escala, em S. Paulo e mesmo em Santo Agostinho.


Os primeiros cristãos enquadram-se em três categorias de acção: (1) o advento iminente e imanente do Reino de Deus; (2) a fé na ressurreição de Jesus Cristo; (3) e a confrontação com o mundo pagão no império romano que coloca em causa a Lei judaica [decálogo ou os 10 mandamentos, e o Antigo Testamento em geral, para além dos rituais judeus].

S. Paulo viu na ressurreição de Cristo o fim da autoridade da lei judaica [confirmado no primeiro concílio de Jerusalém, ~ 49 d.C.]. Mas por outro lado, S. Paulo diz que a lei judaica é boa [Romanos 7, 7 – 12]. Mas diz S. Paulo que a lei não chega: a lei não pode salvar, porque é impossível cumpri-la sem mácula: o homem falha sempre no cumprimento da lei, e só Deus salva. A justiça que vinha da lei, a partir de agora, vem de Cristo que é o fim da lei [Romanos 10,4]: é pela fé em Jesus Cristo que se alcança a justiça do homem perante Deus.

A lei de Moisés [decálogo] continua válida mas já não é absoluta: diz S. Paulo que as tábuas da lei judaica não foram dadas a Moisés por Deus, mas pelos anjos [Gálatas, 3,19], diminuindo assim o valor simbólico da lei judaica. Pela primeira vez surge o conceito de “lei divina eterna” — a de Cristo, a lei restaurada por Cristo, e que se transforma na “lei de Cristo” — que se distingue da lei de Moisés [Gálatas, 6,2].

Os conceitos de “lei nova” oposta à “lei antiga” [judaica], e de “homem novo”, são paulinos.

S. Paulo adoptou dois conceitos estóicos: o da caridade — conforme a racionalidade da lei natural, “porque os pagãos justos também a observam sem a conhecer” —, e o conceito de consciência ou “voz da consciência” que também é de origem estóica.

Finalmente, introduziu o conceito de “Graça” da qual depende a vida dos cristãos, e não já da lei. O “paradoxo paulino” consiste em dar à lei uma importância extrema, ao mesmo tempo que confia o cumprimento da lei à graça divina.

A ética passa a depender de Cristo e não da lei. A lei judaica e a lei estóica são possíveis e válidas apenas e só pela caridade que Jesus Cristo reconhece a todos.

Temos, pois: transcendência da lei judaica + caridade de e em Jesus Cristo + oposição entre a lei e a graça = Cristianismo como sistema moral que transcende a própria moral daquela época. A lei judaica não é alterada mas o seu estatuto deixa de ser o que era.

É neste contexto que surgem os diversos movimentos gnósticos que, na sua essência idiossincrática, já existiam há milénios embora sob diferentes lógicas culturais e históricas.

[continua]

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