A aristocracia portuguesa foi destruída pelo marquês de Pombal e nunca mais se reconstituiu. Com a I e a III repúblicas, tendeu-se a considerar que a classe política é a “aristocracia moderna”, mas acontece que a aristocracia não é uma classe, mas antes é uma colecção de indivíduos. Portanto, a classe política não constitui, em si mesma, uma aristocracia.
O aristocrata, enquanto indivíduo, distingue-se da maioria popular em quase todos os graus, mas está unido ao povo através de um patriotismo arreigado e atávico.
A monarquia liberal do século XIX foi completando o processo de destruição da aristocracia iniciado pelo marquês de Pombal, e a república quase acabou com o resto da aristocracia que ainda restava. E esta realidade levanta o enorme problema da reconstituição da aristocracia portuguesa.
Um aristocrata não tem necessariamente que ser rico; não tem que pertencer à classe da alta burguesia.
Os privilégios concedidos pelo rei à aristocracia (a nobreza) poderiam ser retirados a qualquer momento pelo rei se o privilegiado prevaricasse ou traísse a pátria; e foi o que o marquês de Pombal fez, não a um ou dois, mas a toda a aristocracia, e sem uma razão plausível que não fosse a intenção do reforço absolutista do poder político.
Depois do marquês de Pombal, a aristocracia (nobreza) deixou de ter uma função política definida e concreta, e não se criou uma nova aristocracia em sua substituição porque esta substituição não é possível no contexto do movimento revolucionário estrangeirado que descambou na república.
A II república (o Estado Novo de Salazar), criou uma aristocracia composta pelos ricos, ou seja, transformou a classe da alta burguesia em uma espécie de aristocracia; mas cometeu o mesmo erro, porque uma aristocracia não é uma classe social, mas antes é uma série de indivíduos. A aristocracia não coincide nem com a classe política (III república), nem com a classe burguesa alta (II república).
Um país sem uma aristocracia legítima e verdadeira, é um país sem rumo porque é um país desnacionalizado. E é o que tem vindo a acontecer a Portugal desde o marquês de Pombal, de uma forma suave a paulatina. Entrámos numa decadência suave que não é imediatamente perceptível pela geração que a vive: só uma análise global do processo permite identificar essa decadência.
A reconstituição de uma verdadeira aristocracia — que não tem que ser necessariamente uma aristocracia de sangue, com excepção absoluta da família real; mas também não deve ser a exclusão automática da aristocracia de sangue, dependendo de cada caso em concreto — não é possível senão através da reintrodução da monarquia em Portugal. O código genético da república torna impossível essa tarefa, conforme já demonstrado após 100 anos de república. Qualquer que seja o caminho que sigamos na lógica das coisas, vamos dar à monarquia.