perspectivas

Fernando Pessoa, a maçonaria, e José Pacheco Pereira

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Aqui há dias, um amigo leitor perguntava-me, num comentário, se Fernando Pessoa seria um “cristão gnóstico”. Entretanto, os leitores brasileiros deste blogue estranham a minha animosidade em relação à maçonaria, porque parece que esta goza de um certo prestígio no Brasil. E, finalmente, já não é a primeira vez, nem a segunda, que o José Pacheco Pereira escreve, no seu blogue, que quem critica a maçonaria é ignorante — mas nunca explicou por que é ignorante; o José Pacheco Pereira parece utilizar o estilo bombástico-palavroso que o Bloco de Esquerda utiliza no combate cultural, o que, aliás, não seria estranho dado o seu passado político. É em torno destes três tópicos que vou construir este verbete.

Em primeiro lugar, Fernando Pessoa não era cristão, e portanto não poderia ser “cristão gnóstico”. Mas também não era ateu — no sentido do naturalismo cientificista — nem propriamente agnóstico. Fernando Pessoa era um gnóstico. Ponto final. E isto, porque é possível ser gnóstico sem ser cristão ou sem ser de outra religião universal qualquer; porque a gnose, entendida em si mesma, se não é uma religião para todos os iniciados (sublinho: todos), é concerteza uma para-religião. E para Fernando Pessoa, a gnose era uma religião.

Fernando Pessoa pessoa referia-se ao Cristianismo como nunca eu me referi aqui à maçonaria — mas vou fazê-lo hoje. Fernando Pessoa referia-se, de uma forma com profunda intencionalidade pejorativa, ao legado de Jesus Cristo como “cristismo”, e não como Cristianismo.

Mas Fernando Pessoa está cheio de incoerências, em todos os seus escritos. Fernando Pessoa é a incoerência em pessoa, e por isso devemos dar-lhe um certo desconto. Por exemplo, Fernando Pessoa coloca os Descobrimentos portugueses nos píncaros da História, mas faz de conta que não sabe que os Descobrimentos só foram possíveis, não só em uma cultura cristã, mas essencialmente dentro do espírito religioso que o Cristianismo nos trouxe. Sem Cristianismo e sem a ambiência cristã da Idade Média, não teriam existido nem a Escola de Sagres nem os Descobrimentos. Toda a gente sabe disto, mas Fernando Pessoa fez de conta que não o sabia quando atacava sistematicamente o “cristismo”.

Fernando Pessoa tinha um conhecimento extenso e profundo de História (e não só de Portugal), mas um conhecimento mediano da história das ideias. Digamos que Fernando Pessoa era mais historiador — ou um intérprete da História — do que um filósofo. Mas incorreu em muitos erros de interpretação histórica. Um deles foi o defender a ideia segundo a qual Jesus Cristo, como figura histórica, não existiu — o que aliás era consentâneo com as ideias de uma certa intelectualidade estrangeira e maçónica da sua época. Para além dos documentos e relatos independentes dos Evangelhos, por exemplo, de Plínio o Velho, e de outros documentos que já existiam na época de Pessoa e que este ignorou, hoje existem outros documentos apócrifos entretanto encontrados (por exemplo, o Evangelho de Judas, encontrado há poucos anos no Egipto) que demonstram que o Jesus Cristo histórico existiu de facto e sem margem para qualquer dúvida — independentemente da veracidade factual atribuída ou atribuível, ou não, ao conteúdo dos Quatro Evangelhos.

Em segundo lugar, devo dizer que não conheço a realidade da maçonaria no Brasil — e isto porque a maçonaria funciona um pouco à semelhança do Islão, onde não existe um centralismo coordenador como acontece, por exemplo, com a Igreja Católica Apostólica Romana por intermédio do Vaticano. Assim como no Islão não existe uma autoridade suprema como existe, na Igreja Católica, com o Papa, assim funciona a maçonaria, em que as Obediências são organizações autónomas e independentes. Mas, tal como o Islão, a maçonaria não é, por isso, menos internacional que a Igreja Católica.

Daquilo que eu conheço da forma como actua a maçonaria portuguesa, devo dizer — e os portugueses sabem disto — que se trata de uma associação criminosa secreta e que mereceria a vigilância por parte da polícia; mas essa vigilância não é possível, porque a maçonaria portuguesa controla as polícias, incluindo as polícias secretas. A maçonaria portuguesa é tão perigosa e danosa para a sociedade portuguesa como é perigosa para a Itália a máfia calabresa ou a Camorra — embora os prejuízos para a sociedade se situem a um nível diverso, e o tipo de crimes seja diferente.

Embora, talvez, a maioria dos iniciados e de grau inferior da maçonaria não tenham, porventura, consciência plena deste facto, a maçonaria é uma religião. E como eu nada tenho contra as religiões, e pelo contrário sou a favor da liberdade religiosa, neste sentido nada tenho contra a maçonaria.

Mas a maçonaria não é uma religião aberta, como é, por exemplo, a religião católica: antes, é uma religião secreta. Não é possível entrar num templo maçónico com a mesma liberdade total — desde que com respeito — de movimentos que um cidadão qualquer pode entrar numa igreja católica em plena celebração da Missa Dominical. Neste aspecto, a religião maçónica também se assemelha ao Islamismo; quando estive, por exemplo, na Grande Mesquita de Casablanca, em Marrocos, verifiquei que estavam sempre dois brutamontes à porta da mesquita a seleccionar quem podia entrar nela e quem não podia; e a mim foi-me proibida a entrada. E o mesmo tipo de acção de filtragem ao postigo se passou na mesquita central de Istambul, que eu vi com os meus olhos que a terra há-de comer.

Sendo uma religião secreta, a maioria dos maçons são incógnitos, ou seja, o povo e a opinião pública, e mesmo muitos políticos, não os conhecem. E não os conhecendo, a maçonaria utiliza os seus membros incógnitos em operações de tráfico de influências — o que é crime à luz do Código Penal português — para toda uma série de manobras de corrupção e compadrio ao mais alto nível do Estado.

A maçonaria lançou Portugal para o estatuto de república da bananas. A actual situação portuguesa de bancarrota teve o concurso activo da maçonaria.

Ora, uma instituição é constituída por homens. Uma instituição não é uma coisa abstracta: é composta por gente. E portanto, não podemos separar a instituição, por um lado, das pessoas que a constituem, por outro lado. Separar a instituição maçónica dos maçons portugueses em geral, é falácia. Portanto, se os maçons portugueses são, em geral, uma espécie de máfia calabresa ou de uma Camorra, a instituição maçónica portuguesa passa a ser a sé espiritual de um bando de criminosos.

Em terceiro lugar, o José Pacheco Pereira vem com a lenga-lenga da ignorância dos outros em relação à maçonaria. O que o José Pacheco Pereira sabe da maçonaria é aquilo que lhe convém; mas falta saber aquilo que não lhe convém, ou aquilo que não lhe convém saber, ou mesmo aquilo que ele não faz ideia que nunca poderá saber.

O José Pacheco Pereira tirou um curso de filosofia com nota final baixa, passou a militar num partido político radical de esquerda de que ele era o único militante, e depois entrou para o Partido Social Democrata pela mão do benjamim de Sá Carneiro, que mais tarde foi o tal secretário-de-estado da cultura de um governo do apdeuta Cavaco Silva e que afirmou, um dia, que adorava ouvir os “violinos de Chopin”.

O que é que dá alguma autoridade de direito — e de facto — para o José Pacheco Pereira dizer que quem critica a maçonaria é ignorante?! O que é que o José Pacheco Pereira sabe da maçonaria que eu, por exemplo, não saiba? Por que é que o José Pacheco Pereira não diz o que sabe da maçonaria? Por que é que o José Pacheco Pereira, em vez de apodar de ignorantes os críticos da maçonaria, não explica por que são ignorantes? Por que é o José Pacheco Pereira pretende ignorar ostensivamente o que é maçonaria? De que é que o José Pacheco Pereira tem medo, ou o que é que ele tem receio de perder, quando não deixa de proteger a maçonaria e os seus actos criminosos? Por que é que o José Pacheco Pereira não mete a viola ao saco, e faz a sua vidinha enquanto os “irmãos” não se esquecem dele?

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