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Quarta-feira, 27 Junho 2012

Fernando Pessoa, a maçonaria, e José Pacheco Pereira

Filed under: A vida custa,Maçonaria — orlando braga @ 4:51 am
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Aqui há dias, um amigo leitor perguntava-me, num comentário, se Fernando Pessoa seria um “cristão gnóstico”. Entretanto, os leitores brasileiros deste blogue estranham a minha animosidade em relação à maçonaria, porque parece que esta goza de um certo prestígio no Brasil. E, finalmente, já não é a primeira vez, nem a segunda, que o José Pacheco Pereira escreve, no seu blogue, que quem critica a maçonaria é ignorante — mas nunca explicou por que é ignorante; o José Pacheco Pereira parece utilizar o estilo bombástico-palavroso que o Bloco de Esquerda utiliza no combate cultural, o que, aliás, não seria estranho dado o seu passado político. É em torno destes três tópicos que vou construir este verbete.

Em primeiro lugar, Fernando Pessoa não era cristão, e portanto não poderia ser “cristão gnóstico”. Mas também não era ateu — no sentido do naturalismo cientificista — nem propriamente agnóstico. Fernando Pessoa era um gnóstico. Ponto final. E isto, porque é possível ser gnóstico sem ser cristão ou sem ser de outra religião universal qualquer; porque a gnose, entendida em si mesma, se não é uma religião para todos os iniciados (sublinho: todos), é concerteza uma para-religião. E para Fernando Pessoa, a gnose era uma religião.

Fernando Pessoa pessoa referia-se ao Cristianismo como nunca eu me referi aqui à maçonaria — mas vou fazê-lo hoje. Fernando Pessoa referia-se, de uma forma com profunda intencionalidade pejorativa, ao legado de Jesus Cristo como “cristismo”, e não como Cristianismo.

Mas Fernando Pessoa está cheio de incoerências, em todos os seus escritos. Fernando Pessoa é a incoerência em pessoa, e por isso devemos dar-lhe um certo desconto. Por exemplo, Fernando Pessoa coloca os Descobrimentos portugueses nos píncaros da História, mas faz de conta que não sabe que os Descobrimentos só foram possíveis, não só em uma cultura cristã, mas essencialmente dentro do espírito religioso que o Cristianismo nos trouxe. Sem Cristianismo e sem a ambiência cristã da Idade Média, não teriam existido nem a Escola de Sagres nem os Descobrimentos. Toda a gente sabe disto, mas Fernando Pessoa fez de conta que não o sabia quando atacava sistematicamente o “cristismo”.

Fernando Pessoa tinha um conhecimento extenso e profundo de História (e não só de Portugal), mas um conhecimento mediano da história das ideias. Digamos que Fernando Pessoa era mais historiador — ou um intérprete da História — do que um filósofo. Mas incorreu em muitos erros de interpretação histórica. Um deles foi o defender a ideia segundo a qual Jesus Cristo, como figura histórica, não existiu — o que aliás era consentâneo com as ideias de uma certa intelectualidade estrangeira e maçónica da sua época. Para além dos documentos e relatos independentes dos Evangelhos, por exemplo, de Plínio o Velho, e de outros documentos que já existiam na época de Pessoa e que este ignorou, hoje existem outros documentos apócrifos entretanto encontrados (por exemplo, o Evangelho de Judas, encontrado há poucos anos no Egipto) que demonstram que o Jesus Cristo histórico existiu de facto e sem margem para qualquer dúvida — independentemente da veracidade factual atribuída ou atribuível, ou não, ao conteúdo dos Quatro Evangelhos.

Em segundo lugar, devo dizer que não conheço a realidade da maçonaria no Brasil — e isto porque a maçonaria funciona um pouco à semelhança do Islão, onde não existe um centralismo coordenador como acontece, por exemplo, com a Igreja Católica Apostólica Romana por intermédio do Vaticano. Assim como no Islão não existe uma autoridade suprema como existe, na Igreja Católica, com o Papa, assim funciona a maçonaria, em que as Obediências são organizações autónomas e independentes. Mas, tal como o Islão, a maçonaria não é, por isso, menos internacional que a Igreja Católica.

Daquilo que eu conheço da forma como actua a maçonaria portuguesa, devo dizer — e os portugueses sabem disto — que se trata de uma associação criminosa secreta e que mereceria a vigilância por parte da polícia; mas essa vigilância não é possível, porque a maçonaria portuguesa controla as polícias, incluindo as polícias secretas. A maçonaria portuguesa é tão perigosa e danosa para a sociedade portuguesa como é perigosa para a Itália a máfia calabresa ou a Camorra — embora os prejuízos para a sociedade se situem a um nível diverso, e o tipo de crimes seja diferente.

Embora, talvez, a maioria dos iniciados e de grau inferior da maçonaria não tenham, porventura, consciência plena deste facto, a maçonaria é uma religião. E como eu nada tenho contra as religiões, e pelo contrário sou a favor da liberdade religiosa, neste sentido nada tenho contra a maçonaria.

Mas a maçonaria não é uma religião aberta, como é, por exemplo, a religião católica: antes, é uma religião secreta. Não é possível entrar num templo maçónico com a mesma liberdade total — desde que com respeito — de movimentos que um cidadão qualquer pode entrar numa igreja católica em plena celebração da Missa Dominical. Neste aspecto, a religião maçónica também se assemelha ao Islamismo; quando estive, por exemplo, na Grande Mesquita de Casablanca, em Marrocos, verifiquei que estavam sempre dois brutamontes à porta da mesquita a seleccionar quem podia entrar nela e quem não podia; e a mim foi-me proibida a entrada. E o mesmo tipo de acção de filtragem ao postigo se passou na mesquita central de Istambul, que eu vi com os meus olhos que a terra há-de comer.

Sendo uma religião secreta, a maioria dos maçons são incógnitos, ou seja, o povo e a opinião pública, e mesmo muitos políticos, não os conhecem. E não os conhecendo, a maçonaria utiliza os seus membros incógnitos em operações de tráfico de influências — o que é crime à luz do Código Penal português — para toda uma série de manobras de corrupção e compadrio ao mais alto nível do Estado.

A maçonaria lançou Portugal para o estatuto de república da bananas. A actual situação portuguesa de bancarrota teve o concurso activo da maçonaria.

Ora, uma instituição é constituída por homens. Uma instituição não é uma coisa abstracta: é composta por gente. E portanto, não podemos separar a instituição, por um lado, das pessoas que a constituem, por outro lado. Separar a instituição maçónica dos maçons portugueses em geral, é falácia. Portanto, se os maçons portugueses são, em geral, uma espécie de máfia calabresa ou de uma Camorra, a instituição maçónica portuguesa passa a ser a sé espiritual de um bando de criminosos.

Em terceiro lugar, o José Pacheco Pereira vem com a lenga-lenga da ignorância dos outros em relação à maçonaria. O que o José Pacheco Pereira sabe da maçonaria é aquilo que lhe convém; mas falta saber aquilo que não lhe convém, ou aquilo que não lhe convém saber, ou mesmo aquilo que ele não faz ideia que nunca poderá saber.

O José Pacheco Pereira tirou um curso de filosofia com nota final baixa, passou a militar num partido político radical de esquerda de que ele era o único militante, e depois entrou para o Partido Social Democrata pela mão do benjamim de Sá Carneiro, que mais tarde foi o tal secretário-de-estado da cultura de um governo do apdeuta Cavaco Silva e que afirmou, um dia, que adorava ouvir os “violinos de Chopin”.

O que é que dá alguma autoridade de direito — e de facto — para o José Pacheco Pereira dizer que quem critica a maçonaria é ignorante?! O que é que o José Pacheco Pereira sabe da maçonaria que eu, por exemplo, não saiba? Por que é que o José Pacheco Pereira não diz o que sabe da maçonaria? Por que é que o José Pacheco Pereira, em vez de apodar de ignorantes os críticos da maçonaria, não explica por que são ignorantes? Por que é o José Pacheco Pereira pretende ignorar ostensivamente o que é maçonaria? De que é que o José Pacheco Pereira tem medo, ou o que é que ele tem receio de perder, quando não deixa de proteger a maçonaria e os seus actos criminosos? Por que é que o José Pacheco Pereira não mete a viola ao saco, e faz a sua vidinha enquanto os “irmãos” não se esquecem dele?

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9 Comentários »

  1. Boas Orlando. Existe de facto muita incoerência relativamente ao que é a maçonaria. Eu penso, pelo que tenho lido e investigado, que existiu uma maçonaria antes desta actual. Provavelmente a mesma nem teria esse nome antes do século XV.
    A maçonaria actual nada tem de religioso nem de espiritual, nem de coisa nenhuma. É simplesmente uma central de influências. Isto pelo menos em Portugal, pois não se conhece com exactidão o que se passa noutros países.
    Mas voltando um pouquinho atrás, e pelo que tenho lido ultimamente, Pessoa considerava-se cristão (!?) mas oposto ao cristianismo da igreja católica e romana. Se foi ou não assim, não o sei, mas parece-me contudo que o gnosticismo pessoano não estava totalmente desligado ou em oposição ao cristianismo ou cristismo como a ele se lhe referia.

    Sobre a maçonaria gostava de indicar um livro muito interessante sobre o assunto “Dogma e ritual da maçonaria e da igreja católica” de Vítor Manuel Adrião. Se quiser posso um dia fotocopiá-lo e enviá-lo por PDF. Cumprimentos.

    Comentário por Filipe Crisóstomo (@Skedsen) — Quarta-feira, 27 Junho 2012 @ 2:33 pm | Responder

    • 1. Até meados do século dezoito, mais ou menos, existia a maçonaria operativa. A partir daí formou-se a maçonaria especulativa que é a que temos hoje. Porém, não podemos dissociar uma da outra, no que respeita à evolução do conteúdo doutrinário.

      Aqueles que dizem que “a maçonaria especulativa não tem doutrina” apenas afirmam que a doutrina da maçonaria é destituída de doutrina. A negação de uma doutrina ou de qualquer doutrina é sempre uma forma de doutrina. E como a maioria não sabe — nem mesmo os maçons dos primeiros três graus — o que se passa, do ponto de vista doutrinário, nos graus superiores das obediências maçónicas, podemos deduzir que a negação de uma doutrina constitui, ela própria, uma indicação de uma doutrina que a maioria desconhece.

      2. Eu referi-me a Portugal. Provavelmente, penso eu, existe uma certa sintonia entre a maçonaria portuguesa e a europeia em geral, e a da Europa continental em particular (França). A maçonaria europeia actual é um veneno social, é um antro de sociopatas: ou de criminosos, ou de gente provida de uma fé metastática inabalável muitíssimo mais nefasta para a sociedade do que os estalinistas mais fanáticos, porque estes últimos não enganam ninguém.

      Provavelmente não se passa o mesmo nos Estados Unidos e no Brasil. Não posso dizer com a mesma certeza.

      3. Eu nunca li nada de Fernando Pessoa em que ele se afirmasse cristão — e já li muito de Fernando Pessoa. Nunca vi nada escrito dele, preto no branco, de uma forma clara, em que ele se dissesse cristão. Se alguém conhece algum trecho dele com essas características, faça-me o favor de me apontar, porque eu gosto muito de aprender.

      Um indivíduo que escreveu que “Jesus Cristo não existiu” não pode ser cristão. Como é possível, a um marxista, por exemplo, ser marxista ao mesmo tempo que escreve que “Karl Marx não existiu”?

      Naturalmente que Fernando Pessoa não foi imune à cultura cristã e à sua herança intelectual, porque isso seria uma impossibilidade objectiva. Dou um exemplo: se eu tivesse nascido num país islâmico, possivelmente colocaria em causa a pertinência e a lógica, não só de alguns aspectos do Alcorão, mas sobretudo os Hadiths. Porém, apesar disso, eu nunca deixaria de ter a minha identidade pessoal ancorada no Islão! mas isso não faria de mim necessariamente um muçulmano.

      4. Agradecia que alguém me indicasse um só trecho — um só, chega! — em que Fernando Pessoa faça a apologia da acção do Cristianismo. Um só! Em relação ao Cristianismo, Fernando Pessoa constata os factos históricos — não com a frieza do historiador, tentando obnubilar os aspectos positivos e carregar nos matizes negativos.

      Para Fernando Pessoa, a História de Portugal propriamente dita pára em D. João II, porque a partir de D. Manuel os judeus foram expulsos. Para Fernando Pessoa, a expulsão dos judeus ditou o fim da História de Portugal — e o que vem a seguir à expulsão dos judeus é, para Fernando Pessoa, é apenas uma continuidade sem consequência do “português moderno” que Pessoa considera uma espécie de mentecapto. Ou seja, para Fernando Pessoa, a expulsão dos judeus transformou os portugueses em uma espécie de animais irracionais.

      Todos nós condenamos a expulsão dos judeus. Mas comparando o que D. Manuel fez, com aquilo que os alemães — que Fernando Pessoa tinha em altíssima consideração, considerando os alemães o exemplo do povo que os portugueses deveriam seguir! — fizeram aos judeus, a diferença é abismal!

      5. Cuidado com os livros que existem por aí sobre a maçonaria: ou são apologias (a maioria deles), ou são análises de efeitos que não têm em consideração as causas. O ideal seria começarmos pelo princípio, ganhando algumas noções da Cabala e da sua origem histórica, por exemplo.

      Comentário por O. Braga — Quarta-feira, 27 Junho 2012 @ 4:10 pm | Responder

  2. “Provavelmente não se passa o mesmo nos Estados Unidos e no Brasil. Não posso dizer com a mesma certeza. ”

    Coincidentemente, eu estou para publicar um artigo escrito no século dezenove que trata da influência da maçonaria na America Latina, e em particular da atuação dela contra a Igreja Católica no Brasil – atuação, por assim dizer, liderada pelo Imperador.

    “Eu nunca li nada de Fernando Pessoa em que ele se afirmasse cristão — e já li muito de Fernando Pessoa.”

    O homem tinha um entendimento muito peculiar do que seria o “cristianismo.” Na sua conhecida ficha pessoal ele descreveu sua posição religiosa desta maneira: “Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas e, sobretudo, à Igreja Católica. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.”

    Aliás, isso de “tradição secreta do Cristianismo” é hilário.

    O sr. disse: “Fernando Pessoa tinha um conhecimento extenso e profundo de História (e não só de Portugal).”

    Entretanto, na tal ficha pessoal Pessoa parece acreditar na lorota de que a maçonaria descende diretamente dos Templários:

    “Some 400 years after the death of de Molay and the dissolution of the Knights Templar, the fraternal order of Freemasonry began to emerge in northern Europe. The Masons developed an elaborate mythos about their Order, and some claimed heritage from entities in history, ranging from the mystique of the Templars to the builders of Solomon’s Temple. The story of de Molay’s brave defiance of his inquisitors has been incorporated in various forms into Masonic lore. One modern youth group sponsored by Freemasonry is even named after the Grand Master, DeMolay International. The stories of the Templars’ secret initiation ceremonies also proved a tempting source for Masonic writers who were creating new works of pseudohistory. As described by modern historian Malcolm Barber in The New Knighthood: “It was during the 1760s that German masons introduced a specific Templar connection, claiming that the Order, through its occupation of the Temple of Solomon, had been the repository of secret wisdom and magical powers, which James of Molay had handed down to his successor before his execution and of which the eighteenth-century Freemasons were the direct heirs.”

    “Cuidado com os livros que existem por aí sobre a maçonaria: ou são apologias (a maioria deles).”

    É verdade, o que de melhor se escreveu sobre a maçonaria e instituições similares (Rosa-Cruz, Hermeticices variadas, etc..) é obra de apologistas. Ver, por exemplo, o trabalho do Instituto Warburg.

    Comentário por pedrogarciaburgales — Quarta-feira, 27 Junho 2012 @ 7:52 pm | Responder

    • “Na sua conhecida ficha pessoal ele descreveu sua posição religiosa desta maneira:”

      É absolutamente falso que se trate de uma nota autobiográfica !

      Trata-se de um texto apócrifo e resumido, que surgiu a lume depois da morte de Fernando Pessoa, com a data de 1933, e que depois foi mudada para 1935, o ano da morte de Fernando Pessoa. De facto pretende ser uma nota biográfica, mas não é autobiográfica.

      Fernando Pessoa não foi cristão, em nenhuma forma senão a de ter sofrido a influência da cultura cristã das sociedades em que viveu — primeiro, na África do Sul e depois em Portugal. Não há, em nenhum texto escrito – e comprovadamente escrito — pelo punho de Fernando Pessoa em que ele se assuma claramente como cristão.

      Não existe prova absolutamente nenhuma de que essa putativa nota autobiográfica tenha sido escrita pelo punho de Fernando Pessoa.

      ***********************************

      Posto isto: é claro que ele foi um gnóstico.

      Reparem bem: um “gnóstico cristão” não deixa de ser cristão, e de abraçar uma religião cristã. Dou um exemplo de um gnóstico cristão: Joaquim de Fiore.

      Ser gnóstico cristão na significa que a pessoa em causa deixe de ser católica por esse facto.

      Outro exemplo de um gnóstico cristão mais actual: Hans Kung.

      Dizer que um indivíduo é “cristão gnóstico” quando afirma, preto no branco, que Jesus Cristo não existiu e que foi uma invenção política dos “imperadores romanos decadentes”, só pode caber na cabeça de um idiota — e na Wikipédia também!

      Comentário por O. Braga — Quarta-feira, 27 Junho 2012 @ 11:11 pm | Responder

  3. “O Cristianismo, historicamente considerado, é um produto complexo. A sua essência, ou parte metafísica, é grega, é platónica; e com razão se pode dizer que Platão é o verdadeiro fundador do cristianismo.

    Elevada a filosofia de Platão às transcendências místicas da Escola de Alexandria, infiltrou-se esta, através várias da Cabala judaica, numa qualquer seita herética dos judeus — presumivelmente os Essénios —, e, daí, agregando mitos (na maioria assírio-babilónicos) e fragmentos vários de coisas históricas, veio a formar-se o Cristianismo que, depois de uma luta, cujo resultado esteve um tempo incerto, com uma religião rival, o mitraísmo, finalmente venceu e assoberbou o Império: quanto à pessoa do fundador do Cristianismo, a própria existência dela é indeterminável; a complexa inautenticidade dos Evangelhos, as interpolações das Epístolas de Paulo, as falsificações de textos e de testemunhos na primeira literatura da seita, tornam hoje impossível qualquer opinião que timbre em presumir segura.

    S. Paulo, omitindo das cartas que lhe atribuem dois ou três textos reconhecidamente interpolados, não conhece um Cristo com biografia senão uma abstracção redentora e divina.

    A máxima probabilidade — mas não passa de uma probabilidade — é que o sistema houvesse tomado por núcleo a vaga figura de Jeshu ben Pandira, que, segundo o Talmude, (em passo insuspeito, pois o não relaciona com Cristo) foi pendurado numa árvore e lapidado, na véspera da Páscoa, em Lídia, no reinado de Alexandre Janeu — isto é, cerca de cem anos antes da nossa Era.”

    — Fernando Pessoa, in “Da Guerra Alemã”

    Como escreveu o poeta Aleixo, “para uma mentira ser segura e atingir profundidade, tem que trazer à mistura qualquer coisa de verdade”. De facto, este texto de Pessoa tem uma ou outra coisa verdadeira, mas a sua essência é vergonhosamente falsa.

    Desconstruir este texto de Fernando Pessoa daria para escrever, pelo menos e de uma forma sucinta quanto possível, duas ou três páginas. Mas não nos insultem a inteligência dizendo que Pessoa foi cristão!

    Comentário por O. Braga — Quarta-feira, 27 Junho 2012 @ 11:49 pm | Responder

  4. “É absolutamente falso que se trate de uma nota autobiográfica!

    Trata-se de um texto apócrifo e resumido, que surgiu a lume depois da morte de Fernando Pessoa, com a data de 1933, e que depois foi mudada para 1935, o ano da morte de Fernando Pessoa. De facto pretende ser uma nota biográfica, mas não é autobiográfica.”

    Aprende-se uma coisa nova todo dia.

    “Dizer que um indivíduo é “cristão gnóstico” quando afirma, preto no branco, que Jesus Cristo não existiu e que foi uma invenção política dos “imperadores romanos decadentes”, só pode caber na cabeça de um idiota — e na Wikipédia também! ”

    Não só na Wikipedia, pois diz lá:

    “Publicada pela primeira vez, muito incompleta, como introdução ao poema À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, editado pela Editorial Império em 1940. Publicada em versão integral em Fernando Pessoa no seu Tempo, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1988, pp. 17–22.”

    Pelo visto a Biblioteca Nacional portuguesa também caiu nessa esparrela.

    “Desconstruir este texto de Fernando Pessoa daria para escrever, pelo menos e de uma forma sucinta quanto possível, duas ou três páginas. Mas não nos insultem a inteligência dizendo que Pessoa foi cristão!”

    Falando francamente, eu não compreendo a atenção que esse poeta recebe. É sem dúvida um homem de talento, mas é um escritor menor. E há quem o compare ao Camões! E ainda por cima o compare favoravelmente ao Camões! Coisas da nossa época.

    Comentário por pedrogarciaburgales — Quinta-feira, 28 Junho 2012 @ 1:32 am | Responder

    • ***********************

      “Pelo visto a Biblioteca Nacional portuguesa também caiu nessa esparrela.”

      A Biblioteca Nacional funciona também como uma editora: também publica “coisas”. Nem tudo o que uma editora publica é isento de polémica. Não é por ser a Biblioteca Nacional a publicar uma “coisa”, que essa “coisa” tem que ser necessariamente correcta e/ou verdadeira. Não se trata de “cair na esparrela”: trata-se, antes, de seguir uma tendência de opinião que, depois, se revelou incorrecta. Isso acontece muitas vezes com instituições altamente consagradas, em todos os países.

      Uma coisa é Fernando Pessoa poeta: é um génio da língua.

      A genialidade e o génio são termos que só se aplicam à arte e ao artista, e são extensíveis a outras áreas — por exemplo, à ciência — apenas por analogia. Dizer, por exemplo, que “Einstein foi um génio” é um eufemismo. Só um artista é um génio.

      Um génio da literatura é aquele que transforma a língua por intermédio da criatividade.

      A criatividade, ao contrário do que acontece com a inteligência, tem um pensamento divergente. O pensamento divergente do génio literário refere-se a informações novas que são, em larga escala, independentes de informações já conhecidas ou antigas. Porém, ao pensamento divergente, o génio tem que juntar a capacidade crítica que lhe permite identificar e colocar de lado, de forma imediata, as ideias mais estapafúrdias. Um génio não é apenas alguém que recria a língua ou que inventa uma língua nova a partir da antiga: antes, é alguém que junta o pensamento divergente a um apurado espírito crítico.

      Outra coisa é Fernando Pessoa filósofo: tem muitas lacunas e é mediano.

      Do ponto de vista da filosofia, Fernando Pessoa é mediano, o que não é estranho e está em consonância com a dificuldade que os poetas têm de se entranhar na filosofia. A poesia é filosofia sem lógica.

      E ainda outra coisa é Fernando Pessoa historiador e sociólogo.

      Do ponto de vista do conhecimento da História, Fernando Pessoa foi um mestre. E foi essa mestria que lhe permitiu enviesar os factos históricos por forma a fazer vingar a sua mundividência peculiar e hipster. E por isso é que a Biblioteca Nacional editou um poema de Pessoa com uma autobiografia apócrifa.

      Fernando Pessoa foi um hipster da década de 1920.

      Comentário por O. Braga — Quinta-feira, 28 Junho 2012 @ 3:52 am | Responder

  5. Voltando ao tema, é verdade que Pessoa não era cristão nem sequer em nenhum escrito seu ele se afirma como tal. Chega até a afirmar-se como anti-cristão. Mas também é verdade que para quem lê Pessoa, esse anti-cristianismo não é para ser levado a sério. O que Pessoa criticava não era a religião católica em si, mas sim os seus métodos e a sua direcção. No livro “Textos Filosóficos” Vol. II nas páginas 93 e 94 é dito o seguinte: «O Cristianismo é uma concepção do paganismo transcendental. A direcção do Cristismo está certa; o que está errado é a interpretação desta direcção. (…) A direcção do Cristismo – que o universo, apesar de verdadeiro, é ilusório – está certa; mas a sua maneira de entender essa direcção é que está errada. O universo não é ilusório por ser universal, ou por ser imperfeito; é ilusório apenas por ser ilusório.»

    Ainda no mesmo livro nas páginas 82 e 83 lê-se o que se segue: «A religião é disciplinadora da inteligência no sentido de que lhe dá uma base, sobre que confiadamente assente. (…) De modo que a religião neste ponto está de acordo com a natureza, ou melhor dizendo, com Deus, como não podia deixar de ser. Mas a base que a religião fornece qual é? A base metafísica, a base do investigável, a base do vago, do indefinido. Ora, se repararmos bem, veremos que esta é a verdadeira base do progresso. (…) Se a religião não assentasse numa base metafísica certa, estável, teríamos uma inversão das condições de todo o progresso, porque haveria uma instabilização do próprio fundo. A ausência de sentimento religioso tem isto de péssimo: que é a ausência de todo o progresso, porque é ausência de toda a base, de todo o ponto de apoio para se progredir.»

    Nas páginas 84 e 85 podemos ainda ler o seguinte: «A religião não só é a condição da liberdade do pensamento, porque seja a condição da liberdade eficaz do pensamento, como é a condição da função hígida do pensamento. Mas, além de tudo isto, a religião é uma educação do pensamento, o que a ciência é apenas em certo grau, e a metafísica em grau nenhum. (…) A religião elimina a hesitação na vida; por isso é um poderoso tónico da vontade. A religião envolve um equilíbrio das emoções, porque, como ensina largas coisas humanitárias, ensina a emoção humanitária, por onde, sempre que venha uma emoção violenta, essa emoção traz consigo com que se domine.»

    A religião que aqui se fala nestes escritos é a católica, e como se vê, Pessoa não mostra nenhum tipo de animosidade para com ela. Na minha opinião, e podendo eu estar errado, Pessoa naõ era anti-cristão como o mesmo afirmava em alguns textos seus. Poderia não ser cristão na verdadeira acepção do termo, mas sabia e compreendia o que de bom e proveitoso possuía o Cristianismo. Não considerava o Cristianismo um erro histórico como o fizeram outros, apenas criticava e discordava dos métodos e da direcção tomada pelos representantes do mesmo.

    Comentário por Filipe Crisóstomo (@Skedsen) — Quinta-feira, 28 Junho 2012 @ 9:57 am | Responder

    • Em primeiro lugar, no livro a que fez referência, existem capítulos que correspondem ou a opúsculos de Fernando Pessoa, ou a artigos que ele publicou em jornais. E esses capítulos têm nome. Por exemplo: “Nacionalismo Liberal”; “Sobre Portugal”; etc. Sem me dar as indicações correctas, e só me dando o número de páginas, é impossível que eu corrobore aquilo que escreveu. Só dando-me o nome da obra ou o nome do artigo, poderei verificar.

      «O Cristianismo é uma concepção do paganismo transcendental. A direcção do Cristismo está certa; o que está errado é a interpretação desta direcção. (…) A direcção do Cristismo – que o universo, apesar de verdadeiro, é ilusório – está certa; mas a sua maneira de entender essa direcção é que está errada. O universo não é ilusório por ser universal, ou por ser imperfeito; é ilusório apenas por ser ilusório.»

      Repare bem: esta crítica de Fernando Pessoa ao “cristismo” poderia vir, por exemplo, de duas áreas de pensamento diferentes: ou da doutrina Zen, ou do positivismo do bispo irlandês Berkeley. Este último, sim, era um “cristão gnóstico”, porque era bispo anglicano.

      Portanto, dizer que “o que Pessoa criticava não era a religião católica em si, mas sim os seus métodos e a sua direcção”, é a mesma coisa que dizer que “criticava a religião católica em si”, porque não é possível dizer, por exemplo, que uma mulher é bonita e feia ao mesmo tempo: há um conceito que dá pelo nome de “terceiro excluído”. Ou se concorda com a essência — repito: a essência — da doutrina católica, ou não.

      A não-concordância com o catolicismo, entendido como um todo, não significa necessariamente que se seja anticatólico. Podemos não concordar numas coisas e concordar noutras.

      A interpretação religiosa de Fernando Pessoa era imanente — semelhante ao Budismo. A interpretação religiosa do catolicismo é simultaneamente imanente e transcendente. Para Fernando Pessoa, Deus era o deus de Espinoza: Deus sive Natura; e/ou o deus imanente da Cabala. O Cristianismo vai para além disso: é uma doutrina religiosa mais completa do que, por exemplo, o Budismo.

      «A religião é disciplinadora da inteligência no sentido de que lhe dá uma base, sobre que confiadamente assente.»

      Eu nunca escrevi aqui que Fernando Pessoa não era religioso; pelo contrário! Mas uma coisa é ser religioso, outra coisa diferente é ser cristão, e outra coisa ainda é ser católico.

      Uma coisa é eu dizer que “é preferível seguir a religião budista do que não seguir nenhuma religião”. Outra coisa é eu dizer que “sou budista”. E outra coisa diferente ainda é eu dizer que, “apesar da religião budista estar errada na sua interpretação e na sua direcção, sempre é melhor do que não ter religião nenhuma”.

      Fernando Pessoa, sendo religioso, não poderia criticar a religião entendida em si mesma; assim como eu critico o Alcorão mas não critico o Islamismo entendido em si mesmo.

      Fernando Pessoa viveu obcecado pelo “progresso”. Ora, o progresso não é uma lei da natureza — ao contrário do que Fernando Pessoa, a espaços, defendeu!

      “Não considerava o Cristianismo um erro histórico como o fizeram outros,”

      Eu nunca afirmei que Fernando Pessoa considerava o Cristianismo um erro histórico! Vamos lá recentrar a discussão.

      O que eu digo e disse é que 1) Fernando Pessoa não era cristão porque ele próprio não se considerava cristão; 2) Fernando Pessoa era um gnóstico, e portanto, religioso, e não era um “cristão gnóstico”; 3) Fernando Pessoa colocou em causa a existência histórica de Jesus Cristo, na minha opinião, tentando obnubilar os escritos e testemunhos que já existiam disponíveis no tempo de Fernando Pessoa, a ver:

      Um dos maiores historiadores judeus do tempo de Jesus foi um fariseu, de nome Josefo. Numa das crónicas do seu tempo (versão francesa: “Les Antiquités » – 20.200), Josefo descreve uma cena no Sinédrio em que um homem de nome Tiago, que segundo Josefo era «irmão do Jesus que se chamou a si próprio como “o Cristo”», foi condenado a ser apedrejado pelo crime de transgressão à lei judaica. Portanto, o nome de Jesus Cristo aparece, preto no branco, nos anais escritos pelo historiador judeu Josefo.

      Tácito foi um historiador romano do primeiro século da nossa era. Tácito relatou a fúria de Nero em relação aos cristãos, anotando a origem da seita religiosa que, segundo ele, provinha de um judeu de nome “Cristo” que viveu durante o consulado de Tibério e que morreu às mãos do procurador Pôncio Pilatos. (Tácito, “Anais”, 15.44). Portanto, logo no primeiro século depois da morte de Jesus, uma pessoa tão independente como o historiador romano e pagão Tácito referiu-se a Jesus Cristo e à sua morte.

      Plínio, “O Novo”, governador da Betânia ― Ásia Menor; terra dos antigos Trácios, que actualmente faz parte da Turquia ― escreveu ao imperador Trajano (Plínio, “O Novo”, “Cartas”, 10:96) uma carta em que se referiu a uma seita que seguia os ensinamentos de um tal “Jesus, O Cristo”, descrevendo esse culto como “degenerado”.

      Negar o “Jesus histórico” é a forma primária de negar a própria mensagem de Jesus. Não podendo combater ― sob o ponto de vista ético e moral ― os princípios em que assenta a doutrina de Cristo, a melhor maneira de colocar em causa essa ideologia é dizendo que o seu autor não existiu.

      Corolário: com relação ao cristianismo, e ao negar o Jesus histórico, Fernando Pessoa agiu com muita má-fé! — porque eu não acredito que Fernando Pessoa fosse burro.

      Comentário por O. Braga — Quinta-feira, 28 Junho 2012 @ 10:52 am | Responder


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