perspectivas

Sábado, 16 Junho 2012

A miopia dos liberais portugueses

Uma certa direita portuguesa defende o comportamento da Alemanha na crise do Euro com unhas e dentes, ao mesmo tempo que diaboliza os países mal comportados. Essa postura é traduzida, por exemplo, na opinião escrita por José Manuel Fernandes [JMF] no jornal Público (ver aqui em PDF).

É certo que existem na zona Euro países “mal comportados”. Mas que diabo, como é que JMF explica o caso da Espanha? Ainda não vão dois anos, e apesar da crise, a Espanha tinha uma dívida pública de cerca de 40% do PIB e um superavit na balança de pagamentos. Como é que, em dois anos, a Espanha passou de uma dívida pública de 40 para 80%? A resposta a esta pergunta é a tal, em relação à qual, o JMF foge como o diabo da cruz. E a resposta chama-se Ângela Merkel.

Em dois anos, o sistema bancário alemão sugou literalmente a Banca espanhola, exigindo a transferência imediata para a Alemanha de activos que tinha nos Bancos espanhóis, obrigando o Estado espanhol a intervir no sector da Banca, duplicando-se assim a dívida pública espanhola. Isto é tão verdade como o JMF se chamar José Manuel Fernandes. Então, por que é que, à direita neoliberal, lhe custa aceitar o óbvio e reconhecê-lo publicamente?

Isto significa que, pelo menos desde o princípio da crise do Subprime que começou em 2007, a Alemanha jogou um jogo de alto risco e teve uma política financeira delineada e propositada que descambou na actual situação.


Há pelo menos há seis anos que defendo a paulatina, lenta e sossegada saída de Portugal do Euro. Escrevi 157 postais advogando a saída lenta e programada de Portugal do Euro. Em função desta minha posição, este blogue foi motivo de chacota por parte de economeiros da blogosfera. Ainda há pouco tempo, João César das Neves jurava a pés juntos que os outros eram ignorantes e que a saída de Portugal do Euro pelo seu próprio pé era um absurdo. Vejam o que eu escrevi, por exemplo, no dia 3 de Outubro de 2011 [já era tarde]:

“A visão tremendista e apocalíptica de João César das Neves no que diz respeito à saída voluntária (não se trata de uma expulsão!) de Portugal do Euro, parece esquecer que podemos sair do Euro de uma forma apoiada e a prazo. Ninguém defende a saída do Euro para amanhã; mas ninguém, em bom juízo, pode prever que Portugal está melhor, do ponto de vista económico, daqui a dez anos, se permanecer no Euro. A política específica da Europa do directório simplesmente nunca permitirá uma emancipação económica dos países mais fracos da zona Euro.”

Quem se deve estar a rir neste momento é o economista João Ferreira de Amaral, que também defende, há pelo menos 4 anos, a saída sossegada e programada de Portugal do Euro. E mesmo João Ferreira do Amaral, um professor universitário de economia, foi objecto de chacota por parte do Partido Socialista [sustentado pelo Bloco de Esquerda, naturalmente], Partido Social Democrata e CDS/PP. A classe política portuguesa funcionou em bloco: “perante o abismo, deu um passo em frente”.

Naturalmente que virão os idiotas de sempre dizer que é impossível sair do Euro de uma forma sossegada e programada [a tal “saída ordenada”]. Mas a política é exactamente isso: a arte do possível. E uma saída sossegada do Euro depende de uma posição interna e independente de Portugal que a nossa classe política e os me®dia neoliberais já não conseguem exprimir, porque se tornaram mentalmente dependentes do estrangeiro, ou seja, neste caso, dependente dos alemães e de Angela Merkel, como podemos constatar através do branqueamento do papel da Alemanha em todo este processo.

Angela Merkel, e os míopes que a circundam, estão convencidos de que um eventual peido-mestre do Euro não afectará grande coisa a economia alemã. Há pelo menos 7 anos que a estratégia da política económica alemã mudou para os países de leste, incluindo a Rússia — o que revela que toda esta displicência e arrogância alemã é uma consequência de um plano.

Mas a economia russa não é infinita; o Brasil está mais interessado em exportar do que em importar; a China não valoriza a sua moeda e já produz cópias de Mercedes-Benz; nos Estados Unidos, a mudança de paradigma está próxima: com Romney, vamos ter abaixamento de impostos e subida abrupta das taxas aduaneiras que restrinjam as importações. Angela Merkel corre o risco de passar a almoçar um Volkswagen e a jantar um BMW.

E, no entanto, estes idiotas chapados continuam a dizer que os alemães são o supra-sumo…!

Adenda: o alarmismo me®diático do JMF e outros faz parte de uma estratégia política delineada para obrigar os portugueses a aceitar a alienação total e incondicional de Portugal ao poder político da Alemanha. Estamos em presença da fabricação de um IV Reich, e por isso é gente desta se sente incomodada com os comunas.

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