perspectivas

Sexta-feira, 1 Junho 2012

A democracia e o futuro, segundo Thomas Bertonneau e Spengler

« Culture, Spengler asserts, must insist on itself; it must exercise its prescriptions imperiously, or it will die. Once the bearers of Culture succumb to the sentimentality of “understanding,” of “acclamation… and support” for the amorphous, for the alien, the Culture has yielded itself entirely. In Spengler’s view this has been the case in the West since the middle of the Nineteenth Century. Western civilization, he writes, “offers no defence,” none at all, on its own behalf, while at the same time “it takes pleasure in its own vilification and disintegration.” Following Jean-Jacques Rousseau, clever, all-too-clever people celebrate tribal crafts and savage customs, imputing to them a supposed authenticity lacking in the Western heritage. Soon those people celebrate savagery itself. »

(…)

« Nihilists never call themselves that. Candor would give their game away. Nihilists call themselves soldiers of “Liberty” or champions of “Liberation. »

via Oswald Spengler On Democracy, Equality, And “Historylessness” | The Brussels Journal.

Eu tenho imensa dificuldade em aceitar os pressupostos da filosofia de Spengler. Spengler é um historicista pessimista que critica os historicistas optimistas, mas não deixa de ser historicista. E eu tenho um “problema” com os historicistas; mas tenho que aceitar que algumas conclusões de Spengler são verdadeiras — ou seja, que ele chega, aqui e ali, às conclusões certas embora mediante um raciocínio enviesado.

A forma como Spengler vê a História é, de certo modo, naturalista; e aqui, Spengler entra em contradição com os seus conceitos de cultura e de civilização que se opõem à natureza pura: por um lado, a História é uma espécie de “organismo natural”; e, por outro lado, a civilização opõe-se à natureza. Classificar Spengler é tentar decifrar um enigma; mas ele tem razão em muitas críticas que faz à modernidade, e essas críticas são baseadas em factos.

Eu acho que ser pessimista é uma chatice, e ser optimista é ser estúpido ou ingénuo. Um pessimista não vive a vida, e um optimista corre sempre o risco iminente e sério de perdê-la antes do seu fim. Em alternativa ao pessimismo e ao optimismo, devemos olhar para os factos e analisá-los de uma forma tão objectiva quanto nos seja possível; e embora existam alguns pontos de vista e conclusões comuns a Eric Voegelin e a Spengler, eu aprecio mais a frieza analítica e não-historicista do primeiro do que a análise historicista, apaixonada e mesmo fantasiosa do segundo.

Thomas Bertonneau, no texto citado, assume e secunda o pessimismo historicista de Spengler; é certo que os factos relatados correspondem à realidade, mas não podemos, a partir deles, fazer profecias acerca do futuro — que é que Thomas Bertonneau, Spengler e mesmo Ortega y Gasset fazem. É impossível prever o futuro. Não podemos olhar para o passado e profetizar a recorrência da similitude da História. O princípio do eterno retorno, de Nietzsche, é o absurdo idealizado ou uma forma de religiosidade gnóstica. Existem fenómenos históricos que contrariam a afirmação de um padrão normativo e necessário da História.

Se a História tem um padrão necessário e recorrente, ou se tem um sentido oculto, então temos que concluir que tanto o primeiro como o segundo são ininteligíveis ao ser humano. E, neste sentido, concordo com Edgar Morin: 1) os homens fazem a História que os faz; 2) a História faz os homens que a fazem; e 3) os homens fazem a sua história sem a fazerem. Mas ainda falta uma quarta componente, que Edgar Morin não referiu: 4) a História é feita com os homens que não sabem que a fazem. A História não é um trilema; antes, é um tetralema.


O problema da democracia depende da capacidade de conter os movimentos mais radicais e niilistas, mesmo usando da violência necessária. A democracia não pode ser sinónimo da tolerância em relação à tentativa de erradicação da democracia, nomeadamente através da acção política tendente ao “progresso da opinião pública” em relação à legitimação e legalização da barbárie que é pasto fértil para qualquer tipo de totalitarismo.

De resto, concordo com Karl Popper, segundo qual, a democracia é a única forma de retirarmos, do poder, um governo corrupto ou incompetente, sem derramamento de sangue. Mas isso não significa que a tolerância seja ilimitada; não significa que tenhamos que tolerar quem procura minar a nossa cultura, a nossa História, os nossos valores espirituais, a nossa ética multi-secular, e a nossa civilização; não significa que tenhamos que tolerar quem pretende destruir a nossa sociedade para, em delírio interpretativo, “construir o Homem Novo”. Essa gente não pode ser tolerada.

Portanto, a democracia tem que assentar em uma “base fundamental” que não pode ser tão pluralista ao ponto de tentar conciliar o que é, em si mesmo, absolutamente irreconciliável. Não é possível conciliar, por exemplo, a opinião de quem defenda a igualdade total em situações que são, de facto e de forma absolutamente objectiva, intrinsecamente diferentes. Não temos a obrigação de aturar utopistas lunáticos e loucos; e temos mesmo a obrigação de os isolar política e socialmente.

Mas o facto de a democracia dever assentar nessa “base fundamental”, não significa que não devamos também restringir a aplicação do conceito de “vontade geral”, segundo Rousseau.

A “vontade geral” de Rousseau é pau-para-toda-a-colher. A “vontade geral” serve para impor ao povo uma qualquer vontade que não é, de todo, geral. A “vontade geral” serve para legitimar governos corruptos — como, por exemplo, os governos coordenados pelo corrupto José Sócrates — e para branquear abusos de poder — como, por exemplo, o caso de José Relvas versus jornal Público. A “vontade geral” de Rousseau significa a antítese da democracia, no sentido em que não só não contraria os abusos de poder, mas também porque retira ao povo a consciência da sua responsabilidade colectiva.

Enfim: não concordo totalmente com a visão da democracia de Spengler. Este ensaio de Thomas Bertonneau, dada a sua diversidade nos temas abordados, será objecto de outros verbetes; aqui.

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